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By.polar

"Lately, I've been hard to reach

I've been too long on my own

Everybody has a private world

Where they can be alone

Are you callin me?

Are you tryin' to get through?

Are you reachin' out for me?

I'm reachin' out for you..."


Eminem in Beautiful (2009)


Chamo-me Rute (nome fictício), mas as pessoas identificam-me melhor por By.polar, refere. Como é que elas me conhecem? diz. Não me conhecem! Nem eu própria me conheço, acrescenta. Porque é que escolhi este nome By.polar? Não escolhi! Na verdade foi a sucessão de acontecimento da minha vida, refere. Anda sempre vestida com o mesmo polar. Fosse inverno, fosse verão. Sempre o mesmo polar. Porquê? Porque sim, porque gostava! diz. E quando passava ouvia-os dizer lá bai o polar, lá bai o polar! Não é erro nenhum! Eu sou de Ermesinde e era aquilo que eu percebia do que diziam, lá bai o polar. E mais tarde quando comecei a escola passava os intervalos a cantar. Porquê? Porque ninguém se abeirava de mim! Porquê? Pergunte-lhes a eles! diz. Eles nunca me disseram. Uma auxiliar nova lá da escola costuma estar nos intervalos com uns auriculares. Não podia, mas ela escondia bem os auriculares. Ela costumava engraçar comigo! Porquê? Pergunte-lhe! Ela nunca me disse. Mas vinha para ao pé de mim. E uma vez disse-me que eu cantava muito bem. Nunca ninguém o tinha dito. Na verdade o que me diziam é que não percebiam nada. As pessoas nunca perceberam nada de rap, mas ainda assim não é por isso que deixam de gostar, refere. E eu passei a cantar rap. E cada vez mais passei a aprofundar a minha técnica e a fazer as minhas letras. E quando chegou a altura de criar um nome não foi difícil a decisão e ficou By.polar! conclui. As pessoas não me ouviam. Nunca me ouviram, fosse dentro ou fora de casa. Mas fora de casa passaram a juntar-se à minha volta quando eu ficava a cantar. Primeiro foram apenas um ou dois. Depois apareceram alguns daqueles que habitualmente já trauteavam algumas coisas de rap. E isso parece ter feito a diferença toda, porque a partir daí começou a chegar mais colegas. É curioso pensar que alguns deles nem sequer me falavam no refeitório, mas vinham ouvir-me a driblar os versos, refere. Não é nenhuma novidade, e já se tinha ouvido falar de situações semelhantes com outras pessoas, mas o certo é que a música me salvou, conclui.


A Perturbação Bipolar é uma perturbação caracterizada por episódios maníacos ou depressivos que podem ser intercalados por momentos de remissão. A avaliação da comorbilidade da perturbação do espectro do autismo e da perturbação bipolar é um desafio por ambas as limitações de diagnóstico resultantes da especificidade de ambas as perturbações, bem como pela possibilidade de alterar o seu curso numa situação de ocorrência simultânea. Ambos os tipos de condições persistem desde a infância até idade adulta. No entanto, a sua expressão varia dependendo da idade dos pessoas. No caso das pessoas adultas, a perturbação do espectro do autismo muitas vezes não são devidamente diagnosticadas para um longo tempo, o que resulta de diferenças na gravidade dos sintomas das pessoas, bem como a sua interpretação errada. Para além de que várias características das pessoas autistas (e.g., dificuldades pensamento abstracto, expressão emocional mais limitada e reduzida competência verbal e não verbal) limitar significativamente a capacidade de a própria identificar os sintomas afectivos.


Para além do mais, são várias as pessoas autistas que apresentam dificuldades na descrição dos seus estados emocionais. Sendo que a informação clínica sobre o seu estado de saúde é muitas vezes derivada de membros da família ou da observação da pessoa num ambiente social. Além disso, os sintomas típicos no autismo podem mascarar ou distorcer as manifestações psicopatológicas de outras perturbações e, assim, dificultar o seu diagnóstico.


Tem sido demonstrado que as pessoas autistas são extremamente sensível a pequenas alterações ambientais e muitas vezes reagem com alterações do humor mais repentinas. E essas flutuações no estado emocional da pessoa autista pode imitar ou mascarar a existência de uma perturbação bipolar.


