Apenas para adultos

Com o reality show Love on the Spectrum parece ser um pouco mais fácil para algumas pessoas, autistas ou não, lerem determinado tipo de informação relacionado com as relações intimas. Seja porque não são autistas e pensam que sabem alguma coisa sobre esta condição e afirmam que há uma clara falta de interessem nas relações pessoais nas pessoas autistas. A este grupo solicito que tenham alguma tolerância com ele. Ainda lhes falta aprender bastante. Depois também temos o grupo de pais com filhos autistas e que sentem que estes, apesar de demonstrarem algum interesse nesta área, sentem receio de que estes se venham a magoar, ser enganados, ou qualquer outra coisa negativa. Mas também há o grupo de autistas que cresceram mais afastados de uma sensibilização da importância da sexualidade no seu desenvolvimento e que procuram da forma que melhor sabem e conseguem expressar a sua própria sexualidade e afectividade na relação consigo e com o Outro.

Chegado a determinada altura da nossa vida, normalmente na adolescência, muitos de nós começamos a responder à pressão hormonal sentida e a olhar para o Outro com intenção de desenvolver uma relação diferente, mais próxima, profunda e intima. Ainda que no inicio da adolescência estes e outros conceitos sejam compreendidos de forma adaptada ao desenvolvimento e maturidade. Olhamos para o Outro e o Outro também olha para nós porque nos acha atraente, divertido e que nos faz sentir coisas que outras pessoas naquele momento não despertam em nós. Além do que sentimos fisiologicamente, a aprendizagem social acerca do que pode ser uma relação de namoro já nos foi sendo introduzida. Seja nos modelos parentais, e nas outras pessoas que observamos na rua com comportamento semelhantes. Mas também na televisão, seja nos desenhos animados e filmes, mas também nas redes sociais e no próprio repertório verbal e não verbal que observamos mais de perto nos nossos colegas na escola.


Tudo parece fluir de uma forma ordenada e metódica, mas a verdade é que este período é vivido por muitos de nós como tempestuoso, sofrido, intenso mas igualmente bom e divertido. Antes de chegar ao primeiro beijo há todo um conjunto infindável de acontecimentos. Os olhares, a troca de olhares e sorrisos, os risos mais nervosos quando se está perto da outra pessoa, o começar a suor ou ruborizar quando a outra pessoa diz o nosso nome e toda a gente à nossa volta parece perceber e começar a olhar e a sorrir também. As mensagens trocadas, os recados que os amigos podem trazer ou que nós pedimos para eles levarem. O perguntar aos amigos especiais se acham que a outra pessoa poderá ou não estar interessada e o que é que devem fazer e como fazer. E a listagem não acaba aqui. Isto tudo até chegarmos ao primeiro beijo. E ai a magia acontece. Sendo que nem toda a magia é necessariamente boa. Seja porque as expectativas que tínhamos relativamente ao beijo ou ao beijo daquela determinada pessoa era um e que afinal parece que não se concretizou. À sensação de imersão num fogo de artifício de sensações fisiológicas que se pode tornar avassalador. O primeiro beijo na boca, andar de mãos dados no recreio da escola, enviar mensagens o dia inteiro e à noite, pedir a outra pessoa em namoro, ser correspondido ou não, começar a namorar, os altos e baixos de qualquer relação de namoro, o terminar, o reatar, o começar a sentir que a relação já não é o que era no inicio, sentir alguma coisa semelhante por outra pessoa que não aquela com quem namoramos, sentir que a outra pessoa com quem namoramos parece já não estar tão interessado em nós e parece desejar estar mais com os outros.


Há muita coisa que tomamos como garantido, seja em que área da nossa vida for. Mas também nos esquecemos frequentemente de como foram verdadeiramente as coisas no período inicial em que elas estavam a acontecer. Uma dessas áreas é as relações intimas, desde o começar a gostar de outra pessoa, como a convidar para sair e depois lhe dizer que está interessado nela, o próprio processo de namoro e a relação sexual e de intimidade. Já para não falar de como gerir o dia a dia numa relação com outra pessoa, dentro daquilo que é o quotidiano de todos nós. E na vida adulta há muito de coisas quotidianas que se misturam nas relações e que nem sempre ajudam a que estas decorram da forma mais simples. Como tal, partir do principio que uma relação intima é algo garantido para as pessoas a partir de uma determinada idade, talvez seja importante ser um pouco mais comedido. Até porque há pessoas que escolhem estar sozinhas porque se sentem bem ou melhor dessa forma. O certo é que há uma pluralidade de expressões na relação intima e na procura destas em cada um de nós e que precisa de ser compreendida, mas fundamentalmente respeitada. Nomeadamente, porque há grupos de pessoas em que a relação de intimidade pode tornar-se mais complexa e as pessoas precisam de ser auxiliadas a como chegar lá e não o contrário. É o caso das pessoas adultas com Perturbação do Espectro do Autismo.


