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Se um elefante incomoda muita gente, ...

Estamos a caminhar a passos largos para o mês da consciencialização do autismo, tal como esta manada de elefantes neurodivergentes na foto que acompanha o texto de hoje. Mas do que nos vale continuarmos a celebrar o dia ou o mês da consciencialização se depois continuamos com o elefante na sala? Bem sei que são muitas metáforas, mas eu explico.


O número de diagnósticos no neurodesenvolvimento cresce. No caso do autismo, as pessoas adultas e principalmente as mulheres é onde se tem verificado um maior aumento. Há quem continue a falar de uma epidemia de diagnósticos de autismo. Mas ainda assim, temos cerca de 180 mil pessoas adultas a aguardar uma avaliação no serviço nacional de saúde público no Reino Unido para uma avaliação de despiste de autismo. Ao mesmo tempo verificamos um movimento, principalmente politico, a apontar o dedo para este acréscimo de diagnóstico e da necessidade de avaliação dos processos clínicos. No caso da PHDA verifica-se algo semelhante, nomeadamente o apontar de dedo para a prescrição de psicoestimulantes, quando na verdade a evidência clinica e cientifica demonstra precisamente os benefícios para a vida das pessoas. No caso do autismo continuamos a verificar que cerca de 80% continua a viver de forma dependente do grupo familiar e cerca de 60% não está integrado profissionalmente. As universidades estão a receber cada vez mais pessoas neurodivergentes e carecem de uma orientação clara de como proceder nestas situações, para além de se sublinhar a importância de uma legislação para a Educação Inclusiva no Ensino Superior. A existência de um plano nacional para o autismo é inexistente em Portugal, contrariamente a vários outros países europeus e das múltiplas orientações da comissão europeia. Os processos de transição das pessoas autistas, seja do ensino secundário para o ensino superior é inexistente e tem de ser os próprios a instruir o processo de candidatura e requisição da referenciação para a educação inclusiva. Mas também a transição dos serviços de psiquiatria da infância e adolescência para os serviços de adultos é pouco frequente, não obstante a existência de orientações clinicas de como proceder no casos das pessoas neurodivergentes.


A lista não termina aqui. Por isso, o que queremos fazer? Continuar a ouvir a manada de elefantes neurodivergentes a correr de um lado para o outro?


A pressão prolongada sobre os serviços de saúde mental tem contribuído para um modelo de intervenção frequentemente centrado na resposta reativa a crises agudas. Este enquadramento, embora necessário em situações de urgência, limita a capacidade dos sistemas para compreender e intervir sobre os fatores que sustentam as perturbações psiquiátricas e a deterioração do funcionamento psicossocial que frequentemente as antecede. Neste contexto, tanto profissionais de psiquiatria como de psicologia enfrentam desafios acrescidos na construção de respostas integradas, consistentes e orientadas para a prevenção. Paralelamente, tem vindo a emergir uma maior consciência relativamente às condições do desenvolvimento neurológico, aqui designadas como neurodiversidade, incluindo a perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA), autismo, tiques e as perturbações da linguagem, bem como da sua relação estreita com a saúde mental.


Apesar das discussões em torno da sua prevalência na população geral, a neurodiversidade está longe de ser residual nos contextos clínicos. Quando adequadamente identificada, revela-se altamente prevalente, associada a riscos significativos para a saúde e para a integração social, e com impacto profundo na apresentação e evolução das perturbações mentais. Ainda assim, continua frequentemente sub-reconhecida, particularmente em grupos minoritários, sendo que o seu impacto pode variar ao longo do ciclo de vida. Pessoas neurodivergentes sem apoio adequado apresentam maior vulnerabilidade a perturbações mentais e físicas, trajetórias clínicas mais complexas e custos acrescidos a nível individual, social e económico. Importa salientar que estes custos podem ser mitigados. Evidência recente demonstra benefícios robustos associados à medicação para a PHDA, incluindo reduções significativas no suicídio, no consumo de substâncias, em acidentes e em comportamentos criminais, com efeitos comparáveis ou superiores aos de muitas intervenções psiquiátricas baseadas na evidência.


