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Bridge over troubled water

"When you're weary

Feeling small

When tears are in your eyes

I'll dry them all

I'm on your side

Oh, when times get rough

And friends just can't be found..."


Bridge over troubled water, Paul Simon & Art Garfunkel



Lembrei-me desta música para pensar com vocês sobre as águas agitadas que muitos de nós temos vivido neste último ano. Mas que apesar de todo um conjunto de constrangimentos conhecido por todos vocês, o certo é que a vida continuou, nomeadamente ao nível das necessidades clínicas de muitas pessoas. Antes de março de 2020, precisamente há um ano atrás, a avaliação de despiste de Perturbação do Espectro do Autismo em crianças seguia um processo estandardizado proposto pela comunidade cientifica médica e psicológica. E muitas destas crianças chegavam até às consultas dos Centros especializados referenciadas principalmente pelos Educadores e Professores, além dos pais e outros profissionais de saúde. E por norma, Educadores e Professores, tendo a experiência acumulada ao longo dos anos, mas também a possibilidade de poder comparar os comportamentos observados das crianças num mesmo contexto, tornava-se mais fácil de poder detectar alguns comportamentos que não eram normativos, ou que apresentassem algumas características mais idiossincráticas comparativamente aos dos seus pares. No entanto, desde março de 2020 que as vivências de todos nós, inclusive das crianças, tem sido tudo menos normativo. Já para não falar de que a partir de determinada altura, mesmo as crianças mais pequenas passaram a estar em casa e com aulas através de uma plataforma online. Não só nas crianças, mas em alguns jovens e adolescentes autistas que acompanho em consulta verifico que este último ano acabou por normalizar alguns dos seus comportamentos. Nomeadamente, aqueles relacionados com a interacção social. Se antes da pandemia se pensava na quantidade e qualidade da interacção destes jovens como estando comprometida. Fosse pela dificuldade em fazer mas também para manter as relações sociais e interpessoais. O certo é que o actual contexto e continuado ao longo destes 12 meses levou a uma normalização de alguns destes comportamentos e da perspectiva que temos acerca destes mesmos comportamentos. Não estou com isto a querer sequer insinuar que a situação de pandemia veio fazer com que as pessoas tenham deixado de ser autistas. Mas parece-me importante poder reflectir a forma como o próprio contexto e ambiente envolvente ajuda a enquadrar muitos destes comportamentos, seja a favorecer a facilidade com que os detectamos, mas agora também a dificuldade com que os conseguimos perceber. No caso das crianças mais pequenas umas das situações muito frequentemente referidas pelos Educadores, Professores e também os pais prende-se com as birras intensas e persistentes ao longo do tempo, e como as mesmas são importantes para ajudar a sinalizar algumas destas crianças. Contudo, no período actual em que vivemos, são muitos os pais que procuram enquadrar como normativo algumas destas birras, como sendo expectável para o momento actual vivido. Até porque muitos dos adultos, sejam os Educadores, Professores e também os pais estão a viver períodos mais exigentes e que os têm levado a eles próprios a ter maior número de episódios de alguma desregulação comportamental e emocional. Facto que leva a que possam ter maior empatia pelas crianças e enquadrem alguns comportamentos como normativos. Da mesma forma que outros comportamentos mais relacionados com rituais e que levam a que os adultos fiquem mais atentos, também estes têm sido mais facilmente enquadrados no período actual. Ao longo deste ano e por via dos constrangimentos relacionados com o contacto com outros e nas próprias saídas, tem levado a que as actividades tenha sido mais restringidas, levando a uma maior repetição de algumas tarefas. Além das características nucleares relacionadas com o Espectro do Autismo, a ansiedade e depressão são outros sintomas frequentemente observadas nas crianças, jovens e adultos com Perturbação do Espectro do Autismo. E mais uma vez, toda esta situação vivida ao longo deste ano tem levado a um aumento significativo da sintomatologia depressiva e ansiogénica e que leva a que algumas destas situações acabem por ficar mascaradas e mais dificilmente referenciadas. Ou o facto de passar a haver menos actividades pode levar a que algumas crianças, principalmente mais pequenas possam apresentar algum tipo de regressão. Nem tudo tem sido mais difícil de detectar até porque as famílias têm estado em maior contacto e o facto dos pais terem passado em larga escala a estar em teletrabalho, isso levou a que pudessem estar mais atentos a determinados comportamentos nos seus filhos, por exemplo, ao nível da ecolália. Além de todas estas situações, é também conhecido o impacto que a actual situação tem tido no atraso do processo de avaliação e despiste, nesta e em outras situações. Os próprios profissionais de saúde, nomeadamente na área do autismo, foram procurando adaptar o processo de avaliação. As entrevistas aos pais passaram a ser realizadas por videoconferência e em algumas situações especificas a própria observação comportamental das crianças e jovens também. Além do mais, já antes de tudo isto se usava a gravação de pequenos videos descritivos de determinados comportamentos da crianças em certas situações para ajudar os profissionais de saúde a melhor compreender os relatos dos pais. São momentos únicos e intensos aqueles que temos vivido. Mas será fundamental que possamos aprender todos algo com tudo isto.


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