As competências sociais são essenciais para o sucesso nos relacionamentos e até mesmo situações clinicas com menor severidade podem ter consequências importantes na vida de alguém. Para uma pessoa neurotípica, muitas das competências sociais são tidas como certas, tal como a capacidade para processar instantânea e espontaneamente as pistas sociais, interpretar as pessoas e suas intenções, e ter um repertório verbal e comportamental apropriado às normais sociais vigentes naquele determinado contexto. Aprender as regras sociais para relacionamentos íntimos, o que já em si é desafiador mesmo para pessoas neurotípicas, pode apresentar uma dificuldade adicional para um adulto com autismo. A expressão de afecto, amor e em geral o interesse pode não ser expresso de uma forma que coincida com as normas culturais e sociais. No entanto, é importante sublinhar que embora as pessoas autistas possam ter déficit nas competências sociais, eles têm sentimentos de afecto e amor pelos outros que poderia.


Os deficit funcionais resultantes do autismo afectam precisamente as áreas centrais que são mais importantes para a formação e manutenção dos relacionamentos íntimos. A qualidade e a satisfação das relações pessoais estão frequentemente associadas a esforço. No entanto, uma pessoa autista pode não estar consciente ou não estar interessado nas expectativas subjacentes da mutualidade de um relacionamento bem-sucedido. O entendimento de certas qualidades, como companheirismo, ajudar os outros, segurança e proximidade, que muitas vezes são considerados essencial numa amizade também podem estar em alguma medida comprometidas. Junto com uma maior dificuldades em se expressar, a pessoa também pode ter dificuldade em internalizar os pensamentos, sentimentos e necessidades do Outro.


A consciência de si próprio e a memórias autobiográfica, são outros dois aspectos que encontram alguma limitação nas pessoas autistas, ao ponto de criar uma maior dificuldade na compreensão do impacto dos seus comportamentos nos outros. A maior dificuldade no filtro social leva a que a pessoa autista possa dizer ou fazer comentários considerados impróprios e que pode prejudicar os sentimentos da outra pessoa. À semelhança do que acontece consigo próprio quando o outro tece algum comentário que o faz sentir magoado. O certo é que estas situações colocam a pessoa autista em maior risco de se tornar uma vitima de bvullying, hostilidade ou isolamento. Para as pessoas neurotípicos, observar e interpretar o tom e a linguagem corporal de outra pessoa tem significado de suposições inerentes de que o outro está a pensar ou sentir. No entanto, para uma pessoa autista, pode ser difícil entender o pensamentos e sentimentos de outra pessoa. A interpretação errada das expressões, gestos e linguagem corporal da outra pessoa pode fazer com que o pessoa autista acredite que aquelas ações ou sentimentos são diferentes da outra pessoa pretendida. Assim, um adulto autista pode ter uma percepção errada das intenções de alguém, levantando questões de consentimento para a pessoa autista ou para o outro.


Flitar é um processo que muitas vezes é dado como certo para pessoas neurotípicos, pois é natural e orgânico na sua natureza. Para uma pessoa autista, pode parecer complexo, e até mesmo uma interação sem sentido. Os problemas em respeitar o espaço pessoal, envolvendo-se no uso não funcional da linguagem, e a falta de gestos comunicativos são todas barreiras potenciais ao formar e manter uma amizade ou um outro relacionamento. Em particular, as competências sociais, como falta de contacto ocular, fala monocórdica ou um sorriso impróprio, por exemplo, pode ser percebido como bizarro comunicar com uma pessoa autista. Principalmente porque podemos não ter conhecimento de que a outra pessoa é autista e além disso não termos conhecimento de que alguns daquelas comportamentos são típicos na pessoa autista. O sistema de alerta da outra pessoa, normalmente neurotipica leva a que comece a fazer um conjunto de interpretações e leituras acerca do comportamento observado. Como não tem uma representação mental daquele tipo de repertório acaba por classifica-lo como estranho. E de seguida procura abandonar a interacção ou então não vai desejar voltar a tê-la com aquela pessoa devido à sensação de desconforto causado.


