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Um olhar neurodivergente

Autista?! Não parece nada!! ouvia-se dizer. Esta e outras frases semelhantes ouvem-se com relativa frequência. Seja no autismo especificamente, ou na saúde mental de uma maneira geral. Parece que as pessoas sentem que deve haver um qualquer sinal mais evidente que distinga as pessoas. Como se fosse uma marca distintiva. Mas porquê? Será que as pessoas têm receio de se enganar em relação ao diagnóstico atribuído? Ou seja, as pessoas temem pensar que alguém é autista quando na realidade não o é? Ou o seu contrário! É isso que as inquieta e que por isso gostariam que houvesse um sinal mais evidente que os distinguisse!?! Ou será que assim se afastariam mais rápida e facilmente sem o inconveniente do primeiro contacto? Talvez seja importante que as pessoas que sentem essa necessidade de um sinal/marca mais evidente possam reflectir o porquê dessa necessidade.


Mas o olhar não se fica apenas para esta questão do sinal/marca distintivo como anteriormente referido. O olhar também se pode aplicar naquilo que é a visão que a pessoa tem de si, do Outro e do Mundo, ou seja, a sua cosmovisão. E aqui, sem margem para dúvida que a pessoa autista tem um olhar ímpar! Não que qualquer um de nós não o tenha. Todos o terão na medida da sua singularidade. Mas haverá uma maior probabilidade dessa singularidade poder estar mais presente na pessoa autista.


Mas afinal qual será esse olhar da pessoa autista? Qual será a sua cosmovisão? Não sei! Esta será a minha primeira resposta. E não sei porque não sou uma pessoa autista. E por isso, é importante que esta mesma questão possa ser colocada precisamente a ela. Perguntem-lhe e escutem-na. Não no sentido de descobrir quais as suas características ou idiossincrasias. Escutem-na simplesmente!


Mas como pessoa que trabalha com pessoas autistas penso que possa dar o meu contributo nesse sentido. E é isso mesmo, um contributo!


Antes de pensar em pessoas autistas, quero fazer esta reflexão em relação a qualquer um de nós. Nunca se sentiram com desejo em estar sós? Sem que ninguém vos incomodasse? E ao fim desse tempo não se sentiram bem? Se a resposta a estas três perguntas foi sim, ou pelo menos perto disso, então porquê estranhar quando esse mesmo sentir vem da parte de uma pessoa autista? Porque é autista? A resposta parece-me intelectualmente pouco desenvolvida para qualquer um de nós. No que diz respeito ao desejo em estar sós, estou certo de que cada um de nós conhecerá uma gama bastante variada de formas diferentes de o manifestar. Seja o querer estar só porque se tem uma enxaqueca ou se está a ressacar. Ou então simplesmente cansado ou a ouvir pessoas a falar durante demasiado tempo, como é o caso de certas profissões. Mas também há aqueles que gostam de pensar na sua vida sem se distrair. Ou então aqueles que por motivos profissionais procuram o isolamento para aumentar a produção da quantidade e qualidade do seu trabalho. E esta vontade não vai sendo igual ao longo do tempo. Em crianças verificamos inclusive a dificuldade em ficar isolado. Mas quando se chega à adolescência assistimos precisamente ao movimento contrário. E não é por acaso que se designa da idade do armário. E continuamos a ser e a desejar diferente ao longo de toda a nossa vida. Mas não fiquem com a ideia de que este desejo em estar só não tem necessariamente de significar que é sempre e de forma constante. Muitas vezes a pessoa autista diz que é apenas durante um determinado período de tempo. E ainda que possa ser de uma forma diferente, não tem necessariamente de ser mais nada senão isso, diferente. E é provável que essa forma diferente possa fazer alguma confusão a muitas pessoas. Porventura porque pensam que não fariam dessa forma. Ou então porque pensam que não gostam quando fazem dessa forma consigo. E porque pensam que dessa forma as pessoas arriscam-se a perder amigos ou amizades.


E esta questão leva-me a pensar numa outra que se prende precisamente com os amigos e as amizades. E já todos sabem que há muitas pessoas que ainda hoje pensam que as pessoas autistas não têm ou desejam ter amigos. Mas também há cada vez mais pessoas que sabem que esse tipo de pensamento está errado. Mas provavelmente o melhor a fazer-se é pensar na qualidade das relações que as pessoas estabelecem, o que procuram ou esperam destas. Alguém sabe? Provavelmente muitos poucos de nós sabe ou compreende a natureza de uma relação de amizade numa pessoa autista. E quando esta nos diz que não necessita de estar sempre com aquela outra pessoa, mas que ainda assim se sente amigo e retribuído na relação que tem. Muitos de nós, não sendo autistas, ficamos desconfiados da veracidade destas afirmações. E desatamos a produzir ideias de que a pessoa autista não sabe o que é uma amizade ou um amigo. Porquê? Uma boa parte das vezes porque não é igual a si e na sua forma de pensar e sentir! E tudo isto também me parece ser importante de ser pensado, até porque muitos de nós psicólogos continuamos a construir programas de competências sociais com base no nosso paradigma. A questão é que esta nossa ideia de competências sociais e mais precisamente destes valores de amizade entre outros é diferente. E não quero com isto dizer que as pessoas autistas não possam beneficiar de ganhos de competências sociais quando frequentam estes grupos, porque beneficiam e muito. Contudo, é importante poder ir ao encontro da sua forma de sentir e pensar. Não apenas no sentido de validar a nossa empatia, mas também de nos aproximarmos do seu ser.


O nosso olhar sobre as coisas, nós próprios, o Outro e o Mundo, vai sendo construído desde sempre. E com base naquilo que vão sendo as primeiras entradas de informação através dos órgãos sensoriais. E ainda que nem todas as pessoas autistas apresentem hiper ou hiposensibilidades, o certo é que a forma como vão processando as coisas vai tendo ela mesmo uma forma ímpar. E essa mesma forma vai sendo aquela, também, que vai construindo a sua forma de se olhar e olhar o resto em seu redor. E esta vivência sensorial e da importância que a mesma tem para a construção da sua identidade, da sua noção de esquema corporal, entre outros, é fundamental. É este mesmo corpo que navega ao longo da sua vida no ambiente circundante. E seja nos aspectos mais relacionados com a motricidade e a locomoção, mas é também importante pensar na forma como a nossa postura influencia a interacção, a comunicação e outros aspectos na pessoa autista.


Confesso que por vezes sinto que não estamos a falar de pessoas quando falamos do autismo! É uma frase difícil de ler, certo? Não é menos fácil de a dizer. E o porquê da mesma?! Precisamente porque quando oiço falar do autismo e das pessoas autistas, estas parecem subdividas em características, traços ou comportamentos que estão ou não presentes. E as pessoas, onde é que elas estão, pergunto-me? Leio muito sobre o autismo, sejam artigos científicos ou manuais técnicos, mas também outras perspectivas mais ficcionadas ou literárias. E ainda assim com frequência encontro com frequência demasiados clichés sobre o autismo. Sejam estes ditos e escritos por pessoas não autistas, mais frequentemente, mas também por pessoas autistas. E no caso destas últimas, talvez isso se prenda com a necessidade de estas se aproximarem de uma determinada narrativa sentida como dominante. Da mesma forma como acontece em relação ao comportamento de camuflagem social.


Quando quiserem saber qual o olhar de uma pessoa autista, procurem não a olhar de frente, mas sim na mesma direcção que ela!!


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