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Triplo A: Autismo, Anorexia, ARFID

Estou neste preciso momento a enviar-te uma mensagem para falar sobre isto! Acho que isso faz parte da recuperação. Eu escolho comer e fazer a coisa certa, mesmo que a minha mente ainda prefira pesar 36 kg. Tenho dificuldade com a palavra «totalmente», porque acho que estou recuperada... existe esse tipo de definitivo e que nunca mais se estará vulnerável àquela doença, o que acho que é um pensamento um pouco ingénuo... como qualquer problema de saúde mental ou como o vício, é como algo automático. Na maioria das vezes, diria que estou recuperada. No entanto, ainda tenho partes de mim que são anoréxicas e continuam com pensamentos anoréxicos. Parte de mim quer comer de forma mais saudável, ser saudável, forte e musculosa. Desculpa a mensagem ter sido tão longa! Aprendi a não ser tão exigente comigo mesmo... Aprendi a comer de forma mais saudável. Aprendi a fazer menos de uma hora de exercício por dia e estou a aprender a descansar e a fazer uma pausa depois de um dia agitado no trabalho. escreve Marta (nome fictício), de 32 anos, com um diagnóstico tardio de Perturbação do Espectro do Autismo e um diagnóstico de Perturbação da Conduta Alimentar (Anorexia Nervosa) aos 13 anos.


Sou a Inês (nome ficticio), tenho 41 anos, e durante muito tempo disseram-me que a minha anorexia era apenas resistência ao tratamento, falta de motivação ou perfeccionismo extremo. Nunca ninguém perguntou o que significava para mim mudar rotinas, lidar com texturas imprevisíveis ou comer em ambientes caóticos. A minha recuperação começou quando deixei de ser forçada a cumprir planos rígidos e passei a construir, com a minha terapeuta, um caminho possível. Não foi uma recuperação rápida nem linear. Foi feita de pequenos acordos com o meu sistema nervoso. Comer passou a ser um exercício de regulação sensorial antes de ser um desafio cognitivo. Só aos 38 anos recebi o diagnóstico de autismo. Nesse momento, muita coisa fez sentido. Não fiquei curada da anorexia nesse dia, mas deixei de me sentir errada. Isso mudou tudo.


Chamo-me Sofia (nome ficticio), tenho 27 anos, e durante anos o meu diagnóstico foi ARFID. Sempre comi pouco, sempre fui seletiva, sempre tive medo de certas sensações na boca e no estômago. Quando perdi peso de forma mais acentuada, falaram em anorexia nervosa atípica. Eu não queria emagrecer, queria apenas não entrar em pânico. A comida nunca foi sobre corpo, foi sobre sobrevivência. Só mais tarde, quando uma psicóloga colocou a hipótese de eu estar no espectro do autismo, é que o puzzle começou a encaixar. A minha recuperação não passou por desafiar pensamentos distorcidos sobre imagem corporal, mas por ampliar gradualmente o meu repertório alimentar de forma sensorialmente tolerável. Hoje como mais alimentos, mas continuo a precisar de previsibilidade. Recuperar, para mim, não é comer tudo, é comer o suficiente sem terror.


Sou a Helena (nome ficticio), tenho 35 anos, e fui diagnosticada com anorexia nervosa na universidade, depois de vários internamentos. Sempre fui considerada uma doente difícil. Não melhorava como esperado, recaía, tinha uma rigidez que parecia inquebrável. O diagnóstico de autismo surgiu há dois anos. Percebi que a fome nunca foi um sinal claro para mim. O meu corpo fala baixo e confuso. A recuperação começou quando o tratamento deixou de depender apenas de eu sentir vontade de comer. Precisei de estratégias externas, horários visuais, escolhas limitadas, adaptações sensoriais e muito trabalho de interocepção. Ainda hoje uso alarmes para comer. Isso não me torna menos recuperada. Torna-me mais funcional.


Estes testemunhos ilustram percursos distintos, mas atravessados por um denominador comum. A interseção entre perturbações da conduta alimentar, em particular a anorexia nervosa e a ARFID, e a Perturbação do Espectro do Autismo permanece frequentemente subavaliada na prática clínica. Esta lacuna tem implicações diretas no prognóstico, na adesão ao tratamento e na experiência subjetiva das pessoas acompanhadas.


O autismo é um neurotipo com ampla variabilidade fenotípica, que molda de forma profunda a maneira como os indivíduos percecionam, interpretam e interagem com o mundo ao longo da vida. Caracteriza-se por diferenças persistentes na comunicação socioemocional, padrões repetitivos e hiperfocados de comportamento, interesses intensos, bem como uma preferência por rotinas, estrutura e previsibilidade. Embora estas características estejam presentes desde a infância, muitas pessoas, em especial mulheres e pessoas socializadas no feminino, apenas recebem diagnóstico na idade adulta.


