Construir pontes

Antes a vida era muito mais difícil. Quantas vezes muito de nós ouviram isso? Mas ser adulto hoje parece ser mais complexo do que antes. Movermo-nos entre diferentes estágios da vida, como escola, faculdade e trabalho, é algo desejado mas difícil para qualquer um de nós. E especialmente difícil quando as mudanças encontradas são sentidas como sendo ainda mais difíceis, como em muitas pessoas do Espectro do Autismo, mas não só. Esta 4ª feira começamos a planear os trabalhos a desenvolver ao longo de três anos no nosso projecto PICAP - Promoting Informed Choices for All Young People [Promover Escolhas Informadas para todos os Jovens].

Nos últimos anos temos tido a possibilidade de ouvir e ler em determinados relatórios da existência de uma percentagem de jovens que não estão a estudar, fazer formação ou a trabalhar. No espaço Europeu a média dos jovens nesta situação [nem-nem], entre os 16 e os 24 anos cifra-se nos 16%. Além disso a percentagem de estudantes que abandona precocemente os seus estudos e formação continua a ser preocupante. Não apenas pelas dificuldades que irão encontrar num futuro próximo na integração no mercado de trabalho. Mas também ao longo da sua vida adulta pelas dificuldades que apresentam em se conseguirem adequar a um mercado de trabalho exigente e em constante transformação. Mas esta não é a única preocupação. É também tudo o que tem a ver com o impacto que tudo isto tem na própria identidade destes jovens e o que representa em termos de projecto e com um resultado frequentemente assustador em termos do surgimento de patologia mental.


Como se pode perceber estas dificuldades nos diferentes processo de transição que todos nós sentimos e iremos continuar a sentir não se resume exclusivamente aos jovens com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo (PEA). Mas no caso destes a situação é mais grave e irá continuar se também nada for feito. E o que podemos fazer? É isso que o desenvolvimento deste projecto irá procurar responder.


Muitas vezes quando pensamos nestes jovens "nem-nem" recorremos a determinados estereótipos e adjectivos nada positivos - "preguiçosos", "parasitas", entre outros. Mas muitas vezes não conhecemos quem estes jovens são, que dificuldades mas também que competências têm. E o que têm a dizer sobre este seu processo e tudo o mais que os envolve. Uns e outros assustamo-nos ou sentimos que não sabemos o que fazer com eles e desresponsabilizamo-nos tal como tantos outros já o fizeram no passado. Tal como no espectro do autismo, muitas vezes ficamos demasiado centrados nas dificuldades e nos problemas causados e não pensamos em todas as competências, sejam aquelas que já existem mas também naquelas que podem vir a ser desenvolvidas. Mas no global e mais preocupante, não pensamos nas pessoas e com as pessoas. E isso é negar a sua identidade e oportunidade de participar na construção do seu projecto e das pontes necessárias de atravessar nos diferentes momentos de transição.


O nosso projecto para além de ir procurar construir um conjunto de informação adequada e acessível para estes jovens poderem aceder nos mais variados formatos - papel e digital irá procurar formação equipas de mediadores que estejam na proximidade deles para melhor conseguirem comunicar. A informação é fundamental. Apesar de já existir bastante informação, a mesma encontra-se espalhada, difusa e pouco adequada ao percurso de muitos destes jovens. Muitas vezes contactam com a informação já existente sobre a passagem para o ensino superior, formação ou mercado de trabalho e sentem que a informação apresentada tal como está é uma barreira. Seja pela forma como está descrita e apresentada, mas também no próprio conteúdo. Muitas vezes sentem logo à partida que não irão conseguir continuar por não terem determinados objectivos ou médias adquiridas. E desistem. E como sentem que são muito poucos aqueles que irão conseguir falar consigo acabam por ter a certeza de que o melhor é mesmo desistir.


Mas fundamentalmente é insistir naquilo que são as suas competências. Até porque muitas vezes estes jovens sentem que não têm nada adquirido ou tudo o que têm de nada vale. E isto é bastante frustrante. Mas mais do que estarmos a desenhar os projectos para eles e esperar que eles o escolham tal como numa loja, o objectivo é fazer com que eles próprios se sintam capacitados a escolherem o seu próprio percurso.

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