Romantizar o autismo
- pedrorodrigues

- há 6 dias
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Há uma expressão que se repete nas redes sociais e nas conversas clínicas: não romantizar o autismo. Dita com boa intenção, pretende evitar que o sofrimento e as limitações reais sejam encobertos por uma visão idealizada. Mas esta frase, analisada de forma mais profunda, revela tensões mais profundas entre o modo como pensamos o sofrimento humano e o modo como o queremos integrar no sentido da existência.
O autismo, como condição neurodesenvolvimental, é simultaneamente uma diferença estrutural no modo de perceber e processar o mundo e uma experiência de ser-no-mundo marcada por fraturas: sociais, sensoriais, identitárias. As neurociências têm mostrado que a conectividade cerebral autista não é “defeituosa”, mas diferente; há padrões de hiperconectividade em certas áreas, traduzindo-se em modos de atenção e de pensamento singulares. Esta diferença, porém, ocorre num mundo desenhado para o cérebro neurotípico. É aqui que nasce o sofrimento.
A psicologia clínica conhece bem esta tensão. A intervenção com adultos autistas revela que muitos não sofrem tanto da sua forma de ser, mas da constante colisão com um ambiente que a invalida. A dificuldade não é apenas prática, mas ontológica: sentir-se sempre fora do horizonte de compreensão dos outros. Quando alguém diz “não romantizes o autismo”, há implícita uma tentativa de proteger da negação da dor. Contudo, o risco é outro: negar a beleza e o sentido possível dentro dessa diferença.
A filosofia existencialista oferece aqui uma lente crucial. Para Sartre, o ser humano está condenado à liberdade, condenado a construir sentido no meio do absurdo. Enquato que para Kierkegaard, o desespero é a consciência de um eu que não consegue ser ele mesmo perante Deus ou o mundo. O sujeito autista vive, frequentemente, esse abismo: quer ser autêntico, mas a autenticidade custa isolamento; quer pertencer, mas a pertença exige máscara. Romantizar o autismo, neste contexto, pode ser uma forma de resistência, uma afirmação de valor existencial diante de um mundo que insiste em ver apenas o défice.
Mas há um perigo real em romantizar: o de apagar a dor concreta dos que vivem um autismo não verbal, o de ignorar as famílias exaustas, o de confundir poesia com política. Romantizar, se entendido como idealizar, torna invisíveis as necessidades clínicas, terapêuticas e estruturais. O sofrimento sensorial, as crises, o burnout autista, a dificuldade de acesso ao emprego ou aos relacionamentos amorosos, tudo isso é real e não se desfaz com discursos de aceitação que esquecem a luta.
No entanto, recusar qualquer romantização é recusar também a dimensão estética e simbólica da existência. Há quem encontre no próprio autismo um modo singular de ver o mundo: uma clareza nas formas, uma fidelidade radical à verdade, uma sensibilidade que toca o sublime. Negar a alguém o direito de poetizar a própria diferença é perpetuar a ideia de que só os normais podem celebrar a vida.
A neurodiversidade, enquanto movimento, nasceu da reivindicação desse direito: o de transformar a patologia em diferença e a diferença em narrativa. É, em parte, um gesto romântico no sentido filosófico, uma tentativa de reconciliar o sujeito com o seu destino biológico através da imaginação e do símbolo.
Talvez a questão não seja se devemos ou não romantizar o autismo, mas como o fazemos. O romantismo vazio, que apaga o sofrimento, é uma mentira. Mas o romantismo trágico, consciente do limite e da dor, é profundamente humano. É o mesmo impulso que levou Nietzsche a dizer que é preciso ter caos dentro de si para gerar uma estrela dançante.
Romantizar o autismo, então, pode significar reconhecer que há beleza no modo diferente de sentir o tempo, no rigor da lógica, na sensibilidade às texturas e aos sons, no amor obsessivo pela verdade. Pode ser um gesto de dignidade contra a medicalização total da diferença. Mas só se for feito com verdade, sem negar o colapso sensorial, o isolamento, a exaustão e a violência social.
No fundo, as pessoas autistas têm o mesmo direito existencial de qualquer outro ser humano: o de construir uma narrativa bela sobre si, mesmo que o mundo insista em ver tragédia onde há apenas vida. E talvez, paradoxalmente, esse direito de romantizar a própria dor seja o que nos torna plenamente humanos.
O erro não está em romantizar o autismo. Está a fazer sem escutar a realidade. O acerto está em aceitar que o autismo, como a própria condição humana, é um território onde convivem o sofrimento e o espanto.
E talvez seja esse o gesto mais verdadeiro: não negar a dor, mas transformar o fardo em símbolo, o silêncio em voz, a diferença em forma de arte.




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