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Aulas seguras

Na música Problemas de Expressão dos Clã, a Manuela Azevedo canta-o e muito bem "Devia ser como no cinema. A língua inglesa fica sempre bem. E nunca atraiçoa ninguém". Só que na verdade, a língua Inglesa é traiçoeira, assim como a Portuguesa, ou as atitudes de algumas pessoas, não esquecendo os desafios que transmitir certa informação tem, como é o caso da Educação Sexual.


Imaginem esta frase - "Ok, everybody take some rubbers.". E de repente as pessoas abrirem o seu estojo e dizerem que não necessitam pois já têm as suas rubbers (borrachas).


A educação sexual é essencial, uma vez que capacita as pessoas do conhecimento para viverem uma vida sexual independente e segura. No entanto, em Portugal, a educação sexual não é particularmente acessível para alunos autistas, o que pode levar a uma falta de conhecimento em torno de comportamentos sexuais apropriados, assim como de relações sexuais consentidas. Além desta questão é fundamental lembrar que a educação sexual é um direito de todos. E convenhamos que isto não ocorre apenas em Portugal. São vários os países desenvolvidos que referem esta mesma dificuldade.


Mas afinal, quais são os desafios para ensinar Educação Sexual a alunos autistas? Penso que esta questão se pode aplicar muito bem a outras áreas igualmente fundamentais para as pessoas autistas. E penso que as dificuldades e constrangimentos se prendem com a forma como as pessoas pensam e representam o autismo e as pessoas autistas, nas mais variadas fases do desenvolvimento.


Seja porque algumas pessoas com responsabilidade a este nível de ensinar Educação Sexual vão referir que o próprio espectro do autismo é bastante diverso e como tal isso por si só dificulta esta tarefa. Sendo que já em outras áreas fundamentais existem vários técnicos que têm demonstrado as mais valia dos sistemas alternativos de comunicação como o PECS, entre outros. Ou seja, não é o facto da pessoa autista ter um nível 2 e ter inclusive um défice cognitivo que deverá limitar a partilha desta informação fundamental. Ou então, há sempre quem defenda que as características das pessoas autistas são em si tão diferentes dos seus pares neurotipicos, que esta mesma Educação Sexual necessita de ser feita de forma individual ou então em grupo mas apenas com pessoas autistas. A este nível recordo que a própria expressão da sexualidade é ela tão diversa e que não é por isso que se anda a falar de Educação Sexual em subgrupos de forma isolada. Mas também temos sempre a questão da impulsividade ao nível sexual. E esta referência que já tem sido usada para limitar a Educação Sexual em crianças. Também tem sido igualmente usada para limitar em pessoas autistas.


Enquanto tudo isto e mais algumas coisas se vão passando e pensando, o certo é que vão continuando a haver inúmeros estudos na área do autismo que vão demonstrando que as pessoas autistas, nomeadamente as raparigas e mulheres autistas são muito mais propensas a situação de abuso sexual. Para além de termos consciência do número grande de pessoas autistas que ao longo da vida sentem menor prazer e satisfação na sua vida sexual e na expressão da própria sexualidade, até porque sentem grande incapacidade em poderem pensar aquilo que sentem. E estas dificuldades não são derivadas das suas características comportamentais do espectro do autismo, mas antes porque não houve um espaço e tempo onde a Educação Sexual foi tendo lugar nas suas vidas e feito de uma forma adequada. Sendo que é preciso também falar daquilo que os diversos estudos e a própria experiência clinica nos vai dizendo acerca da própria heterogeneidade e diversidade na identidade de género nas pessoas autistas.


Talvez seja altura de usarmos as nossas rubbers, e neste caso especifico refiro-me às borrachas de apagar, e usa-las para apagar determinados pré e preconceitos. E podermos todos e em conjunto com as pessoas autistas a poder reescrever um caminho diferente. Tal como a Manuela Azevedo canta, "O teu mundo está tão perto do meu. E o que digo está tão longe. Como o mar está do céu".


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