Apesar desta relevância, a neurodiversidade e as suas implicações continuam a ser compreendidas de forma limitada e tratadas de modo inconsistente. A fragmentação dos serviços traduz-se frequentemente em abordagens parcelares, nas quais profissionais de psiquiatria e de psicologia captam apenas dimensões específicas da realidade clínica, sem uma integração compreensiva do funcionamento global da pessoa. A metáfora do “elefante na sala” torna-se, assim, particularmente pertinente. Em contextos clínicos de rotina, estima-se que cerca de 22% das pessoas apresentem PHDA e até 20% preencham, ou provavelmente preencham, critérios para autismo. Em serviços de urgência, estes valores podem ser ainda mais elevados, evidenciando uma lacuna significativa na identificação precoce. Neurotipos frequentes, associados a piores desfechos clínicos, permanecem muitas vezes invisíveis na prática clínica.


A coocorrência entre neurodiversidade e perturbações psiquiátricas primárias intensifica este desafio. Em primeiros episódios de psicose, uma proporção significativa de pessoas apresenta características neurodivergentes, com início mais precoce dos sintomas e maior necessidade de cuidados urgentes. Padrões semelhantes são observados na perturbação bipolar, na perturbação obsessivo-compulsiva e em diversas perturbações de ansiedade, bem como em contextos de dependências, perturbações do comportamento alimentar e síndromes somáticas funcionais. Acresce que a neurodiversidade tende a sobrepor-se. A PHDA coocorre frequentemente com o autismo, e traços autistas são comuns em pessoas com PHDA. Este entrelaçamento exige uma abordagem clínica integrada, na qual profissionais de psicologia e psiquiatria colaboram na formulação de casos e na adaptação de intervenções às especificidades do desenvolvimento neurológico.


Pessoas neurodivergentes com perturbações mentais tendem a necessitar de cuidados mais intensivos e apresentam maior risco de crise e recaída. Dados genéticos, epidemiológicos e clínicos sugerem que a neurodiversidade partilha vias comuns com várias perturbações psiquiátricas, refletindo uma maior vulnerabilidade biopsicossocial a fatores de stress ambientais e sociais. Esta perspetiva reforça a importância de abordagens compreensivas, centradas na pessoa, que integrem contributos da psicologia e da psiquiatria na compreensão dos perfis individuais de funcionamento e adaptação.


Perante este cenário, torna-se necessária uma mudança estrutural, assente em quatro eixos interligados: promoção, prevenção, preparação e participação. A promoção implica a implementação sistemática de rastreios para PHDA e autismo em contextos educativos, cuidados de saúde primários e serviços especializados, sustentada por instrumentos validados e formação abrangente para profissionais de diferentes áreas, incluindo psicólogos e psiquiatras. A prevenção requer intervenções precoces e ajustadas aos contextos de vida, reduzindo o risco de trajetórias clínicas mais complexas. A preparação exige uma reorganização dos serviços, garantindo percursos de avaliação e intervenção integrados, acessíveis e eficazes, que articulem abordagens farmacológicas com intervenções psicológicas adaptadas e apoio psicossocial. A participação pressupõe a inclusão ativa de pessoas neurodivergentes na conceção e avaliação dos serviços, valorizando o seu conhecimento experiencial.


Esta transformação deve ainda reconhecer a natureza transdiagnóstica da neurodiversidade, promovendo uma articulação efetiva entre setores como saúde, educação, emprego e justiça. Estratégias de identificação e apoio precoce devem ser complementadas por políticas intersetoriais que assegurem continuidade e coerência nas respostas. Equipas multidisciplinares, com integração efetiva de profissionais de psicologia e psiquiatria, desempenham um papel central na mitigação de riscos e na promoção do desenvolvimento ao longo da vida.


Os profissionais de psiquiatria e de psicologia encontram-se numa posição privilegiada para liderar esta mudança, através da construção de formulações biopsicossociais integradas que incorporem o conhecimento atualizado sobre o desenvolvimento neurológico. A neurodiversidade constitui uma parte significativa da prática clínica quotidiana, ainda que nem sempre reconhecida como tal. Uma maior literacia neste domínio permitirá compreender melhor cada pessoa, adaptar intervenções e promover cuidados mais eficazes, equitativos e verdadeiramente centrados na singularidade do desenvolvimento humano.


 
 
 

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