Envelhecer não pode ser apenas sobreviver
- pedrorodrigues

- há 2 dias
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Há poucos dias, o Presidente da República voltou a chamar a atenção para uma realidade que há muito deixou de ser uma exceção para se tornar um sintoma estrutural das fragilidades do país: os chamados internamentos sociais. Pessoas idosas que permanecem em camas hospitalares apesar de já não necessitarem de cuidados médicos diferenciados. A alta clínica foi dada, mas a alta social não existe. Não há resposta na comunidade, não há vaga numa estrutura residencial, não há apoio domiciliário suficiente ou, em muitos casos, não há familiares disponíveis ou capazes de assegurar os cuidados necessários.
O resultado é conhecido. Hospitais transformados em espaços de permanência social, profissionais de saúde confrontados com problemas que ultrapassam a esfera clínica e milhares de pessoas idosas a viverem numa espécie de limbo institucional. Nem doentes o suficiente para permanecerem no hospital, nem apoiadas o suficiente para regressarem à comunidade.
Nada disto é uma surpresa.
Portugal conhece há décadas as projeções demográficas relativas ao envelhecimento populacional. Sabemos que a esperança média de vida aumentou. Sabemos que o número de pessoas com mais de 65 anos continuará a crescer. Sabemos que a natalidade se mantém baixa. Sabemos que as famílias são cada vez mais pequenas e que existem menos cuidadores disponíveis por cada pessoa dependente.
Apesar disso, continuamos a discutir o envelhecimento sobretudo através da lente das pensões e da sustentabilidade financeira da Segurança Social. Naturalmente que estas questões são importantes. Mas uma política séria para a população sénior não pode limitar-se a garantir rendimentos. Tem de garantir condições de vida.
A pergunta fundamental não é apenas quanto tempo vivemos. A pergunta é como vivemos esse tempo.
De pouco serve acrescentar anos à vida se esses anos forem marcados pela solidão, pelo isolamento, pela pobreza, pela ausência de respostas de saúde mental, pela dependência não apoiada ou pela institucionalização evitável. Uma sociedade verdadeiramente desenvolvida não se mede apenas pela longevidade dos seus cidadãos. Mede-se pela dignidade com que estes envelhecem.
Também neste domínio há sinais de alerta que permanecem frequentemente ignorados. Os dados relativos à saúde mental mostram-nos que o sofrimento psicológico não surge subitamente aos 70 ou aos 80 anos. Pelo contrário, acumula-se ao longo da vida. Muitas das dificuldades emocionais, relacionais e sociais observadas na população sénior têm raízes profundas, frequentemente invisíveis, que atravessam décadas.
É precisamente aqui que emerge uma questão raramente discutida quando falamos de envelhecimento: o autismo.
Em Portugal, os estudos epidemiológicos sobre a Perturbação do Espectro do Autismo na idade adulta continuam a ser escassos. Ainda mais escasso é o conhecimento sobre o autismo na população sénior. No entanto, continuamos a agir como se a ausência de estudos nacionais significasse ausência de realidade.
Sabemos que aproximadamente 1% da população apresenta uma Perturbação do Espectro do Autismo. Este valor não se aplica apenas às crianças. Não desaparece na adolescência. Não termina na idade adulta. Também se aplica às pessoas idosas.
As crianças autistas dos anos 50, 60 ou 70 são hoje pessoas sénior.
Muitas delas cresceram numa época em que o conceito de autismo era praticamente desconhecido fora de círculos especializados. Outras receberam diagnósticos errados ao longo da vida. Algumas foram classificadas como excêntricas, difíceis, problemáticas, tímidas, frias ou antissociais. Muitas nunca tiveram qualquer diagnóstico.
Sabemos também, através de estudos internacionais, particularmente realizados no Reino Unido, que uma elevada proporção de adultos autistas continua a depender da família para apoio quotidiano e que as taxas de integração no mercado de trabalho permanecem dramaticamente baixas. Isto significa que milhares de pessoas envelhecem sem autonomia económica, sem redes sociais robustas e com elevados níveis de vulnerabilidade quando os pais ou outros cuidadores envelhecem ou morrem.
Perante esta realidade, surge uma pergunta inevitável.
Quantas das pessoas idosas atualmente integradas em internamentos sociais estarão dentro do espectro do autismo sem nunca terem sido identificadas?
Quantas vivem há décadas com dificuldades de comunicação social, de adaptação a mudanças, de gestão sensorial ou de autonomia prática que nunca foram compreendidas pelos serviços?
Quantas foram consideradas simplesmente pessoas “difíceis” quando, na verdade, apresentavam uma condição do neurodesenvolvimento nunca reconhecida?
Não sabemos.
E o mais preocupante é precisamente esse desconhecimento.
Uma política nacional para a população sénior exige muito mais do que respostas habitacionais ou aumento de vagas em lares. Exige investigação. Exige planeamento. Exige integração entre saúde, ação social e comunidade. Exige uma compreensão profunda da diversidade humana que acompanha o envelhecimento.
Precisamos de conhecer quem são os nossos idosos, quais as suas necessidades, quais as suas trajetórias de vida e quais os grupos que permanecem invisíveis nas estatísticas e nas políticas públicas.
O envelhecimento da população portuguesa não é um problema futuro. É uma realidade presente. Os internamentos sociais são apenas uma das manifestações mais visíveis de algo muito maior: a ausência de uma estratégia integrada para envelhecer com dignidade.
Porque envelhecer não pode significar apenas sobreviver mais anos.
Tem de significar viver esses anos com qualidade, autonomia, reconhecimento e pertença.
E isso exige começar hoje a fazer as perguntas que durante demasiado tempo preferimos não colocar.




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