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Cavalo novo, cavaleiro velho

Ainda é comum ouvir-se pais a dizer que numa consulta de Pediatria o especialista se referiu às queixas destes em relação ao comportamento do filho da seguinte forma - "Isso é normal. Assim que começar a interagir com as outras crianças faz o clique!". Mas o clique nunca mais chegou. E sem ele vieram as preocupações. Continua a pensar-se no desenvolvimento como algo compartimentado. Aquilo que é da infância pertence a determinado período do desenvolvimento dentro de um intervalo de tempo demarcado. E não pensamos que tudo aquilo que acontece e como acontece possa ter um certo impacto ao longo do ciclo de vida. E isto no Espectro do Autismo é fundamental.

A Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), enquanto perturbação do neurodesenvolvimento é uma condição que ocorre ao longo do ciclo de vida. É possível diagnosticar em idade precoce, logo a partir dos 18 - 24 meses de idade, ainda que a idade média de diagnóstico seja aos 4 - 5 anos. Quando é referido que ocorre ao longo do ciclo de vida significa que a pessoa tem esta condição sempre. E pode ser diagnosticada em qualquer idade.


A questão das normas para os marcos do desenvolvimento são fundamentais para os profissionais de saúde na Pediatria ou que acompanham crianças para saberem quais os comportamentos que são esperados. E quando não o estão levantam uma suspeita a ser investigada e melhor compreendida. Os pais, sejam aqueles pela primeira vez, que de uma forma mais ansiosa procuram munir-se de literatura em torno da puericultura. Mas aqueles pais de segunda viagem também o sabem, nem que seja pela experiência anterior adquirida e a possibilidade de comparar os indicadores e surgimentos dos marcos do desenvolvimento entre os filhos.


E porque é que esta questão das normas para os marcos do desenvolvimento podem ser fundamentais para a Perturbação do Espectro do Autismo no adulto? Afinal de contas estamos a falar de marcos do desenvolvimento entre a primeira (0 - 3 anos) e a terceira infância (6 -12 anos).


Se a Perturbação do Espectro do Autismo pode ser diagnosticada a partir dos 18 - 24 meses de idade. A forma como os marcos do desenvolvimento são compreendidos é fundamental para que determinado comportamento ou conjunto de comportamentos possa ser considerado suspeito ou não. Ainda hoje acontece pais referirem que levaram os seus filhos a todas as consultas de Pediatria ao longo dos 18 anos de idade. Com maior frequência quando os filhos eram pequenos, de acordo com as recomendações médicas, e menos a partir da adolescência. Adicionalmente, os pais referem que também levaram os filhos a consultas de Clinica Geral e Familiar. E que em nenhuma destas situações o comportamentos dos seus filhos lançou alguma suspeita sobre os profissionais de saúde. Mesmo quando os profissionais foram questionados de forma mais insistente pelos pais, há alguns profissionais que desvalorizam as preocupações e as enquadram no desenvolvimento como normais e que após determinado período se irá observar uma mudança - o tal clique que tarda em aparecer.


Com tudo isto aquilo que acontece é que o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo é feito mais tardiamente. E por isso, ainda hoje avalio pessoas com 18 - 19 anos, mas também com 24 -25, ou 30, 40 e 50 anos de idade, às quais nunca foi diagnosticado Perturbação do Espectro do Autismo até então. Ou já foram diagnosticadas com outros diagnósticos psiquiátricos que não PEA. Mesmo que o diagnóstico ocorra aos 18 estamos a falar de uma janela de tempo bastante grande sem intervenção médica e psicológica adequada. Mas também sem o próprio e os seus pais compreenderem o porquê de um conjunto de episódios mais marcantes. É comum os pais referirem porque é que os filhos que sempre foram bons alunos até ao 9º ano, começaram a ter mais dificuldades a partir do 10º ano e de uma forma inexplicável. Ou então quando entram no Ensino Superior. Algo semelhante ocorre com os próprios que ficam um conjunto grande de anos sem perceber porque é que as pessoas reagem de determinada forma às suas iniciativas. Por exemplo, a frontalidade ou honestidade.


Quando se pensa a Perturbação do Espectro do Autismo ao longo do ciclo de vida é importante pensar o que esta perspectiva pode significar. A perspectiva do ciclo de vida - lifespan, é pluralista, uma vez que considera múltiplos níveis, temporalidades e dimensões do desenvolvimento. É transacional, dinâmica e contextualista. Compreende o desenvolvimento como um processo contínuo, multidimensional e multidirecional de mudanças orquestrados por influências genético-biológicas e sócio-culturais, de natureza normativa e não-normativa, marcado por ganhos e perdas concorrentes e por interactividade entre a pessoa e a cultura. Compreende uma sequência de mudanças previsíveis, de natureza genético-biológica, que ocorrem ao longo das idades, e, por isso, são chamadas de mudanças graduadas pela idade.


Quando temos uma criança com 4 -5 anos diagnosticada com Perturbação do Espectro do Autismo é esperado que à medida que a intervenção médica e psicológica vá decorrendo certas alterações vão igualmente ocorrendo. E isto acontece não apenas devido à intervenção mas também devido ao próprio desenvolvimento. Por exemplo, é comum ouvirmos pais de adolescentes com Perturbação do Espectro do Autismo perguntarem se alguns dos comportamentos observados naquela etapa podem ser devidos ao diagnóstico ou se serem comportamentos esperados de acontecer na própria adolescência. Ou então quando se chega à vida adulta depois de um conjunto de 10 - 15 anos de intervenção psicológica, grupos de competências sociais, e se pergunta onde é que estão as características do Espectro do Autismo! Há até quem já se tenha perguntado se as pessoas podem deixar de ser autistas!


Voltando à questão das normas para os marcos do desenvolvimento. Se ao longo do desenvolvimento da pessoas vamos assistindo a alterações. Também é esperado que ao longo dos anos estes mesmos marcos vão eles próprios se alterando. As diferenças não têm de ser gigantescas mas quaisquer diferenças pode fazer uma grande diferença na avaliação do comportamento. E consequentemente na confirmação do diagnóstico.


No final de dezembro deste ano foi publicado pelo CDC [U.S. Centers for Disease Control and Prevention] um novo banco de dados que detalha as idades em que as crianças atingem marcos e que pode ajudar os médicos a identificar atrasos no desenvolvimento e autismo mais cedo. Por exemplo, as crianças geralmente atingem marcos de desenvolvimento, como falar e caminhar até uma certa idade. Os pediatras usam esses pontos de corte para rastrear atrasos no desenvolvimento e autismo.


Poucos estudos, no entanto, recolheram dados de linha de base sobre quando as crianças diferentes atingem marcos do desenvolvimento, que podem variar amplamente. Como resultado, os limites de idade actuais que os médicos usam para a triagem podem deixar as crianças com atrasos. Por exemplo, 63% das crianças respondem ao próprio nome "muito" aos 6 meses de idade e 97% "um pouco" o fazem nessa idade. Essas descobertas sugerem que se uma criança passou de um determinado marco depende de como essa passagem é definida.

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