Boot camp: From Russia with love

Os títulos por vezes enganam. E nem sempre as traduções querem dizer aquilo que realmente desejam. Por isso não se deixem enganar por este nosso título. Que não tem nada a ver com nenhum filme de James Bond (From Russia with Love). Apesar do tema que vamos abordar poder tratar-se de uma verdadeira aventura. Nem vamos falar de campos de treino (Boot camp). Ainda que muitos sintam que os obstáculos que lá existem se parece tratar de um verdadeira campo de treino. Mas vamos falar de campo de férias para adultos autistas. Isso mesmo, você ouviu/leu bem - campos de férias para adultos autistas! E assim um Boot camp poderá perfeitamente ser um campo de treino, mas também um campo de botas (boots), mas também um utilitário incluido no sistema operacional Mac OS. E se isto tudo lhe parece ser uma grande confusão não tem mal. Nada disto está errado. Sejam as diferentes definições escritas. Em que neste campo de férias todas elas fazem sentido. Nem o facto de haver um campo de férias para autistas adultos. Como diz um grande amigo meu - "Inscreve-te!".



Se você que está a ler este texto é um adulto, quantas vezes não desejou já haver um campo de férias para si? Algo semelhante aos campos de férias que frequentou enquanto criança ou jovem mas agora com adultos! Poder ter um lugar onde pudesse libertar toda a sua energia e criatividade sem que fosse olhado pelos outros em jeito de julgamento. Um lugar onde pudesse ter um tempo em conjunto com outros, sem que necessariamente tivesse que haver uma infinidade de tempo para se conhecerem primeiro e só depois participar em conjunto. Um espaço onde pudesse estar só, sem que tivesse que estar constrangido, como se sentisse que tivesse de pedir autorização para o poder fazer. Alguns poderão pensar que se trata de uma fantasia. Enquanto outros poderão pensar que esse é um espaço onde os adultos podem ser crianças. Pois eu digo-vos que não é nada disso, mas também pode ser isso. Eu explico - este é um espaço onde os adultos podem ser eles próprios! Parece simples, não é? E na realidade é! É um espaço onde os adultos podem dar asas aos seus desejos e à sua forma singular de sentir. Um lugar onde se podem sentir sem que com isso se sintam atropelados por um cem número de constrangimentos sociais sentidos como uma qualquer imposição. Parece-lhe fantasia? Mas olhe que não é.


Quando se tem um diagnóstico de Perturbação de Espectro do Autismo (PEA), rapidamente se aprende que há muitos sítios onde parece que algumas pessoas não o desejam, ou parece que o sentem como um incómodo. Ora porque faz muito barulho e grita, ou porque parece não saber brincar com as outras crianças. Ou ainda porque muito frequentemente quer estar sozinho. Seja na Escola, mas também no ATL e nos períodos de férias escolares nos campos de férias. Parece que grande parte destes sítios são construídos com regras que parecem apenas fazer sentido a alguns - aos neurotipicos. Ou seja, às crianças que não têm uma Perturbação do Espectro do Autismo. Parece-lhe cruel escrito desta forma? Compreendo! Agora pense como se sentirá uma criança com Perturbação do Espectro do Autismo! Sentido que grande parte do que acontece nestes sítios não lhe faz sentido. E se por um lado tem os pais a fazerem força para que elas lá fiquem e interajam com as outras crianças. Por outro lado sentem que as outras crianças não estão propriamente com vontade que elas lá continuem. E agora, continua a parecer-lhe cruel? E para quem é que é cruel?


