Como ser autista?

Se estou a brincar? Não, não brinco com coisas sérias! Porque é que chamei ao post, Como ser autista? Muito simples. Continuamos a ter uma percentagem significativa de pessoas adultas que não são diagnosticadas com Perturbação do Espectro do Autismo. E este número ainda é maior quando falamos das mulheres. Apesar de homens e mulheres adultos continuarem ao longo da vida a demonstrar comportamentos evidentes, uns mais do que outros, dentro do que é um Espectro do Autismo. Então o que se passa? Talvez as pessoas que podem fazer o diagnóstico, mas também as pessoas da Sociedade em geral estejam à espera que eles se comportem de uma forma diferente. Mas como? Se soubéssemos o assunto ficava resolvido e as pessoas Autistas que não estão a ser diagnosticadas passariam a sê-lo e a terem o acompanhamento que merecem. Quanto aos neurotipicos, agora não interessa!

Quando tenho dificuldade em compreender algo tenho por hábito decompor as coisas em partes menores. Já em criança fazia o mesmo com alguns brinquedos, ainda que nem sempre isso resultasse e depois já não soubesse montar de volta de forma igual. Os meus pais ainda hoje me lembram algumas dessas situações. Mas agora que penso, talvez as coisas possam fazer à mesma sentido ainda que montadas de forma diferente. Acredito que os meus pais possam ter uma opinião diferente e aceito. Mas ainda assim esta minha ideia continuou a fazer-me mais sentido. Neste caso especifico do Espectro do Autismo fico a pensar o que é que as pessoas têm de fazer para que acreditem que eles têm realmente determinadas dificuldades e que no seu conjunto elas tenha um nome - Perturbação do Espectro do Autismo (PEA). E que para além dessas mesmas dificuldades, essas pessoas também possuam um conjunto variado de competências. Sim, competências. Até porque as pessoas não têm somente dificuldades ou competências. Experimentem atirar uma moeda ao ar e vão verificar que não está sempre a sair coroa. Mas infelizmente as coisas parecem não correr desta forma. Dai a importância de desmontar para tentar perceber como podemos voltar a montar para que as coisas possam correr melhor.


Como ser autista? A pergunta em si é incomoda, reconheço. Principalmente porque quando pensamos na ideia de ser alguém ou algo fica-nos o pensamento de que estaremos a fingir, a não sermos nós próprios. Poderá haver alguém a se querer passar por autista? Nunca ouvi falar de tal coisa. Por isso, quando alguém, seja um profissional de saúde, professor ou outra pessoa ler um relatório de uma avaliação de alguém e lá ler que essa pessoa tem uma Perturbação do Espectro do Autismo não diga que não é verdade. Isso além de confundir a pessoa mais do que ela já possa estar, irá certamente magoa-la. Mas também não façam o outro papel que é ficar à espera que a pessoa se comporte como um autista. Como o autista que você tem na cabeça. As coisas simplesmente não funcionam assim. Os papéis não são estáticos e inflexíveis apesar de terem um mesmo nome - Perturbação do Espectro do Autismo. Mas ainda assim a pergunta persiste - Como ser autista?


Logo em pequeno, quando nascemos, se há coisa que fazemos é chorar. Somos peritos. Os pais acham piada ao princípio mas rapidamente deixam de o achar. Até porque há bebés que choram mais do que outros, certo? Mas se há coisa que os pais vieram equipados é com um conjunto de informação e competências para acalmar os seus bebés. Mas em alguns casos verificam que este seu bebé parece não se acalmar com o colo. Então os pais tentam o colo do outro progenitor. Umas vezes resulta e outras não. E quando não resulta experimenta-se amamentar. Até porque os bebés ainda não são autónomos. Mas por vezes o amamentar também serve para acalmar. Umas vezes resulta e outras não. E a partir dai se não resultar os pais vão procurando implementar mais e mais medidas à velocidade da sua criatividade e nível de privação de sono. Mas é um bebé e ele ainda não sabe o que faz, é mesmo assim. As coisas vão evoluindo, e do choro passa para o sono. E primeiro vai a mãe tentar adormecer, sendo que umas vezes resulta e outras não. Depois vai o pai, e acontece algo muito parecido. Até que pensam voltar a traze-lo de novo para a cama dos pais. E por vezes isso vai perdurando até aos 5, 6, 7, 8, 12 anos de idade. E quando não é o sono é a alimentação. Desde o serem demasiado particulares nas texturas, cheiros, cores, sabores, etc. Por vezes resulta melhor a comer com o pai do que com a mãe. E outras vezes nem por isso. Resulta melhor se for o mesmo iogurte e a mesma papa. Mas ainda são pequenos. Já não são bebés, mas ainda são pequenos. E em muitas situações vão às consultas de Pediatria e nem sempre algumas destas e outras questões são valorizadas. Ou porque os pais não dão essa importância e não as reportam. Ou se o fazem, o Pediatra pode não valorizar. "Ele depois faz um clique!" ou "Ela lá mais para a frente desenvolve, assim que entrar na Creche e no Jardim de Infância com as outras crianças!". E os pais vão ficam sossegados, ou outra coisa parecida.