A prevalência global do autismo é estimada em cerca de 0,6%, com uma proporção de diagnóstico de aproximadamente 3 para 1 entre homens e mulheres. Contudo, a literatura aponta de forma consistente para um viés de género e sexo nos critérios diagnósticos e nos modelos de reconhecimento clínico. Mulheres, pessoas transgénero e não binárias autistas apresentam maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de perturbações da conduta alimentar e, simultaneamente, maior probabilidade de subdiagnóstico ou diagnóstico tardio de autismo. Estratégias de camuflagem, como a supressão de comportamentos autistas e a imitação de padrões neurotípicos, contribuem para esta invisibilidade clínica. Acresce ainda o subdiagnóstico em populações racializadas e marginalizadas, levantando questões éticas e científicas sobre a universalidade dos critérios atualmente utilizados.


Estima-se uma taxa de coocorrência entre perturbações da conduta alimentar e autismo entre 20% e 35%, com uma sobrerrepresentação de traços autistas em indivíduos com anorexia nervosa que pode variar entre 4% e 52,5%, consoante os métodos de avaliação. Indivíduos autistas podem apresentar atrasos significativos no diagnóstico de anorexia nervosa, com relatos de atrasos que variam entre 14 e 22 anos. Embora a anorexia nervosa seja a perturbação mais estudada nesta interseção, a perturbação da ingestão alimentar evitante restritiva, ARFID, surge de forma recorrente tanto em populações autistas como em pessoas com diagnóstico de anorexia nervosa.


Existem semelhanças comportamentais e socioemocionais relevantes entre a anorexia nervosa e o autismo. Entre elas incluem-se sensibilidades sensoriais marcadas, padrões de comportamento rígidos e hiperfocados, dificuldades na comunicação emocional e padrões alimentares restritivos, frequentemente descritos como alimentação seletiva. Hipersensibilidades ou hipossensibilidades ao sabor, textura, temperatura ou cheiro dos alimentos podem gerar aversão intensa e sofrimento, contribuindo para restrições alimentares persistentes. Em adultos autistas, estas experiências sensoriais são frequentemente relatadas como centrais na relação com a comida e podem constituir um fator de vulnerabilidade contínua para o desenvolvimento e manutenção de perturbações da conduta alimentar.


Algumas hipóteses teóricas sugerem que a inanição associada à anorexia nervosa pode intensificar a rigidez cognitiva, já presente como traço em muitas pessoas com anorexia, reforçando ciclos de manutenção da doença. Observam-se também dificuldades no processamento emocional, quer ao nível da resposta implícita a sinais emocionais, quer no reconhecimento explícito das emoções. Estas dificuldades estão intimamente relacionadas com alterações na interocepção, a capacidade de perceber e interpretar sinais internos como fome, saciedade, fadiga ou estados emocionais. Evidência recente aponta para uma consciência interoceptiva perturbada na anorexia nervosa, não se tratando apenas de ignorar sinais corporais, mas de uma dificuldade genuína em identificá-los e atribuir-lhes significado.


Importa salientar que dificuldades semelhantes de processamento interoceptivo e emocional são amplamente descritas em pessoas autistas, que frequentemente experienciam desafios no reconhecimento, diferenciação e regulação das emoções, bem como na leitura dos sinais corporais internos. Quando a anorexia nervosa ou a ARFID coocorrem com traços autistas, estas vulnerabilidades partilhadas podem amplificar a gravidade, a cronicidade e a resistência aos tratamentos convencionais, sobretudo quando os modelos de intervenção dependem de uma leitura intuitiva dos estados internos.


Face a este enquadramento, torna-se fundamental que psicólogos clínicos e equipas multidisciplinares considerem de forma sistemática a hipótese de autismo sempre que acompanham pessoas com perturbações da conduta alimentar, em particular quando existem trajetórias de tratamento longas, respostas atípicas às intervenções manualizadas ou padrões persistentes de rigidez e sensorialidade. Do mesmo modo, é essencial reconhecer que os modelos de intervenção tradicionais para as perturbações da conduta alimentar não se encontram, na sua maioria, adequadamente adaptados às necessidades das pessoas no espectro do autismo.


A adaptação clínica implica flexibilidade, validação das diferenças neurodivergentes, trabalho explícito de interocepção, ajustes sensoriais, previsibilidade, colaboração e um afastamento de abordagens normativas baseadas exclusivamente na motivação ou no insight. Mais do que resistência, muitas vezes o que se observa é um desfasamento entre o modelo terapêutico e o funcionamento neurocognitivo da pessoa. Reconhecer esta interseção não é apenas uma questão diagnóstica, é um imperativo ético e clínico que pode transformar percursos de sofrimento crónico em trajetórias de recuperação possível.


 
 
 

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