Namorar não é uma tarefa simples. Envolve chegar a conhecer a outra pessoa num nível mais profundo. Uma pessoa autista pode possuir características distintas que são barreiras à intimidade e namoro, como maior inflexibilidade cognitiva e comportamental e dificuldade nas funções executivas (e.g., planeamento). O pensamento concreto, uma característica comum no autismo, pode tornar difícil para uma pessoa abraçar a natureza abstracta do processo de namoro, tendo em conta a maior dificuldade em se colocar toda a acção ou emoção num processo passo a passo.


Além disso, a tomada de decisão pode ser problemática, assim como a capacidade de manter detalhes quanto a uma data ou relembrar os planos acordados, também são situações que podem impedir ou dificultar o desenvolvimento de um relacionamento intimo significativo. Ao planear um cenário para a celebração de uma data, as pessoas neurotípicas pode imaginar um bar ou restaurante movimentado como um cenário ideal; no entanto, isso pode ser superestimulante devido às hipersensibildiades da pessoa autista. Ruídos altos, luzes brilhantes e alimentos e materiais com texturas particulares podem ser consideradas superestimulantes. Pode ser difícil para uma pessoa autista filtrar estímulos ambientais, causando assim um foco nos detalhes presentes no ambiente que são considerados "irrelevantes" para a maioria pessoas. Uma pessoa que se envolve com uma pessoa autista pode achar que eles estão distraídos e, como tal, desinteressados ou socialmente desajeitados.


Um outro aspecto muito frequente, e principalmente na pessoa adulta, é o facto das pessoas autistas poderem ter tido muitas interações sociais. E por conseguinte estas terem levado à crença de que as interações sociais não são gratificantes e, subsequentemente, causar mais comportamentos introvertidos. A falta de, ou percepção de interações negativas com colegas podem começar na infância e, infelizmente, têm efeitos duradouros que persistem em idade adulta. A solidão e sentimento de isolamento, por exemplo, observa-se que em muitos casos inicia na infância e intensifica-se na adolescência. Mas a falta de interações sociais na infância aumentam o risco de solidão, depressão, ansiedade, diminuição da auto-estima e diminuição da satisfação com a vida. Além de diminuir o repertório de experiências sociais que ajuda a pessoa a aumentar o conhecimento e o à vontade num leque mais variado de situações. O certo é que quando as pessoas autistas começam a formar relacionamentos íntimos, isso leva a um aumento na qualidade geral de vida e satisfação. Facto que ocorre na maioria de qualquer um de nós, desde que a relação seja sentida como significativa.


Independentemente das dificuldades que existem ao longo de todo o processo de namoro para qualquer um de nós. E que parece estar ainda mais dificultado na pessoa autista devido a um conjunto de características próprias suas. O certo é que a relação com o Outro tem a capacidade de equilibrar essas e outras dificuldades. Principalmente quando na relação parece haver abertura suficiente para se falar de nós próprios. A pessoa autista ama e sente amor, paixão, desejo, vontade de amar e fazer amor, beijar, abraçar, passear de mãos dadas, etc. E isso não é espanto nenhum, nem superação alguma. Somos seres humanos e sentimos todos nós estes e outros sentimentos. Muita da dificuldade que observo passa pelo desconhecimento que as pessoas neurotipicas têm acerca do autismo. E como tal acaba por catalogar muitos dos comportamentos observados na gaveta dos comportamentos estranhos e que causam sensações desagradáveis e que não querem repetir. Quando muitas destas situações se tivessem sido enquadradas, ou seja, se a outra pessoa soubesse o que é o autismo e como é o autismo naquela pessoa especificamente, muitas das barreiras teriam caído por terra e dado espaço a uma maior aproximação. A ideia é então que a pessoa autista adulta se possa sentir confiante e conhecedora da sua condição e que possa falar dela de uma forma mais capaz na relação com a outra pessoa. Porque é isso, podermos ser nós próprios de uma forma mais segura, que acaba por tornar a relação mais próxima e promover uma maior intimidade com o Outro.

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