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Um domingo qualquer

Um dia perguntaram-me como estava. E ao contrário de perguntar à pessoa o que ela queria significar com a pergunta, disse-lhe que estava normal, diz Nuno (nome fictício). Eu não sabia o que era normal, ainda que fosse uma palavra habitualmente dita, continuou. Fiquei com a ideia de que muitas pessoas se contentam com a resposta "normal". Aquilo intrigou-me, pensou. O que é que levava grande parte das pessoas a se ficarem com a resposta "normal". E o que haveria de representar para elas esse "normal"? As perguntas não paravam. Mas isso era assim comigo. Uma vez disseram-me que isso era normal em mim. Não me parece! As minhas perguntas não são assim tão frequentes, pelo menos as categorias usadas! reflectiu em voz alta. Pensei em fazer uma experiência. Haveria de saber o que seria uma vida normal. E para isso precisava de ter evidências. Normalmente as pessoas tendiam em não acreditar em mim. Dizem-me que minto muitas vezes. Não concordo. Aquilo que conto é a forma como vejo as coisas. Será que as pessoas vêm tudo da mesma forma? Não me parece. E se o for é assustador, continuou. Fui buscar a minha câmera de video. Passei a fazer gravações de várias partes do meus dias. Procurei fazer amostras de várias situações diferentes. Eu conhecia a minha vida como ninguém. Fiz um planeamento cuidadoso. Haveria de gravar dez minutos de cada situação. Porquê? São os minutos que consigo estar focado em algo. Porque não gravava depois disso? As pessoas não percebem essa minha característica. Porque a haveria de gravar? Por ser algo que acontece frequentemente? Curiosamente, as pessoas não chamam a isso normal. Mas se fizerem uma coisa na sua vida frequentemente chamam de normal. Isso parece ser normal na vida de muitas outras pessoas, desabafa.


Há algum tempo atrás, quando tinha dezasseis anos, perguntei minha professora se podia fazer um trabalho para filosofia sobre o autismo. Ela primeiro ficou intrigada. Perguntou-me porquê. Disse-lhe que a filosofia precisava do autismo. Acho que ela gostou da minha resposta. E aceitou. Foi nessa altura que comecei a ler artigos científicos sobre o autismo. Nunca tinha tido necessidade de ler sobre o autismo. Mesmo quando me disseram que o meu diagnóstico era esse - Perturbação do Espectro do Autismo. Por que é que eu nunca quis ler sobre o autismo? Simples. O psicólogo disse-me na altura que o autismo era uma forma diferente e única de ver, pensar e sentir o mundo. Cada um tinha a sua. Como tal, porque haveria de ler sobre o autismo? Era a visão de outras pessoas. E alguns nem autistas eram, refere. Ao fim de cerca de trinta se seis artigos fiquei preplexo. Apenas falavam de problemas, dificuldades ou deficit. Ainda insisti durante mais uns quantos artigos. Acabei por ler cerca de setenta e quatro artigos. Não houve mudança. Pensei que assim nunca haveriam de chegar ao cerne da questão. Chegariam a um cerne. Ao seu próprio. O autismo não pertence aos elementos do grupo 1. Esses apenas têm um electrão de valência. Penso que o autismo será como os metais de transição, entre os elementos do grupo 3 a 12. Disse à minha professora que haveria de ser uma interpretação minha do autismo. Chamei ao trabalho - Um domingo qualquer. Tive dezasseis valores. Foi a primeira vez em que não quis saber da nota. Foi a primeira vez que as pessoas ficaram a saber sobre a minha vida normal. O ano seguinte mudei de escola. Tentei fazer o mesmo. Não resultou. Haveria de haver outros domingos, pensou.


Ao fim de onze anos depois recebi uma mensagem da minha professora de filosofia. Terminava a mensagem com Bom domingo. Lembro-me que era terça-feira, sorriu.


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