Somos o que comemos
- pedrorodrigues

- 5 de dez. de 2024
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Somos o que comemos! Ouvimos esta frase com muita frequência. Principalmente quando nos referimos à necessidade de uma alimentação saudável. Alguns poderão estar a pensar se irei falar de algum tipo de dieta (e.g., glúten e caseína) para o tratamento de algumas das características presente num diagnóstico de autismo. Mas não! Deixo isso para os profissionais da nutrição!
Uma outra coisa que temos ouvido cada vez mais é a proximidade e/ou sobreposição entre a Perturbação do Espectro do Autismo e a Anorexia (Perturbação da Conduta Alimentar).
Tem-se verificado a presença de inúmeros traços comportamentais do autismo nas pessoas com Anorexia quando se usam questionários de rastreio. E uma correlação positiva ainda que baixa entre estas duas condições. E quando se usam instrumentos de observação para o diagnóstico de autismo (ADOS-2) nas pessoas com Anorexia, verificam-se percentagens de cerca de 30% de pessoas com Anorexia com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo.
Ainda que se saiba de todo um conjunto de comportamentos relacionados com a alimentação nas pessoas autistas, nomeadamente restrição alimentar, principalmente relacionado com aspectos de hipersensibilidade a determinadas texturas ou odores. Nestes outros casos estaremos a falar de duas condições, uma do neurodesenvolvimento e outra psiquiátrica com bastantes sobreposições e que vão para além da restrição alimentar. Nomeadamente, clinicos que trabalham na área das Perturbações da Conduta Alimentar e que trabalham com pessoas com traços autistas ou com diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, verificam que são situações clinicas com um prognóstico mais reservado. E muitas vezes com uma maior resistência à própria intervenção. E também por isso tem sido feito um trabalho mais aprofundado para construir protocolos de avaliação e intervenção para as pessoas com Anorexia e Autismo.
Uma possível explicação para a ligação entre estes dois diagnósticos é o facto de que eles partilham factores etiológicos que se sobrepõem. O autismo é considerado uma condição altamente hereditária e, da mesma forma, a investigação suporta uma influência genética substancial na Anorexia. Se ambos os diagnósticos partilham factores genéticos comuns, pode ser importante identificar sinais precoces da perturbação da conduta alimentar em pessoas autistas.
Os relatos de experiências vividas por mulheres autistas diagnosticadas com Anorexia corroboram este facto, expressando que as suas caraterísticas autistas, incluindo inflexibilidade, sensibilidades sensoriais e desafios sociais, contribuem para a perturbação alimentar. A ligação pode também ser mediada por outras questões comuns comuns entre as pessoas autistas. Por exemplo, as pessoas autistas podem ter dificuldades na regulação das emoções, o que pode aumentar o risco de uma alimentação restritiva como forma de controlo das emoções. Da mesma forma, as pessoas autistas têm frequentemente problemas alimentares concomitantes, incluindo a alimentação selectiva e a recusa alimentar, e que que podem desempenhar um papel na relação entre o autismo e as perturbações alimentares. Por conseguinte, para as pessoas autistas, as intervenções precoces que visam a desregulação emocional e os problemas alimentares podem reduzir o risco de perturbações alimentares posteriores.
Mesmo que os comportamentos alimentares sejam semelhantes aos de pessoas não-autistas com Anorexia, o diagnóstico pode não ser tão exacto na captação da perturbação alimentar na população autista. É necessário um conhecimento mais alargado do comportamento alimentar no autismo para poder prestar um apoio efetivo a este grupo. Isto requer uma avaliação activa da Anorexia e de outras perturbações alimentares em populações autistas. Por exemplo, a Perturbação de Ingestão Alimentar Evitante/Restritiva (ARFID) pode ser particularmente relevante, dada a inclusão no diagnóstico da restrição alimentar devido à sensibilidade sensorial, em vez de de alimentação restritiva devido à sensibilidade sensorial e não ao medo de ganhar peso. Uma vez que as preocupações com o peso e a forma corporal parecem ser parecem ser motivações menos comuns para a restrição alimentar entre as pessoas autistas, pode ser que para algumas pessoas autistas com Anorexia, a alimentação restritiva possa ser melhor captada por um diagnóstico ARFID.
O diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo é suficientemente complexo na sua apresentação enquanto perturbação do neurodesenvolvimento. E ainda mais o é quando se procura compreender este quadro clinico na pessoa adulta, principalmente quando se verifica um conjunto tão alargado de comorbilidades psiquiátricas associadas.
Estamos aqui a falar das Perturbações da Conduta Alimentar, mas poderíamos igualmente estar a falar de Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção, Perturbação Obsessivo-Compulsiva, Perturbação da Personalidade Borderline, Perturbação de Ansiedade Generalizada, etc. É importante ter em conta a complexidade da apresentação destes quadros clínicos, numa primeira instância no momento da avaliação, fazendo com que esta não se centre somente nos critérios de diagnóstico do autismo e que possa ir ao encontro de outros diagnósticos que possam ser igualmente possíveis. Mas também no cuidado a ter na própria adaptação dos programas de intervenção, mesmo aqueles que sendo manualizados e de orientação comportamental e cognitivo tenham sido validados para a intervenção nas perturbações da conduta alimentar, mas que não se encontrem devidamente adaptados quando há comorbilidades com o espectro do autismo.



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