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Chiuuuuuuuuu!!!

Falem mais baixo, disse a professora. Chiuuuuuuuuu, já disse!, disse-o num tom mais alto. António (nome fictício) que estava ao lado da professora levantou-se ainda a professora não tinha terminado a sua frase e deu-lhe uma estalada. O ambiente na sala ficou repentinamente petrificado. A professora não parecia acreditar no que tinha acontecido, Muitos dos alunos não sabiam o que tinha acontecido e muitos pareciam divididos entre saber se riam ou não. António não sabia o que fazer. Ficou parado como em muitas situações em que coisas desta e de outra natureza ocorrem. António tem 17 anos e está no 11º ano. Mudou de escola recentemente e eles têm estado a procurar adaptar algumas das suas necessidades. António tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo desde os seus 4 anos. Mas também apresenta evidência de Misofonia. Eu não posso ouvir aquela palavra!, refere António na consulta. A palavra a que referes é chiu, certo?, pergunta-lhe. Na mesma altura António que estava no lado oposto da mesa agarra na agenda que estava em cima da mesa. Está tenso o suficiente. Parece lutar contra si próprio. Não gostei que tivesse dito essa palavra!, refere num tom mais alto. A misofonia é uma condição recentemente reconhecida, caracterizada por uma aversão física impulsiva e uma reação de irritação, raiva ou nojo quando a pessoa se vê confrontada com estímulos repetitivos específicos (e.g., sons de mastigar, estalar de dedos, mas também certas palavras ou sons). Esta condição foi recentemente reconhecida como uma “síndrome neurocomportamental complexa fenotipicamente caracterizada por aumento da excitação do sistema nervoso autónomo e uma reatividade emocional negativa em resposta a certos sons. Esta condição parece apresentar algumas semelhanças com determinadas outras características observadas com regularidade nas pessoas autistas. Nestas, é possível de constatar uma reação mais aversiva a um conjunto variado de estímulos presentes no quotidiano. Esta sensibilidade aumentada a determinados estímulos sonoros é conhecida e sabe-se do impacto que a mesma têm no quotidiano das pessoas autistas, levando inclusive a um aumento frequente da sua activação e por conseguinte dos seus níveis de ansiedade e de desregulação comportamental e emocional. As situações em que estou na cantina ao lado dos meus colegas ou em casa na hora das refeições é um suplicio! Ouvir as pessoas a mastigar, mesmo que de boca fechada é horrível para mim! E as pessoas não compreendem! Sentem que é um capricho meu e na maior parte das vezes dizem-me para eu ir comer para outro lado se estou assim tão incomodado!, desabafa António. Em pequeno não conseguia dormir na Creche na hora da sesta por causa das outras crianças que estavam a respirar. Cada vez que a Educadora dizia para respirar fundo e dormir eu já sabia que isso significava que não iria conseguir dormir. E eram várias as vezes que ralhavam comigo e diziam que eu não queria dormir e que depois fazia birras intermináveis por não dormir. E ninguém acreditava que eu ficava irritado por ouvir as outras pessoas a respirar fundo!, continua António. As pessoas com misofonia reportam um aumento da activação do sistema nervoso autónomo e de uma marcada angustia em resposta a determinado conjunto de sons. E em muitas situações começam a desenvolver ao longo do tempo todo um conjunto de respostas de antecipação e sentem que a sua desregulação começa a acontecer antecipadamente às situações. Sendo que muitas destas situações ocorrem de forma automática e sem grande controlo por parte do próprio. Principalmente quando este não sabe o que está a acontecer consigo, como parece ser o caso do António. É fundamental poder conseguir olhar para estas e outras situações semelhantes às que o António apresenta e que se encontram frequentemente inscritas num diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo e poder compreender que é algo que está para lá do controlo da pessoa e que lhe causa bastante sofrimento. Avaliar que a pessoa faz estes e outros comportamentos de uma forma premeditada não é uma avaliação mas antes um ajuizar. Mesmo em situações em que a pessoa autista possa ter determinado comportamento para poder provocar uma resposta no ambiente e nas pessoas que estão presentes é preciso enquadrar naquilo que é a intenção de comunicar da pessoa. Ao invés de fazer um juízo moral em relação aos comportamentos que ocorrem com bastante frequência na vida das pessoas.


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