Combate do ano

Muhammad Ali, dizia, "A luta é ganha atrás das linhas, no ginásio e na rua, muito antes de eu começar a dançar sob essas luzes do ringue.". Há um combate que é anunciado há muito, e que ano após ano, vai sendo adiado. Ou então quando parece haver condições para começar, algo o interrompe. Estamos a falar do combate face ao estigma no autismo. Não é o único combate, tendo em conta que o estigma na saúde mental parece ser tão antigo quanto as próprias pessoas. Num combate de boxe vemos duas pessoas, oponentes, cada um com o seu equipamento de uma cor diferente. Há regras definidas à priori e dentro do próprio combate. Há supervisão por parte de um juiz que tem poderes para interromper o combate em caso de alguma falta. No estigma, o ringue parece ser sempre maior do que parece. As cordas que delimitam o espaço de combate vai alargando e transformando-se. Se por vezes este espaço está delimitado apenas ao espaço de casa, em que continua a haver familiares que tendem a não aceitar aquilo que o seu familiar é. Outras vezes, infelizmente frequente, estende-se até à escola, trabalho e às ruas. Combate-se em todo o lado. E normalmente é um combate desigual. Uma das pessoas pessoas não sabe porque lutam contra si, porque lhe desferem golpes mais ou menos visíveis, mas que ferem sempre. Ao fim de algum tempo percebe que lutam não contra si, mas contra o facto de sentirem que é diferente. Lutam contra a diferença. A outra pessoa envolvida no combate, aquele que desfere de forma descontrolada os golpes, também não sabe muito bem porque o faz. Simplesmente faz. Umas vezes diz que o fez porque se sentiu ameaçado ou incomodado. Ou porque não estava a perceber as intenções da outra pessoa. Mas também os há que o fazem por gozo. São vários os tipos e estilos existentes, o que torna mais complexo o fenómeno mas também para o outro se conseguir defender e combater. Independentemente das conceptualizações, contra o que é que lutamos no estigma face ao autismo e à saúde mental. Na maior parte das vezes sinto que lutamos contra o medo, o desconhecido. E ainda que seja diferente em ambos os lados, este medo está lá. Mas principalmente penso no medo e no desconhecimento e ignorância sentido pelas pessoas que normalmente desferem golpes contínuos, ferozes e que magoam. Estes golpes deixam marcas profundas, muitas delas duradouras e para a toda a vida, ao ponto de haver muitos que não conseguem aguentar a dor e sucumbem ao estigma. Cada vez mais conhecemos a saúde mental e as diferentes condições que existem. Temos intervenções psicológicas e médicas com melhor eficácia para diminuir ou até mesmo levar à remissão dos sintomas. Mas continuamos a assistir a este combate, sempre desigual. Porquê? Continuo sempre a pensar no medo, no desconhecimento e na ignorância. Esta ideia de que há certas características em qualquer um de nós que nos faz, à luz da percepção dos outros, pertencermos a um grupo diferente, estranho, incompreensível, ameaçador, e que necessita de ficar isolado, ser consertado, tratado, curado, mudado reabilitado. E os outros continuam a justificar esta necessidade, na maior parte das vezes para o bem dos outros, sem que pareçam estar a ver o sofrimento causado. E quando o vêm, atribuem este sofrimento à sua própria condição, e não ao sofrimento causado pelas pessoas que perpetuam o estigma. E isso faz com que todo este fenómeno perdure. Que características são estas? Comportamentos que na maior parte das vezes até estão descritos nos manuais de diagnóstico. E porque continuam a ser vistos como distintivos? Por serem diferentes? Todos são diferentes. A quase totalidade das pessoas não parece cansar-se de dizer isso. E até de exibir algum orgulho - Eu sou diferente. E se assim o é, porque continuamos a dizer que há características que são diferentes? É porque é um diferente que é diferente do seu próprio? Que paradoxo!! As pessoas parecem então