Mas se pensam que esta situação acontece apenas com crianças, engana-se. Porque isto continua a acontecer na adolescência. Quem não se lembra dos campos de férias durante a adolescência? Aquele momento em que nos sentimos livres e como uns verdadeiros exploradores, de nós, do outro, e sem as regras e condicionantes parentais! As situações na vida das pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo tendem a repetir-se ao longo da vida. Seja porque é algo que a própria pessoa nesta condição procura. Ou seja, a procura de realizar as coisas de uma mesma forma, como de um ritual, em que não necessita de estar sistematicamente a procurar pensar como é que tem de realizar algo de uma forma diferente. Para além de com isso criar uma situação previsível e isso lhe dar conforto. Para além de poder ser algo que lhe dá gozo e prazer de fazer. Mas também há muita coisa repetida na vida das pessoas nesta condição porque as pessoas neurotipicas tendem a não compreender a sua forma de serem. E por isso vão criando ao longo do desenvolvimento situação de verdadeira ameaça para as pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo. Seja em forma de bullying ou outro formato igualmente negativo. Ou em formato de vedar a possibilidade de estas pessoas não se sentirem desejadas ou elas próprias sentirem que não se querem aproximar.


E depois se pensam que quando as pessoas com PEA chegam à vida adulta tudo isto passa ou deixa de existir está enganado. Porque não deixa. E por vez parece mesmo que aumenta. Seja porque a pessoa com PEA está cansado de ter estado todo o resto da sua vida a lutar e a ser continuamente desrespeitado. Ou porque na vida adulta parece haver um conjunto mais alargado e complexo de necessidades e objectivos que se querem cumprir. E isso faz com que hajam mais situações de mal estar. Ou então porque sentem que a possibilidade de obter tudo isto já não seja possível porque não lhes permitem ser autónomos e independentes e serem eles próprios a assegurar estas suas necessidades e desejos, nomeadamente através do trabalho remunerado. E por isso, a vida de uma pessoa com Perturbação do Espectro do Autismo parece ser um "Boot Camp" no sentido negativo do conceito. Uma vida em que constantemente se está em esforço e que parece que nada disso compensa.


A descrição até agora parece ser digna de um livro de Vitor Hugo em jeito de uma reedição de Os Miseráveis, com vários capitulos. Mas a ficção é quase sempre inspirada na vida real. E esta é o caso para muitos. Mas não quero frustar o leitor deste post sobre a possibilidade de verdadeiramente haver um campo para férias para adultos autistas. A resposta vem da "Russia from love". O cênico rio Vuoksi da Rússia, entre São Petersburgo e a fronteira com a Finlândia, é um campo para crianças e adultos russos com autismo. Durante todo o verão, os campistas com idades entre 18 e 40 anos e um conjunto de voluntários reúnem-se para embarcar, fabricar e cozinhar no destino turístico da era soviética. O acampamento é uma iniciativa do Anton's Right Here, um centro em São Petersburgo que fornece apoio a pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA). Em que o objetivo é facilitar a socialização e ajudar a fazer a transição dos campistas para um estilo de vida mais independente depois. Na Rússia, onde não há estatísticas sobre a prevalência de autismo e assistência médica é limitada, este parece ser um raro lugar de liberdade e compreensão.


Penso que nesta altura algumas das pessoas estarão entre um sentimento de atordoamento e estupefacção pelo facto de haver mesmo um campo de férias para adultos autistas. E entre um sentimento estranho de zanga e outra coisa qualquer para a qual eu não encontro adjectivo, que se prende com o facto de parecer que apenas podem haver certas destas iniciativas quando são realizadas exclusivamente para autistas. Há até mesmo que refira que se parece estar a criar um gueto de e para autistas. Ainda que compreenda todas estas e outras possibilidades, peço que se perguntem e reflictam. E como se sentirão as pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo ao longo da sua vida a viverem nas condições tal qual anteriormente neste post eu descrevi? Não se sentirão igualmente num gueto? E aqui não se trata de substituir um gueto por outro. Porque aquilo que as pessoas com PEA referem destas situações e experiências como do campo de férias na Russia é de que são agradáveis, fantásticas e a repetir. É verdade, tudo isso. É que as pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo também sentem, desejam sentir e expressam os seus sentimentos. E se os neurotipicos querem tanto que as pessoas com PEA possam estar igualmente integradas nos campos de férias e em todas as outras situações, talvez precisem de se esforçar um pouco mais.

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