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Se hoje eu fosse uma criança...

Olha, é o Bill Gates! É aquele multimilionário da Microsoft. Está aqui a dizer que ele é autista!


Ao lermos a noticia de que ontem num jantar com Donald Trump, Bill Gates terá dito que se hoje fosse uma criança teria sido certamente diagnosticado com Perturbação do Espectro do Autismo. Alguns de nós não ficariam surpresos tendo em conta que já tinham observado alguns comportamentos na sua pessoa e pensado nele como estando integrado no espectro do autismo. Assim como algumas outras pessoas igualmente conhecidas, e que inclusive algumas deles o vieram a assumir mais recentemente.


Bill Gates nasceu em 1955. Hoje tem 69 anos. Em média uma pessoa com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo tende a ser diagnosticado entre os seis e os oito anos de idade. Bill Gates teria 8 anos em 1963. Apesar de já ter havido diagnósticos de autismo desde 1941, apenas em 1980 é que o autismo entrou pela primieira vez na DSM III. E como tal, nessa altura já Bill Gates tinha 25 anos. Nesta altura, o fundador da Microsoft estava a apenas seis anos de se tornar um milionário com trinta e um anos. Isto não obstante ter tido todo um conjunto de dificuldades ao longo do seu percurso escolar e académico


Mas não é tanto do suposto diagnóstico de autismo do Bill Gates que vos gostaria de falar, mas sim daquilo que esta noticia me fez pensar.


A Perturbação do Espectro do Autismo é uma condição que existe ao longo da vida da pessoa, com uma base neurobiológica, e que pode ser diagnosticada a partir dos 24 meses de idade. Não obstante hoje estarmos mais capazes de fazer um diagnóstico precoce desta condição, ainda assim ela continua a ser diagnosticada em média entre os seis e os oito anos de idade. E além disso sabemos que continua, ainda hoje, a haver todo um conjunto de pessoas adultas que são apenas diagnosticadas nesta etapa de vida, isto apesar de demonstrarem várias destas suas características ao longo da vida e em diferentes contextos (i.e., familia, escola, consultas médicas, universidade, trabalho, etc.).


Mas então porque é que continuamos a verificar uma situação destas quando sabemos que hoje em dia sabemos mais e melhor acerca do autismo, suas características, instrumentos de avaliação, etc.?


Uma pessoa autista é única comparativamente a qualquer outra pessoa autista, não obstante partilharem o mesmo diagnóstico! Mas uma pessoa autista é igualmente diferente enquanto tal ao longo da vida! Ou seja, uma pessoa autista não é igual enquanto criança, adolescente, adulta e sénior. A pessoa continua a ter o mesmo diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Mas como qualquer pessoa, ela também vai sendo diferente sa sua forma de expressão, pensar, sentir e fazer ao longo da vida. Seja devido à sua menor ou maior maturidade, experiências de vida, capacidade de aprendizagem, etc. A pessoa autista vai ela própria sofrer todo um conjunto de transformações face ao seu contacto com o meio ambiente envolvente, as pessoas com quem se vai relacionar, e com o Mundo de uma forma geral.


Em criança observamos com maior frequência que esta faz birras e fica mais desregulada pela sua menor capacidade em lidar com a frustração. É uma característica presente nas crianças e é uma características presente nas crianças autistas ainda que com outros contornos comportamentais e cognitivos. Facto que leva a que estas mesmas situações de desregulação comportamental e emocional sejam mais intensas e mais duradouras no tempo apesar das tentativas das pessoas em a tentar acalmar. Nos adolescentes verificamos uma atitude mais desafiante face à autoridade e aos adultos. Uma atitude de quem sabe tudo e não quer ouvir a opinião do outro, principalmente quando este é adulto. Para além de uma maior inflexibilidade comportamental e cognitiva. Assim como uma maior volatilidade do ponto de vista emocional com episódios de explosão comportamental e emocional desproporcional face ao acontecido. Isto é assim nos adolescentes de uma maneira geral, assim como nos adolescentes autistas, ainda que estes últimos apresentem todo um conjunto de aspectos diferentes e que pertencem ao seu perfil de funcionamento enquanto adolescentes autistas. Até porque as transformações hormonais não são selectivas em relacção às pessoas não autistas e autistas. Nos adultos vamos verificar que as pessoas têm um conjunto de maior de competências comportamentais, cognitivas e emocionais. E além disso passam a ser um pouco mais capazes de terem tolerância face a situações de frustração e constrangimento. Assim como são capazes de desenvolver todo uma gama de comportamentos sociais e que são adaptados aos contextos em que sabem estar presentes. E isso vai aocntecer nas pessoas adultas de uma maneira geral, mas também em várias pessoas autistas adultas. Nomeadamente, são várias as mulheres autistas que desenvolvem desde a adolescência comportamentos de camuflagem social. Nas pessoas séniors, passamos a assistir a uma menor tolerância à frustração e necessidade de estar mais isolado. E as situações de maior agitação social e não só, passam a ser contextos em que as pessoas sénior procuram estar mais afastados. E isso acontece de uma forma semelhante também nas pessoas autistas sénior, ainda que adicionalmente se possam observar todo um conjunto de outras características.


E tudo isto não é dizer que todas as pessoas são autistas, como vulgarmente ainda hoje ouvimos. É dizer que as características presentes no autismo, ainda que em menor percentagem e menos aglomeradas, são observadas na população em geral. Mas também é dizer que as pessoas autistas enquanto pessoas são igualmente permeáveis e susceptíveis de mudar quando em contacto com o meio envolvente, com as pessoas e o Mundo.


Mas continuamos a verificar que nas pessoas adultas continua a ser mais dificil em observar e diagnosticar uma Perturbação do Espectro do Autismo. E se chegaram assim até à idade adulta, é porque também passaram pelos crivos existentes na infância e adolescência. Mas se são diagnosticadas com uma Perturbação do Espectro do Autismo em adulto garantidamente foram, ainda que com as devidas diferenças de expressão, adolescentes e crianças autistas.


E provavelmente isso terá em parte a ver com aquilo que mutias pessoas pensam que é o autismo. E se apresentarem algumas competências sociais de interagir e comunicar socialmente. Nomeadamente se manifestarem vontade em fazer e ter amigos. Ou se fizerem contacto ocular, ainda que este possa ser um pouco mais atipico. E se for capaz do ponto de vista cognitivo e intelectual e vá demonstrando uma excelente ou até mesmo capacidade média de aprendizagem. E se tiver todo um conjunto destas competências e além disso camuflar socialmente vários dos seus comportamentos e sofre psicologicamente em segredo e silêncio, então esta pessoa não pode ser autista.


Agora com 69 anos e toda uma capacidade aprendida de introspeção e reflexão desenvolvida ao longo da vida, Bill Gates procura fazer uma retrospectiva da sua vida. E cruzando com aquilo que é o conhecimento cientifico e médico sobre o autismo é capaz de afirmar num jantar com outras pessoas, que se a sua pessoa fosse hoje uma criança com 6-8 anos poderia mais facilmente seria diagnosticado enquanto criança autista. Mas isso não retira todo o sofrimento psicológico e emocional sentido ao longo da vida para chegar a essa conclusão.


 
 
 

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