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Há mais rapazes autistas do que raparigas, afirmam. Como é que sabes?, pergunta alguém. Li isso num estudo, respondem. E como é que tens a certeza?, voltam a perguntar. É um dado cientifico, voltam a responder. E além disso eu não conheço nenhuma rapariga autista, acrescentam por vezes. E qual é a diferença que diz haver nesses estudos?, perguntam. Penso que 4 rapazes para cada 1 rapariga, respondem. Não achas isso demasiado?, perguntam. É o que lá dizia, respondem. Eu tenho ideia de ser menor, acrescenta alguém. Li que podia ser de 2 rapazes para cada 1 rapariga, tornam a acrescentar. Mas o meu psicólogo diz existirem muitas raparigas diagnosticadas e outras tantas que não o estão, alguém comenta. Pois, é capaz, dizem. Isto é confuso, alguém acrescenta. Verdade, todos concordam.


Mais do que ser confuso, é difícil. E por várias razões. Desde o facto de se saber que muitos dos estudos realizados ao longo de vários anos tiveram amostras masculinas e os critérios foram construídos com base nesses resultados. Assim como os instrumentos de avaliação usados no diagnóstico e como tal há uma percentagem de enviesamento que dificulta o processo de reconhecimento mas também o perceber que a expressão fenótipica do autismo é muito mais abrangente e heterogénea do que se possa pensar.


Além disso precisamos de pensar que no autismo há um número significativo de outras perturbações neuropsiquiátricas que co-ocorrem em simultâneo e que dificultam no reconhecimento do diagnóstico. E que no caso das pessoas adultas, a situação da co-ocorrências destas outras perturbações é maior. E se tivermos em conta que nos últimos tempos tem havido um número crescente de novos diagnósticos de autismo e especificamente nas pessoas adultas. Precisamos de pensar como é que estas pessoas estão a surgir e as condições em que ocorre. Ou seja, pessoas com 30, 40 ou 50 anos que estão a recorrer aos serviços de saúde mental para fazer uma avaliação de despiste de Perturbação do Espectro do Autismo pela primeira vez. É preciso pensar que isso está a acontecer porque na altura em que estas mesmas pessoas eram crianças ou jovens, os próprios critérios de diagnóstico para o autismo eram diferentes. Assim como o próprio conhecimento sobre o autismo era menor, bem como a experiência dos próprios profissionais de saúde. Principalmente para a expressão comportamental do autismo no feminino, assim como das características mais subtis da expressão do autismo no masculino.


E se olharmos para estas pessoas com 30, 40 ou 50 anos que solicitam esta avaliação de despiste de Perturbação do Espectro do Autismo. Verificamos que existem cerca de dezasseis possíveis outras perturbações neuropsiquiátricas associadas. Leu bem, dezasseis. Desde situações de Psicose, Perturbação do Humor, Ansiedade, Perturbação da Conduta Alimentar, Obsessivo-Compulsiva, Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção, Epilepsia, Perturbação de tiques, do sono, Perturbação da Personalidade, Dificuldade Intelectual e Desenvolvimental, etc.


Logo aqui verificamos que a situação que se apresenta na clinica em pessoas adultas, homens e mulheres, para realizar um despiste de Perturbação do Espectro do Autismo é bastante heterogénea. Para além da própria heterogeneidade que se sabe existir no próprio diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Além de sabermos que os próprios adultos pode ter maior dificuldade em informar acerca de alguns períodos da sua vida. E os próprios informadores (e.g., pais, etc.), podem ter igualmente dificuldades em o fazer e por várias razões. Além de não podermos excluir a própria dificuldade que o profissional de saúde poderá ter tendo em conta a grande variedade de situações possíveis de encontrar e da necessidade de realizar diversos diagnósticos diferenciais.


E além de tudo isto, verifica-se que estas situações de outras perturbações neuropsiquiátricas ocorre com maior probabilidade nas pessoas autistas adultas do que na população em geral. E ainda mais nas mulheres do que nos homens que procuram este despiste de Perturbação do Espectro do Autismo.


E estou muito certo em poder afirmar que tudo isto não fica por aqui. E como tal será fundamental continuar a avançar com a devida cautela. Não deixando de poder continuar a melhorar a resposta a dar nestas situações. Seja para a questão do diagnóstico mas também ao nível do próprio sofrimento psicológico expresso.


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