101 shades of gray

Spoiler alert: O próximo post nada tem a ver com 50 Shades of Grey. Posto isto, gostaria de vos dizer o quanto no 10º ano a minha vida mudou quando aprendi o sistema binário em Informática. Este sistema de numeração posicional em que todas as quantidades se representam com base em dois números, zero (0) e um (1), parecia anunciar a simplificação do turbilhão em que a minha vida andava.. Numa altura em que a minha vida estava cheia de cinzentos, também conhecido como adolescência, fiquei rendido à esta nova forma de representação. Ainda cheguei a experimentar numa ou noutra situação real de vida este sistema, mas não resultou. Anos mais tarde, encontro enquanto psicólogo clínico, um grupo de pessoas que frequentemente me diz sentir-se perdido nos cinzentos da vida.

Mas afinal quantas tonalidades de cinzento é que existem? Ainda por cima nem sequer vi o filme 50 Shades of Grey para saber se eles explicaram lá alguma coisa disso. Mas algo me diz que não devem. E depois pensei, um ecrã de computador, no entanto, o modelo de cor RGB pode mostrar 256 tons diferentes de cinza, onde o cinza é definido como um número igual de vermelho, verde e azul. E sim, de acordo com essa definição, branco e preto seriam considerados um tom de cinza. Mas se quisermos ser mais específicos, podemos nos referir à definição de cinza do X Window System, que lista 101 tons diferentes. Um cinza cromático é uma cor cinza na qual os códigos de vermelho, verde e azul são exactamente iguais. As cores da web cinza, gainsboro, cinza claro, e cinza escuro são todas cores acromáticas. Um cinza cromático é uma cor cinza em que os códigos vermelho, verde e azul não são exactamente iguais, mas são próximos um do outro, que é o que faz dele um tom de cinza.


O sistema binário é a base para a Álgebra booliana, que permite fazer operações lógicas e aritméticas usando-se apenas dois dígitos ou dois estados (sim ou não, verdadeiro ou falso, tudo ou nada, ligado ou desligado, 1 ou 0). Muitas vezes as pessoas fazem esta atribuição de que a vida na matemática parece ser feita de "pretos" e "brancos", sem qualquer tipo de matizados. A quem curiosamente as pessoas costumam atribuir o conceito de "cinzentões". Ou seja, aquelas pessoas com pouca expressão ou expressividade emocional, com pouco ou nenhum interesse pela vida social e pelo contacto com as pessoas de uma maneira geral. Mas também costumam atribuir-lhes outros adjectivos sinónimos, como "Quadrado", referindo-se à forma circunscrita como olham para as situações e os acontecimentos do Mundo. Seja porque tive a oportunidade de ter aprendido com excelentes professores de Matemática, mas também porque devido a perceber pouco desta disciplina, sempre consegui manter a minha curiosidade e devoção a ela. O certo é que sempre consegui ver a paleta de cores que a Matemática nos permite ver quando usamos os seus pressupostos para procurar compreender os vários fenómenos da vida.


Agora ao fim destes anos todos, enquanto psicólogo clinico, quando oiço uma pessoa dizer-me, "Sabe qual é o meu problema? Perco-me completamente no meio destes cinzentos todos!". Fico a pensar que aquela pessoa pode precisar de uma orientação em relação aos pressupostos matemáticos a usar. Isto porque, não partilho dessa ideia de que uma pessoa autista não tenha outras expressões para além do "preto e branco", "zeros e uns", "oito ou oitenta", etc. Ainda que muitas vezes numa análise superficial se possa pensar que a vida de um autista é apenas isso "preto e branco". Mas numa análise superficial também ficamos a pensar que o sistema binário é uma coisa completamente básica, quando não é verdade.


Apesar de muitas vezes, muitas das pessoas autistas descreverem o seu mundo inteiro como preto ou branco, feliz ou triste, quente ou frio, para cima ou para baixo, sim ou não. E a ideia de que algo pode existir no meio não faz sentido para eles. O pensamento de que uma pessoa pode sentir mais de uma emoção de cada vez é confuso. O conceito de futuro parece completamente distante e desconhecido apesar de estarmos a falar de dois ou três dias. Muito frequentemente as pessoas autistas pensam no que está a acontecer no presente momento. Naquele exacto momento. Não é por acaso que algumas vezes as pessoas que convivem consigo dizem que ao fim de uma qualquer discussão, cinco minutos depois parece que já não se passa nada para eles. É como se houvesse uma imersão naquele cenário, naquele momento. Os sons, as pessoas, os sentimentos. Eles parecem viver a 100% em cada momento, absorvendo todos os mais ínfimos detalhes. Não é por acaso que se sintam tão frequentemente extenuados. Parecem esponjas.


