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Quem canta seus males espanta

Quem canta seus males espanta, diz o ditado. E quem dança também, não concorda? A música é uma linguagem universal. E muitos usam-na para ajudar a reduzir o stress e a ansiedade, melhorar o humor positivo e facilitar os laços sociais. Quantos de vocês não se deram conta de ir a conduzir de manhã para o trabalho e sem perceberem já estavam a trautear a música ouvida do rádio? E alguns a acompanhar com as mãos a batucar no volante! E quantos de vocês não ficaram surpreendidos por numa festa de aniversário sentirem que os vossos pés estavam a batucar no chão com alguma vontade desconhecida de começar a dançar, ainda que a timidez pudesse impedir o movimento? Até mesmo aqueles que se definem como uns cepos (i.e., designação habitual daqueles que dizem não saber dançar), quem nunca sentiu vontade de soltar o John Travolta ou Jane Fonda dentro de si?


A música é um estímulo poderoso que pode conduzir os nossos estados afectivos, expressar emoções complexas e às vezes contraditórias e nos energizar ou acalmar. Vários estudos científicos têm demonstrado as inúmeras influências que a música tem na nossa perceção, comportamento, respostas endócrinas, actividade cerebral, e especialmente nos circuitos emocionais e no sistema de recompensa associado. Como tal, não é surpreendente que a regulação do humor - libertar emoções negativas, manter o humor positivo, imersão em emoções intensas, energizar ou relaxar - seja repetidamente citada como uma das razões mais importantes para consumir música.


Ainda estou recordado quando há uns anos atrás fui aprender danças latinas. E apesar de ser uma espécie de cepo, tenho a nítida sensação, ainda memorizada, do quanto bem me senti. Além de me recordar de todos os bailaricos a que já fui na terra dos meus pais e sogros e de dançar até a camisa ficar a pingar de suor. E de no dia seguinte me sentir fantástico, ainda que as pernas estivessem a pedir mais descanso.


Alguns de vocês que seguem habitualmente o nosso site Autismo no Adulto, já se estarão a perguntar se aquilo que irei escrever a seguir terá a ver com a possibilidade de usar a dança com as pessoas autistas para poder ajudar a lidar com várias situações causadoras de mal estar, certo? E estarão a pensar que é impossível pensar nisso tendo em conta todo um conjunto de características que se diz existir no autismo. Sejam as questões motoras e de coordenação, mas também as hipersensibilidades tácteis e auditivas, e não esquecer a exposição social. Parece que tudo isto é um cocktail para garantir que as pessoas autistas não se aproximam da dança. E se calhar também pensarão o mesmo em relação ao teatro certo? E quantos de vocês não conhecem experiências de companhias de teatro com pessoas autistas?

A dança, definida como meio de acção, percepção, compreensão e interpretação do movimento gestual, permite ao corpo personificar o significado simbólico, tornando-se assim uma ferramenta de expressão gestual. A sensibilidade estética é despertada, e como uma leitura poética e plástica do corpo em movimento, o gesto é estabelecido numa dimensão particular do corpo em movimento, com o objetivo de promover a inferência emocional

e empatia, nomeadamente uma reação emocional aos sentimentos dos outros.


Mas as nossas crenças, principalmente das pessoas não autistas referente às pessoas autistas, têm de uma maneira geral esta conceptualização do que pode ou não ser possível. E a dança é uma das vistas como impossível de acontecer no autismo. E como tal, também aqui, estas nossas crenças condicionam em muito a possibilidade de criar determinado conjunto de experiências com as pessoas autistas. E especificamente dar a experimentar momentos de dança, seja de aprendizagem ou de simples desfrutar. É bem provável que algumas questões precisem de ser adaptadas. Assim como em tantas outras questões. No entanto, não deveria ser isso a fonte de impedimento.


A dança, seja porque pode funcionar como uma ferramenta terapêutica, nomeadamente para trabalhar com a pessoa as questões da percepção do corpo e do espaço. Além de poder perfeitamente funcionar como forma de expressão e comunicação. A dança pode perfeitamente funcionar como uma forma das pessoas se encontrarem e desfrutarem da sua companhia durante determinado período de tempo. E isto é verdade para as pessoas não autistas e autistas. Até porque se a música tem uma linguagem universal, a dança não lhe fica atrás.


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