insurgir-se contra uma diferença que é diferente da sua própria diferença. Mas depois também dizem que se insurgem contra a diferença porque estes parecem não ser capazes de se adaptar às regras, sejam sociais ou outros. E quem as construiu? E que as impõem? Mas há sempre quem continue a dizer que teve de ser assim porque os outros diferentes não sabem construir e definir regras! E então têm de criar regras nas escolas, nos trabalhos e em todo o lado para que a Sociedade possa funcionar em condições? Quais condições? E as guerras? E os crimes? E os acidentes de viação? Ou os consumos de substâncias psicoativas? E a corrupção? Quem causa tudo isto? Que características são estas que levam a todos estes outros fenómenos que parecem estar a destruir aos poucos a Sociedade, o Mundo! Mas ainda há quem persista que estes tais comportamentos também são feitos por pessoas diferentes, que não estando à partida dentro do outro grupo dos diferentes, deveriam lá estar. E quem fica de fora? Afinal quem escapa de tudo isto? Talvez ninguém. Não fica ninguém para combater de uma forma justa. As pessoas autistas são diferentes? E eu? E tu? Não somos todos diferentes? Que diferença é essa a que nos referimos? Esta nossa insistência leva a que paguemos uma factura incalculável na saúde e nas prestações sociais. E nem sequer sabemos ou queremos saber. E insurgimos contra o facto de não termos estas ou aquelas regalias. E que ano após ano continua-se a investir nas mesmas coisas e problemas. Quantas pessoas com essas tais características que gostariam de estar a trabalhar e a produzir, traduzindo-se numa mais valia para a Economia. E o que acontece em vez disso? Como são diferentes ficam de fora do mercado de trabalho. E há logo uma maioria que diz que isso é porque os responsáveis da empresas não os contratam. E os colaboradores das empresas, os colegas, como é que estes reagem quando têm pessoas que consideram diferentes a trabalhar ao seu lado? E que papel é que todos nós fomos tendo ao longo da vida face a estas pessoas que fomos considerando diferentes? Ao longo da escolaridade obrigatória em que fomos fazendo bullying ou então fomos assistindo calados em relação ao sofrimento e humilhação desferida contra os diferentes. Os olhares desconfiados ou desviados que fomos fazendo à passagem destas pessoas consideradas de diferentes por nós. Uns e outros vamos estando cansados de lutar, ou então dessensibilizados face às repetidas campanhas. Daquelas que anunciam o combate do ano. Refiro-me às campanhas para a sensibilização para a saúde mental, que normalmente ocorrem por esta altura no dia 10 de Outubro, Dia Internacional da Saúde Mental. Uns e outros, sejam os diferentes porque os consideram diferentes, mas também os diferentes porque simplesmente são diferentes. Cada vez mais desacreditamos na capacidade de mudar, baixamos os braços em desesperança. Nas redes sociais já se faz e há muito divulgação de videos a humilhar as pessoas consideradas diferentes. Em determinados programas de televisão faz-se uso da fragilidade de algumas pessoas e que depois se deixa ao abandono e escrutínio da população. É mas é malandro! Não quer trabalhar e diz que é maluco! Está assim porque quer! Quem o mandou beber e fumar todas aquelas coisas! Quis andar na boa vida e agora quer ajudas! Não têm força de vontade! Limpem as lágrimas e vão à luta! Deixem-se mas é de coisas! Medo do quê! Deixem-se de mariquices! Estes são apenas alguns exemplos. Há muitos outros, inclusive mais subtis, mas que não deixam de ter um impacto devastador na vida das pessoas. A saúde é da responsabilidade de todos. A saúde mental é da responsabilidade de todos. Deixem de dizer que vocês não fazem isto ou aquilo e que até são inclusivos. Não fazemos nenhum favor ao sermos respeitador da diferença. Ao fazermos isso estaremos também a respeitar a nossa própria pessoa.


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