Antes do depois: O ainda misterioso caso do desaparecimento do autismo

"- Conheço mais crianças autistas do que adultos!"; "- Sei de adultos que já nem dá para perceber que são autistas!"; "- O meu filho até consegue fazer contacto ocular e sorrir."; "- O meu aluno brinca com os colegas no recreio!"; "- O meu sobrinho até conseguiu encontrar um emprego!". Estas e outras frases parecem dar conta em alguns momentos do desaparecimento ou até mesmo da remissão ou cura do autismo. Uma ideia perigosa mas que o "teste do algodão" não deixa passar.

Cerca de 1% da população tem uma Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), com estimativas a variar entre uma em cada 150 e uma em cada 70. Enquanto as pessoas diferem na variedade e gravidade de seus sintomas, os aspectos comuns na PEA incluem dificuldades com a comunicação e a interação social, comportamentos e interesses restritivos e repetitivos e sensibilidades sensoriais.

De acordo com o relatório Autism in Australia de 2017, o autismo é mais prevalente de ser observado em crianças crianças entre os 5 e 14 anos, com 83% dos australianos com diagnóstico de autismo com menos de 25 anos. Mas, embora as crianças tenham mais probabilidade de ter um diagnóstico de autismo do que os adultos, isso não significa que as crianças deixem de ter ou "curem-se" do seu autismo.


Existem várias razões pelas quais a prevalência de autismo é maior entre crianças em idade escolar do que adultos, começando com as questões da avaliação e da maneira como fazemos a avaliação a uns e a outros. Ou como alguns instrumentos parecem melhor preparados e adequados para as crianças do que os adultos. Para além disso quando falamos de prevalência estamos a referir à taxa de diagnóstico e ao auto-relato e não á taxa real de autismo. Atendendo a que o autismo é uma condição crónica e que acompanha a pessoa ao longo do ciclo de vida, é esperado que as taxas reais sejam estáveis entre crianças e adultos.


Se o facto de pensar em outras condições nos ajudar a reflectir sobre o tema pensemos por exemplo na situação de um quadro de Alzheimer. A pessoa não começa por apresentar um agravamento global da sua situação clinica logo nos primeiros momentos. Por norma é uma situação que vai sendo progressiva. Ainda que vá escalando nos sintomas a situação vai apresentando diferenças ao longo do seu desenvolvimento. Mas podemos pensar na situação desenvolvimento normativa. Estou certo que a maioria dos leitores não é igual agora em adulto do que quando era criança. Ainda que possa em alguns momentos apresentar um comportamento de maior imaturidade. Ou alguém lhe chame com alguma frequência de infantil. Vamos continuando a apresentar determinadas características ao longo do desenvolvimento. Características que acabam por constituir um determinado padrão, forma de actuarmos, aquilo que alguns chamam de personalidade. Também vamos mantendo alguns características fisionómicas e traços faciais, etc. Mas vão surgindo outras características fruto do nosso desenvolvimento, aprendizagens e do contacto com o meio envolvente e o Outro.


Ou seja, no autismo ocorre algo semelhante. Na criança e a partir de determinado momento passa a ser possível detectar e diagnosticas uma PEA. Dependendo do quadro em si, da gravidade do mesmo, da criança e de ter alguma outra situação médica associada (e.g., síndromes genéticas, défice cognitivo, etc.), mas também dos pais que a observam e com mais ou menos facilidade conseguem detectar e serem sensíveis a estes factos, ou até mesmo do facto dos pais poderem ter alguma condição neuropsiquiátrica eles próprios. Para além disso, a criança autista vai fazendo interacções com o meio ambiente dependendo de todas as questões anteriormente referidas e outras mais. Como tal vão existindo alterações. É esperado que a detecção precoce leve os pais a possibilitar a existência de intervenção médica, psicológica, terapia da fala, psicomotricidade, etc. O que faz com que o quadro se altere normalmente para melhor reduzindo alguns dos comportamentos anteriormente observados.


Compreendo que algumas pessoas possam querer pensar na "cura" do autismo. Por exemplo, pais que desejem que os seus filhos deixem de apresentar determinados comportamentos que eles sentem que impendem um desenvolvimento normativo e é causador de sofrimento. Os pais querem que os filhos deixem de sofrer e isso não é errado. É importante contudo explicar aos pais que o autismo não se cura. Os próprios em algum momento podem sentir vontade de deixar de ter autismo. Em boa parte pelas razões anteriores. Porque também sofrem e muito e querem deixar de sofrer. A sociedade também pode pensar o mesmo porque carece de informação, psicoeducação para estes aspectos fundamentais. E a sua ignorância e desconhecimento leva-os a observar de forma enviesada. Fazem o que sabem e podem com a informação que têm. Precisam de ser auxiliadas a lá chegar. Os profissionais na área da saúde (médicos, psicólogos e demais terapeutas) acabam por "sofrer" de um mal semelhante. Precisam de formação, informação cientifica e divulgada de forma competente por outros profissionais e autistas jovens e adultos que melhor transmitam a realidade vivida.


"Minha mente é a chave que me liberta" disse Houdini. Os meus órgãos sensoriais, mais ou menos treinados observam fenómenos comportamentais aos quais lhe damos determinadas interpretações consoante a nossa própria matriz e referencial. A situação em si acaba por levar a uma ilusão na qual acabamos por acreditar.

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