Como eles existem dentro de um determinado momentos, revertem tudo isso para a memória. Colocando cada parte daquele momento em arquivos cuidadosamente organizados no seu cérebro. E será exactamente assim que eles se lembrarão daquele momento. E é exactamente assim que eles precisarão deste momento para estar no futuro. Agora imagem isto multiplicado por todo um conjunto infinito de situações ocorridas na vida, e inclusive muitas delas traumáticas. Quando lhes perguntam acerca do passado, ou seja reviver a mesma experiência mas de uma nova maneira é muito difícil para eles. Ou seja, no trabalho em psicologia procuramos fazer muito uma coisa que se chama de restruturação cognitiva. Ou seja, procurar pensar sobre o ocorrido de uma forma diferente daquela que aconteceu. E isto é bastante difícil para eles. E não é só nas consultas que isto acontece. Muitas vezes os pais, professores e colegas também pedem para eles fazerem isso e ficam sem perceber por que é que eles não o conseguem. Eles parecem não poder escapar da sua memória do momento. Apesar de se esforçarem para imaginar as coisas de formas novas e diferentes. Não é algo que eles escolham fazer, é assim que o seu cérebro funciona.


Preto. Branco. Acima. Baixo. Sim. Não. Nada mais e nada menos. E, nada no meio. A praia, um filme, datas de brincadeiras, jantar fora, o zoo. Todas as experiência, grande ou pequena, torna-se uma memória. E a memória torna-se um guião. E muitas vezes, deixamos de entender as verdadeiras forma complexa como seu cérebro está organizado. E numa e noutra vez sentimos ser surpreendidos. Deslumbrados com a capacidade de funcionar do seu cérebro. Seja espantados com sua capacidade de recordar até os detalhes mais obscuros. A resolução de um qualquer problema matemático ou a reprodução exacta do que foi dito na semana anterior antes de sair para ir para a escola na segunda-feira. Mas é importante notar e reforçar a importância das suas memórias detalhadas na construção da sua vida. Ou quando essas mesmas memórias os levam a serem sentimentais, por exemplo, quando se lembram de algum ou de um lugar que já não se vê há algum tempo. Ou quando eles se conseguem lembrar de algo em que se sentiram verdadeiramente felizes. Parece ser uma nova felicidade. E na verdade até o é. É uma nova experiência e uma nova memória.


Mas num mundo codificado de uma outra forma, entenda-se neurotipico, muitas vezes há dificuldade de comunicação entre estes dois continentes. E digo continentes e não mundos, propositadamente. Porque sinto que estas duas formas fazem parte do mesmo mundo e não de mundos diferentes como frequente fazem alusão. Muitos de nós neurotipicos acreditamos que as coisas não podem acontecer de uma forma igual em duas vezes distante no tempo. E muitas vezes procuramos explicar isso a uma pessoa autista. Aquilo que pode ser um conceito simples para muitos de nós está longe de ser verdade para algumas pessoas autistas. E é aqui que parece residir a dificuldade com os cinzas. Aquilo que designamos de maior rigidez e inflexibilidade prende-se com esta forma do seu cérebro funcionar. Este compromisso requer registar a existência emocional e lógica de algo ou de outra pessoa. Um conceito bastante difícil para alguém que vê o mundo de uma determinada maneira, a sua maneira. As emoções são difíceis. A lógica é difícil, ainda que mais para uns do que para outros. O compromisso é difícil. Tantas coisas que parecem tão fáceis são tão difíceis ao longo do espectro do autismo.


Mas as pessoas no Espectro do Autismo não são cinzentos. Em nenhum sentido da palavra. E aquilo que dizem ter dificuldade em navegar prende-se com uma forma suficientemente diferente da sua. Mas que pode ser explicada ou aproximada através da explicação. Em muitos momentos, ele podem ser implacáveis e intransigentes. Podem ser rígidos e manterem firmes as suas necessidades. Podem não ver nada de errado com a sua visão polar do mundo. E muitas vezes nós que moramos neste meio parecemos ter iguais dificuldades em sair de lá para chegar a outras formas de pensar e sentir.

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