Devido à dificuldade em modular e controlar o estado de excitação, qualquer mudança na rotina ou uma situação social nova pode tornar-se um factor que provoca uma série de sintomas tais como: irritação, hiperactividade emocional, agitação psicomotora e insónia, que são facilmente mal interpretado como um episódio afectivo.


A maioria dos estudos que descrevem a coexistência de autismo com outras perturbações são com base na demonstração da presença de sintomas típicos para a perturbação estudada sem tentar encaminhá-los para o curso de uma Perturbação do Espectro do Autismo. Um exemplo disto pode ser a tentativa de diagnosticar Perturbação Bipolar baseando-se na constatação da presença de episódios maníaco e hipomaníacos, que são difíceis de definir e confirmar em pessoas autistas. Tal abordagem, portanto, força-nos a considerar se a avaliação tradicional fornece resultados fiáveis, e se os critérios de diagnóstico e as ferramentas de diagnóstico derivados deles não devem ser reavaliados e adaptados às necessidades do grupo de pessoas autistas.


Um problema adicional são as diferenças no quadro clínico e no curso da Perturbação Bipolar em crianças e adolescentes. Pensa-se que devido à falta de uma definição uniforme desta perturbação para o grupo etário das crianças, o número de pessoas identificadas é provavelmente maior do que o número de pessoas diagnosticadas correctamente. Além disso, durante a Perturbação Bipolar na infância e adolescência precoce é expresso por sintomas clínicos de uma Perturbação Afectiva Unipolar, psicose aguda ou Perturbações de Oposição, e os sintomas de mania são aparentemente observados mais tarde no desenvolvimento. No grupo de adolescentes com coocorrência de Perturbação Bipolar e Perturbação do Espectro do Autismo, os pensamentos ruminativos, distractibilidade, humor deprimido, evitamento social e baixa reactividade a estados de humor negativos são frequentemente observados.


Em pessoas autistas, a mania apresenta uma imagem pouco comum devido ao domínio de aumento da irritação, instabilidade emocional e disforia neste período. Os comportamentos hostis, agressivos e violentos, ansiedade e consternação também são encontrados, embora as características típicas da mania como humor eufórico são menos comuns.


Em muitos casos, fazer um diagnóstico correcto é adicionalmente dificultado por uma gravidade particular da presença de sintomas psicóticos. Neste grupo de pessoas, os pensamentos bizarros são muitas vezes interpretados como ilusões, e também são encontrados durante os episódios maníacos, mas devem ser diferenciados com a forma específica de pensar de pessoas autistas, e que também ocorrem em pessoas com capacidade de suportar diferenças muitos grandes de temperatura.


É também um desafio determinar a ocorrência de episódios depressivos nas pessoas autistas, até porque estes seus sintomas podem apresentar-se de forma mais subtil e são geralmente duradouros. Devido à sua imagem, bem como as consequências sociais, existe o risco da sua interpretação errada. Assim como as dificuldades interpessoais ou expressão emocional pobre típica nas pessoas autistas. No entanto, as pessoas autistas, com frequência como no caso de outras pessoas, os sintomas típicos para a depressão, tais como anedonia, humor deprimido, pensamentos suicidas, dificuldade na concentração e tomada de decisão, e sintomas somáticos ocorrem com a devida frequência.


Da mesma forma como no caso da mania, os episódios depressivos nas pessoas autistas pode ser acompanhado por sintomas de irritação, rápida incapacidade emocional, autoagressão, agressão contra o ambiente, e excitação, que requer avaliação cuidadosa da pessoa para um diagnóstico correcto. Em pessoas autistas, é particularmente difícil diferenciar entre um episódio de mudanças de humor e respostas a desvios de rotinas diárias, eventos de vida negativos ou mudanças no ambiente. Por isso, é problemático confirmar a existência do episódio afectivo pelo próprio, especialmente na fase inicial da perturbação. Também tem sido observado que os sintomas na Perturbação Bipolar podem influenciar directamente o próprio curso do quadro do autismo, agravando o comprometimento do funcionamento social e cognitivo, especialmente em adolescentes com perturbações deste espectro.


As músicas sempre me representaram, diz. Tal como os meus altos e baixos, também as minhas letras descrevem estas experiências. E as pessoas foram-me conhecendo assim, continua. Sempre houve e continua a haver momentos em que não consigo escrever uma letra ou criar uma música. Felizmente vão sendo menos, refere. A medicação tem ajudado muito. A musica tem feito o resto, conclui.


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