Quem é que devemos tratar?

Já alguma vez lhe perguntaram sobre quem deveria ser ajudado em primeiro lugar em caso de despressurização da cabine num avião, se a mãe ou o filho? E talvez você se tenha apressado a responder o filho, certo? E depois de ter ouvido a resposta "certa" para a situação deu consigo a pensar sobre o assunto, confere? Pois bem, há algumas outras situações na vida que também pensamos ter a resposta certa para lidar com a situação e depois percebemos que não é bem assim. É o caso da saúde mental. Quem é que nós devemos tratar? No âmbito da saúde mental, a resposta a esta pergunta continua a ser muito frequentemente respondida com - A pessoa que tem a perturbação!, certo? A pessoa tem uma perturbação psiquiátrica, e associado tem um conjunto de sintomas que se traduzem num mal estar significativo. E como tal é a pessoa individual que deve ser ajudada, correcto? Independentemente da pessoa apresentar um determinado equilíbrio, ainda que instável, entre características comportamentais e competências positivas e negativas, a intervenção deve ser centrada na pessoa, certo? Não parece haver dúvida em muitos de nós. Até porque os protocolos de intervenção foram criados, testados e validados para esse efeito. E como tal deveríamos partir do principio que a partir do momento em que alguém com uma perturbação psiquiátrica é diagnosticada e passa a fazer a intervenção, ao fim de determinado tempo possa estar tratada, correcto? E muitas das vez apontamos para os múltiplos estudos científicos que são feitos nesta área e que demonstram a sua eficácia. Os estudos são importantes, mas precisam de ser lidos com cautela. Até porque nesta área especificamente os estudos que acompanham longitudinalmente as pessoas que receberam a intervenção são escassos. Sabemos que há uma determinada percentagem de eficácia num período circunscrito no tempo. E depois disso? Já me aconteceu ter pessoas em acompanhamento e que ao fim de determinado período de tempo de intervenção se verificaram melhorias acentuadas na vida da pessoa. Nomeadamente ao ponto de ter alta clínica. Só que ao fim de determinado conjunto de anos e no decorrer de determinado conjunto de situações e acontecimento de vida a pessoa voltou a necessitar de acompanhamento. E isso significa que a intervenção não correu bem? Não necessariamente. Mas porventura significa que a saúde mental é mais do que o alivio dos sintomas. E tal como na pergunta inicial da situação de despressurização na cabine do avião se percebeu que é preciso cuidar do adulto para que este cuide da criança. Também neste tema da saúde mental e mais especificamente dentro da Perturbação do Espectro do Autismo é preciso pensar em cuidar a família. Tal como no dizer de Napoleon Hill, "O carvalho mais forte da floresta não é o que está protegido da tempestade e escondido do sol. É o que fica ao ar livre, onde está obrigado a lutar por sua existência contra os ventos e chuvas.". E a evidência cientifica mostra que no Espectro do Autismo a família nuclear é aquela que acompanha o seu familiar com PEA ao longo da vida. Mesmo quando a terapia ocorre ao longo da vida, esta acontece num período circunscrito de tempo (e.g., 1 hora por semana). A família está todas as outras horas, dias, semanas, meses e anos com o seu familiar. E além disso sabemos que as pessoas não vão fazer terapia de forma continuada a vida inteira. E também sabemos que a saúde da família vai interagir com a saúde da pessoa individual. Mas também sabemos que no Espectro do Autismo a probabilidade de haver na família mais alguém com diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo ou com outra perturbação psiquiátrica é grande. Além de que a interacção continuada ao longo do tempo com alguém com PEA é gerador de maiores níveis de ansiedade e depressão. Mas não se trata apenas de aliviar os sintomas. Sabemos também que a aceitação da família em relação à condição do seu familiar é promotor de um maior bem estar. E em relação à intervenção no contexto? Quantas vezes na nossa vida fomos testemunhas de que após mudarmos determinadas variáveis no contexto a nossa situação melhorou. Por exemplo, quando procuramos aumentar a temperatura do ar condicionado por nos sentirmos com mais frio. Claro que aqui estamos a falar de fenómenos mais complexos, mas ainda assim, o principio orientador é importante. Por exemplo, imagine que damos máquinas fotográficas a atletas com Perturbação do Espectro do Autismo e lhes pedimos para eles tirarem fotografias daquilo que eles considerarem significativo no evento desportivo, estamos à espera de ver que tipo de fotos? Pessoas a correr? Nem por isso! Pessoas a receber as suas medalhas? Talvez algumas! Mas principalmente aquilo que eles fotografaram como significativo foram momentos de partilha entre os participantes, momentos de interacção social. Espantado? Já pensaram que se conseguirmos agir sobre a Sociedade, no sentido desta se tornar inclusiva, aceitar a diferença e promover a participação de todos de uma forma equitativa, não necessitaríamos que as intervenções individuais, em grupo ou na família tivessem de ser tão frequentemente implementadas? Até porque temos cada vez mais situações de pessoas que são diagnosticadas precocemente e que beneficiam de uma intervenção individualizada ao longo da infância e adolescência, até à entrada na vida adulta. Assim como a sua família que recebe treino parental. E poderíamos pensar que esta pessoa estaria integrada e capaz de dar resposta de forma autónoma às suas necessidades e sonhos, certo? Mas infelizmente o que verificamos é que isso não acontece dessa forma. E no Espectro do Autismo é muito frequente verificar que a entrada na vida adulta continua a ser uma barreira, independentemente de ter havido um trabalho intenso junto da pessoa e da família. Mas não se trabalhou junto da Sociedade, junto das Empresas. E as pessoas continuam a ter inúmeras dificuldades em integrar o mercado de trabalho e como tal a não conseguirem ser autónomos e independentes. E então, afinal quem é que devemos tratar?



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