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Se queres um trabalho bem feito...

Se queres um trabalho bem feito, contrata um profissional, costuma ser assim que as pessoas dizem. Mas uma coisa é o que se diz e outra é o que se faz, costumam também dizer. E no autismo, como em muitos outros lados, há de tudo um pouco.


Nos últimos anos têm lido aqui alguns textos sobre os estudantes universitários autistas, certo? E das dificuldades que muitos deles enfrentam até lá chegar, para entrar, frequentar e depois também para terminar, verdade? Inclusive, eu próprio já tenho participado em algumas apresentações de trabalhos e conferências com este tema - Quando o autismo vai para a universidade. E inclusive, no final do ano lectivo anterior fiz um workshop para os diversos profissionais e técnicos da Universidade de Lisboa precisamente com este tema, no sentido de poder ajudar a melhor compreender e capacitar em termos do trabalho que realizam na universidade.


E as coisas podiam continuar assim. Os técnicos e profissionais das universidades quando sentem dificuldades em como lidar com os alunos autistas procuram estas formações para colmatar as suas necessidades. Os alunos autistas quando têm dificuldades procuram acompanhamento psicológico junto de um profissional adequado para serem orientados. Os pais dos alunos autistas procuram igualmente apoio psicológico para poderem saber como melhor apoiar os seus filhos. E com tudo isto a situação ficaria resolvida pensarão muitos, certo? Mas não é totalmente verdade. E isso passasse não somente com o autismo mas também com outras condições e em qualquer outra área para além do ensino superior.


Eu ou qualquer outro psicólogo poderíamos perfeitamente continuar a contar com a nossa experiência profissional a trabalhar com pessoas autistas, para além de todo o conhecimento cientifico acumulado até à data relativamente à Perturbação do Espectro do Autismo. Com uma sensibilidade adequada poderíamos perfeitamente saber conjugar a informação respeitante às características presentes no diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo e todo um conjunto de outros aspectos igualmente relevantes da vida da pessoa autista no ensino superior. Mas será que essa mesma informação será toda ela suficiente para melhor ajudar a compreender o que se passa na pessoa autista a frequentar o ensino superior? A resposta é não!


Certamente podemos continuar a dizer que os alunos autistas no ensino superior passam por um conjunto de dificuldades e têm um conjunto de necessidades muito semelhantes àquelas que encontram ao longo da escolaridade obrigatória! Mas isso não é verdade. Seja do ponto de visto do processamento de informação e da sua própria capacidade. Independentemente das suas características, o seu processo maturativo permite ao aluno nesta etapa um conjunto de competências e capacidades diferentes. Além do mais é preciso perceber se a pessoa já teve e/ou continua a ter acompanhamento psicológico e outro ao longo do tempo. E se for o caso é de esperar que a pessoa esteja mais capaz de dar uma resposta diferente às diferentes solicitações. Mas também é fundamental pensar que há todo um desenvolvimento ao nível pessoal e de personalidade e que este jovem adulto está a olhar para o mundo e tudo aquilo que o envolve de uma forma diferente.


É sabido que o número de alunos autistas a se candidatarem ao ensino superior está a aumentar. E também vai sendo cada vez mais conhecido as necessidades que muitos destes estudantes não estão a ver contempladas. Além de todo o estigma que sofrem relativamente à sua condição. E a literatura tem demonstrado que os alunos que têm uma percepção mais negativa relativamente ao autismo, são precisamente aqueles que acabam por perpetuar um conjunto de comportamentos e atitudes que mais contribuem para esse mesmo estigma. Como tal, um aspecto importante na intervenção nesta área passa por realizar acções de sensibilização e informação acerca do que é a Perturbação do Espectro do Autismo e da pessoa autista no ensino superior, correcto? Seria bom que fosse assim tão fácil, pois não é.


De uma forma geral, são muitos os alunos no ensino superior, e não só, que mostram pouca motivação para frequentar acções de sensibilização e informação acerca desta condição, e não só. É quase como se a ideia presente fosse - Eu não tenho autismo logo não preciso de saber acerca disso ! Contudo, quando pensamos que que 1 em cada 54 crianças apresenta o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, fica a ideia de quantas pessoas autistas estarão a frequentar o ensino superior? Sejam aqueles que sabem acerca do seu diagnóstico mas também de todo um conjunto de outros que não têm esse conhecimento. E certamente que eu ou outro colega que trabalha nesta área poderá perfeitamente ir falar aos alunos no ensino superior o que é o autismo e como é o autismo no ensino superior. Mas qual será a percepção que estes mesmos alunos passarão a ter acerca do autismo e das pessoas autistas no ensino superior depois destas acções? Podemos sempre pensar que somos alguém muito capaz e como tal a alteração é significativa e no sentido desejado. Normalmente sou mais cauteloso e fico a pensar que caso assim o fosse, estes e outros fenómenos há muito que estariam resolvidos. Até porque este tipo de trabalho há muito que se faz. Como se costuma dizer, eu não inventei a roda!!


Num dos workshop que realizei no final do ano lectivo anterior precisamente com o tema do autismo no ensino superior foi possível ter uma pessoa autista a frequentar. Não deve ser a primeira vez que isso acontece. No entanto, esta pessoa quis identificar-se como autista e foi possível aproveitar muito da sua experiência dito nas suas próprias palavras. Ou seja, é importante que no combate ao estigma face ao autismo possa ser possível que o mesmo seja realizado pelas próprias pessoas autistas. É fundamental capacitar a pessoa autista para que ela se sinta auto-determinada e participante nestes eventos. E essa sua participação será duplamente importante na medida em que ajudará os colegas a tomar consciência de que os alunos autistas estão presentes no ensino superior. Além de que as suas necessidades são isso mesmo necessidades, assim como as suas dificuldades e características. Todas elas são enquadradas num diagnóstico é verdade. Mas independentemente disso são alunos do ensino superior e que procuram como todos os outros fazer a sua formação, estabelecer relações de amizade e prosseguir o seu caminho.


Esta questão das pessoas autistas participarem nos eventos científicos e formativos não é novidade nenhuma. Tem sido cada vez mais a prática habitual de haver congressos com a apresentação de trabalhos realizados por cientistas autistas, ou de trabalhos conjuntos entre a comunidade cientifica e a comunidade autista. E o mesmo se aplica em situações de acções de sensibilização, informação e formação. Por exemplo, algumas instituições providenciam elas próprias serviços nesta área especifica. Além de se verificar que a própria comunidade autistas se vai ela própria reorganizando no sentido de dinamizar eventos científicos e formativos quase totalmente composto por participantes autistas.


É um caminho longo e que se espera que todos possam ter a disponibilidade e humildade para o fazer.


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