Alexitimia: O silêncio dos inocentes

A emoção enquanto reacção a um estímulo ambiental produz experiências subjectivas e alterações neurobiológicas. A nossa vida está replecta de emoção, desde o inicio da vida, com diferentes tipos de valência e características. Imagina viver a sua vida sem sentir qualquer emoção?

A resposta à não tão simples pergunta - Imagina viver a sua vida sem sentir qualquer emoção? torna-se muito difícil ou até mesmo impossível nas pessoas com Alexitimia. Emoção? Qual emoção? O que é uma emoção? Como é que eu sei que a estou a sentir? Ou para que é que servem?


Um dos meus clientes dizia um destes dias - Os meus dias são uma luta constante. Todos os minutos da minha existência são uma batalha. A minha existência é um estado de guerra. Porquê? Porque luto de forma constante contra aquilo a que todos os outros chamam de emoções, sentimentos ou afectos. Felicidade, excitação, vergonha, nojo, antecipação ou até mesmo amor - não consigo sentir nenhuma delas. Sei que sinto alguma coisa, mas na maior parte das vezes sinto-me incapaz de distinguir de uma maneira coerente e capaz qual é o sentimento em questão. Tenho aprendido, penso que infelizmente, a sentir-me familiarizado com o medo e a raiva. Talvez por são as situações que mais frequentemente tenho vivido ao longo da minha vida e de forma mais intensa. O certo é que não sei o que sinto!

Emoção e sentimentos são duas palavras bem conhecidas de todos nós e usadas frequentemente no nosso quotidiano. Contudo, a sua própria conceptualização ainda não é de todo consensual, mesmo entre os especialistas.


Alexitimia é uma palavra com raízes gregas - a partícula a tem um sentido de negação, de “falta ou ausência”; lex, significa “palavra”; e thymos é “emoção ou sentimento”. Literalmente, alexitimia pode ser traduzida como sem palavras para sentimento. Alexitimia é um construto que envolve três principais componentes: uma grande dificuldade para usar uma linguagem apropriada para expressar e descrever sentimentos e diferenciá-los de sensações corporais; uma capacidade de fantasiar e imaginar extremamente pobre; e um estilo cognitivo utilitário, baseado no concreto e orientado externamente, também conhecido como pensamento operacional.


Esta descrição parece encaixar-se em algumas situações descritas por pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo. Ainda que nem sempre tenha o mesmo significado. Ou seja, nem todos os Autistas são Alexitimicos, ainda que possam apresentar dificuldades nesta esfera. No entanto, parece haver uma grande prevalência de situações de Alexitimia no Autismo. A importância de procurar compreender se estamos a falar ou não da presença da Alexitimia tem a ver com a maior dificuldade na resposta da pessoa na intervenção psicoterapeutica. Encontramos normalmente aquilo que podemos chamar de maior resistência à própria experiência emocional. Ou podemos pensar que estamos a falar com uma pessoa com um quadro depressivo. São muitas as vezes as situações em que a pessoa se sente culpa por não conseguir fazer algo que todos ou muitos conseguem fazer e que sentem que por mais que tentem não conseguem, ou não parecem conseguir - sentir.


A pessoa alexitímica parece não consegue realizar a passagem emoção – sentimento; nela, o circuito neural que permite a autoconsciência emocional (percepção consciente das sensações subjetivas que acompanham as emoções) não é completado de forma satisfatória, resultando num circuito que não permite a regulação (experienciação e expressão) emocional adequada. Esse circuito deficiente impede a geração do sentimento consciente, um processo cognitivo-experiencial. Não havendo geração de sentimento, não há também a possibilidade de seu gerada. E o circuito tende a perpetuar-se. Em grande parte como o sofrimento das pessoas.

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