Depois vem a entrada na Creche, Jardim de Infância e Pré-Escolar, e muitas vezes os pais são frequentemente chamados ou então no final do dia informados de que o seu filho/a "(...) é um causador de problemas, que a coisa que ele ainda não pode expressar em palavras que o separa de todos os outros é responsável pela maneira como as outras crianças o escolhem e ele realmente deve-se esforçar mais para se tentar encaixar.". Os pais ouvem muito esta questão - "devem tentar encaixar-se mais." ou "devem procurar ser mais flexíveis.". E ao fim de não muito tempo a criança também vai começar a perceber algo muito parecido, seja em casa mas também na escola, no fazer das coisas mas também nas relações. Sejam aqueles mais irrequietos ou aquelas mais sossegadas. Sejam aqueles que parecem ser menos capazes do ponto de vista da realização das actividades, como os outros que já sabem ler, contar e até fazer contas antes do seu tempo. As crianças vão perceber rapidamente que não pode confiar em ninguém. E há situações, pessoas ou ambos que estas crianças, que depois se tornaram adolescentes e mais tarde adultos, vão encontrar, que as revisitará em pesadelos e irá a lugares que se escondem atrás das pálpebras fechadas enquanto você se vira e volta a virar à noite sem conseguir dormir. A criança, adolescente e adulto vai aprender a ter medo. Aprenderá a ter medo e ainda respirar. Vai aprender o medo como forma de sobrevivência.


Na adolescência vai continuar a ser muito igual, apesar dos manuais escolares. Inclusive parece que ainda se torna em algumas coisas mais complicado ainda. Principalmente quando algumas das pessoas que dizem ser autistas procuram interagir com o grupo de pares. E não são raras as vezes que se ouve "Se ele fosse autista não vinha ter connosco. Os autistas não socializam! E muito menos tentam olhar na cara!". E por isso o juízo que fazem da pessoa é que deve ser esquisita, chata, aborrecida, estranha. Como se alguém quisesse ser isso tudo. Eu não conheço ninguém que o queira. E você conhece? Ninguém nunca dirá o que há de errado com a pessoa, apenas que a pessoa está errada e que o que ela faz e diz está errado. A pessoa olhará para o mundo e verá todos os outros e se sentirá ausente, e não saberá o porquê. Vai agarra-se às bordas das mesas e mexe-se no banco enquanto tenta não desmaiar quando outra onda de pânico se espalha por si.


Depois chega a uma altura em que vai tomar comprimidos. Muitos tomam comprimidos, não é isso. É o porquê de ter de tomar comprimidos. "É para o teu bem, filho." ou "Tens de compreender que é para o teu bem filha!". E na verdade os comprimidos são importantes. Mas é fundamental que estes possam ser integrados com terapia e que esta possa ajudar a compreender o porquê daquela medicação e dos efeitos causadas por alguns deles.


E nos adultos as coisas já foram ficando tão confusas que a própria pessoa já vai tendo ela própria dúvida. Ela já é tanta coisa e uma só ao mesmo tempo - sofrimento. E ainda há quem continue a dizer que a pessoa não pode ser autista. Ou porque a pessoa já consegue fazer amigos e olhar para os outros a falar. Ou então ouve alguém que lhe pergunta se ela já se terá curado do seu autismo. Na verdade parece que não há Como ser autista! Tal como não há como ser esta ou aquela outra coisa. Somos, simplesmente. Somos nós próprios. Quanto aqueles que continuam a insistir nesta ideia de que você não parece ser autista, dê-lhe mais algumas oportunidades. Talvez a pessoa possa aprender de Como vir a ser um melhor Ser Humano.


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