Sair do armário
- pedrorodrigues

- 13 de jan.
- 3 min de leitura
Sair do armário! Uma expressão conhecida por muitos para se referir a alguém que viveu escondido, constangindo uma parte importante de si, seja relacionado com a identidade sexual ou com um diagnóstico (ou suspeita de diagnóstico).
Depois de ontem ter sido anunciado pela Mattel a saída da nova Barbie autista, não se fez esperar a reação de outras bonecas que decidiram sair do armário para vir reclamar a sua identidade autista.
A afamada Sindy, que apesar do seu ar jovial já conta com cerca de 54 anos. A Licca-chan que veio do Japão para Portugal para tentar encontrar uma resposta em relação a várias das suas características que na sua terra natal pareciam estar mais enquadradas na cultura oriental, mas que a Licca sempre sentiu que havia mais qualquer coisa. E por último mas não menos importante a Bratz Sasha que está com os seus pais em Portugal para uma consulta do neurodesenvolvimento porque em África continua a haver uma resposta muito escassa na área do neurodesenvolvimento.
Antes que desatem a correr para um centro comercial a procurar algumas destas outras opções, deixem-me dizer que a única oferta real que irão encontrar é a Barbie lançada ontem pela Mattel. Estes outros exemplos são a minha forma de expressar o meu desejo de que estes e outros exemplos relativos à representatividade das pessoas autistas possa impulsionar a procura por parte de outras raparigas e mulheres consultas da especialidade para fazerem uma avaliação de Perturbação do Espectro do Autismo e possam ser acompanhadas e ajudadas a melhor se compreenderem.
Continua a existir muita desinformação e crenças erroneas e estereótipadas acerca do autismo e das pessoas autistas. A própria designação espectro quer precisamente apelar a essa mesmo heterogeneidade e variabilidade da expressão comportamental observada nas pessoas autistas e ao longo da vida.
Muitos de nós, inlcusive profissionais de saúde, temos uma responsabilidade acrescida de nos munirmos de mais e melhor informação clinica e cientifica acerca das diferentes condições com que possivelmente venhamos a encontrar na clinica. E no caso de nos sentirmos menos capazes e competentes de avaliar devemos referenciar para colegas que o possam fazer de uma forma capaz.
É fundamental que possamos aceitar as nossas limitações e desconhecimento em relação a determinadas condições, para que com isso possamos humildemente procurar uma formação adequada para fornecermos uma resposta mais adequada e humanista a quem nos procura.
Mesmo no processo de avaliação e nos instrumentos que são usados para realizar uma avaliação de Perturbação do Espectro do Autismo, é fundamental termos uma atenção especial quando temos algumas características suspeitas de pertencer ao espectro do autismo numa rapariga e mulher, mas que várias das outras características habitualmente presentes no espectro do autismo possam não estar presentes ou observaveis de uma forma mais subtil.
Contacto ocular, desejo de ter relações sociais e/ou amorosas, menos comportamentos repetitivos e estereótipadados, etc. São todo um conjunto de exemplos que podem ser observados e estarem presentes nas raparigas e mulheres no espectro do autismo, principalmente quando nos referimos à Perturbação do Espectro do Autismo nível 1.
Temos todos de fazer uma mudança. Os pais poderem escutar de uma outra forma as suas filhas e poderem dar crédito a algumas das suas queixas, mesmo que algumas delas possam não vos fazer muito sentido. Os professores poderem também solicitar mais e melhor formação acerca do espectro do autismo na idade escolar e com isso poderem quebrar algumas das crenças e mitos que alguns transportam acerca do autismo. As raparigas e mulheres, que possam continuar a procurar mais e melhor informação acerca desta sua suspeita de estarem no espectro do autismo. Sendo que sublinho a importância de estarem atentas a muita da desinformação que circula nas redes sociais. Mas que em caso de dúvida podem e devem procurar uma avaliação por parte de um especialista nesta área do neurodesenvolvimento e não se ficarem apenas pelo auto-diagnóstico. Quanto aos profissionais de saúde já disse anteriormente e em muitos outros momentos, sobre a importância e a responsabilidade acrescida que recai sobre nós.



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