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Trauma

Desculpa mãe, não sei como colar a fotografia da avó! disse Angelo (nome ficitico). A mãe olhou para a fotografia que o filho trazia na mão e não conseguiu conter-se. A imagem empurrou-a para uma piscina de sentimentos. Imersa em todo aquele sentir, as próprias lágrimas pareciam ser a única coisa que a salvavam. Angelo ficou parado a ver a mãe chorar sem perceber. Catarina (nome ficitio) sabe que a sua mãe tinha qualquer coisa. Com isso queria significar que havia alguns comportamentos da sua mãe que não se encaixavam. Catarina não sabia explicar melhor. Nas descrições que Catarina faz da sua mãe, a palavra espectro do autismo parece vir ao de cima. Ao fim de algum tempo a falar com Catarina, volta a ficar lavada em lágrimas, mas agora diferente. Agora eu percebo porque é que a minha mãe tolerava todas aquelas coisas, diz Catarina deixando escapar um ligeiro sorriso.


A minha vida foi sempre sofrimento, dizia a minha mãe repetidamente. Sofrimento haveria de ser o meu sobrenome, só assim seria feito justiça, completava. Cresci a ouvir a minha mãe repetir estas duas frases, diz Catarina. Penso que até as murmurava quando estava em silêncio junto à bancada da cozinha a olhar lá para fora, continua. Não fazia nada. Ali ficava a fazer qualquer coisa com as mãos. Eu não percebia. E ela também não me deixava aproximar mais do que isso, refere.


Há coisas que sinto compreender nela, diz Catarina. Quando ele me agarrou e forçou a fazer sexo com ele, percebi aquelas palavras da minha mãe, refere. O nosso corpo é a mesa do prazer do outro, disse-me uma vez. Eu não percebi nada do que ela queria significar com aquela frase, diz. Mas também havia outras tantas coisas que não me fazia sentido na minha mãe. Até há bem pouco tempo, grande parte da vida dela não me fazia sentido, excepto pelo sofrimento que teve para me cuidar, acrescenta. A única coisa que soube no dia em que me disse aquela frase foi que na noite anterior o meu pai tinha fechado a minha porta à chave. Não era a primeira vez que o fazia, e eu não o estranhei. Pensei que me tinha portado mal na escola, continua. Também não era a primeira vez que isso acontecia e que ele se zangava. Ele zangava-se muito. Se a minha mãe era sofrimento, o meu pai era zanga. E eu sou filha de ambos. Como é que eu haveria de ser algo melhor? deixa Catarina a pergunta no ar.


Tal como a minha mãe também não sei o que é amor, diz Catarina. Estou a aprender a amar com o meu filho Angelo. Pelo menos é uma tentativa para saber o que é o amor. A minha mãe não me amou, diz. Alimentou-me. Manteve-me viva. E eu estou-lhe muito grata, diz. Mas não me amou. Agora percebo que não sabia. Agora percebo. Também não a amaram, refere.


O Angelo também já sabe dizer a palavra sofrimento, continua Catarina. Tem oito anos e desde a pré primária que é vitima de bullying. Dizem que as crianças autistas são mais dadas a estas situações, acrescenta. A primeira vez que um psicólogo me disse isso, passei-me com ele, gritei-lhe e disse-lhe tudo o que tinha entalado na garganta, diz. Como é que alguém por ser autista significa ser mais dado a sofrer? deixa Catarina a pergunta no ar. É como se disséssemos que o nome daquela pessoa tinha de ser aquele apenas porque é autista. E como tal teríamos de o chamar de sofrimento, é isso? deixa nova pergunta no ar. Catarina mostra-se ainda bastante zangada. As suas mãos fechadas sobre si mesmo nas pernas deixam antever toda a raiva acumulada nestes anos todos.


Se continuarem a dizer que as pessoas autistas são mais propensas a serem vitimas de bullying e dos maus tratos dos outros estão a normalizar esse comportamento, percebem? continua Catarina.


É como se me tivessem dito que por eu não saber amar tive aquilo que mereci quando fui violada por ele! refere com um semblante mais fechado ainda. E foi o que as tias do lado do meu pai me disseram quando eu disse que ia continuar a gravidez, diz. Eu não tinha o direito de desfazer uma vida, refere. Mas isso não significa que eu quisesse ter sido violada! acrescenta. Eu sabia que haveria de saber cuidar daquela vida, ainda que soubesse que nunca haveria de ser como eu tinha sonhado. Mas os sonhos nem sempre se realizam. Ou a vida nem sempre se concretiza. Mas o sofrimento sim, independentemente de como vivemos a vida, conclui.


Ao fim desta conversa penso que também eu sou autista, diz Catarina. Assim como a minha mãe o era. Tal qual o meu filho Angelo o é. Ele é o único diagnosticado. Gostava que ele não sofresse tal qual eu sofri e a minha mãe sofreu, refere. Eu sempre gostei de fotografia. Aquela fotografia que o meu filho Angelo trouxe da minha mãe fui eu que a tirei. Foi das últimas coisas que ela me pediu. Disse-me que queria que eu lhe tirasse uma fotografia a ela deitada na cama de olhos fechados, mas serena. Agora percebo, conclui Catarina.


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