Como fazer desaparecer pessoas
- pedrorodrigues

- há 5 dias
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Caros/as leitores/as, ao longo deste texto iremos perceber como fazer desaparecer pessoas! Poderia ser uma frase de abertura de um espectáculo de magia, mas não vai haver espectáculo nenhum. Também não iremos demonstrar como podem usar algumas ferramentas de edição de imagem para apagarem pessoas indesejáveis de fotografias, até porque já há tutoriais em demasia que o fazem. Vamos mesmo perceber como é que todos nós, uns mais outros menos, uns com mais e outros com menos intencionalidade, negligência e ignorância o fazem ou pelo menos contribuem para tal.
Jovens dos 18 aos 29 anos e mulheres enchem linha de prevenção do suicídio: mais de 12 mil chamadas em apenas seis meses, liamos ontem no jornal Expresso.
Como é que é possivel? Onde é que chegamos? Que sociedade é esta que já não liga ao sofrimento humano? Os jovens tem de largar as redes sociais! As mulheres não podem continuar a ser sobrecarregadas! Estes e outras frases, lamentos ou opiniões, multiplicam-se nas caixas de comentários nas redes sociais e na cabeça e diálogos das pessoas. Como é possivel termos cada vez mais informação sobre a saúde mental e continuarmos a ter esta mesma realidade!?! desabafam alguns. A Ordem dos Psicólogos Portugueses não está a dar uma resposta e orientação adequada! sublinham outros. O(s) Governo(s) não parecem querer saber, investir e prevenir na saúde mental ao longo da vida desde uma idade precoce! retorquem outros. Os estudos precisam de ser feitos com outras e melhores metodologias para espelharem a realidade de uma forma próxima da realidade e apontarem caminhos para a sua solução! escrevem outros.
Todos nós dizemos e sentimos algo. De alguma forma estas e outras questões afectam-nos. Mas as pessoas continuam a desaparecer. Muitas delas já há muito tempo que estão desaparecidas. Algumas delas desapareceram mesmo antes de nascerem. Curioso!? É impossivel?! talvez não o seja! E aqueles que se estão a perguntar se o texto vai ter alguma coisa a ver com o autismo, já o tenho afirmado em vários momentos - tudo vai ter ao autismo!
Há várias formas de apagar alguém sem que o corpo desapareça. Não é preciso ciência avançada, nem truques de ilusionismo. Basta persistência quotidiana, uma certa indiferença treinada e o conforto silencioso de quem nunca teve de explicar ao mundo como é existir.
Começa-se cedo. Ensina-se que “toda a gente é um bocadinho assim”, quando alguém tenta nomear a sua diferença. Minimiza-se, suaviza-se, dilui-se. Uma infância inteira pode ser atravessada por frases que parecem inofensivas, mas que, repetidas, afinam a arte de tornar o outro invisível. Não se vê, não se ouve, não se valida.
Depois, aprimora-se o método na escola. Exige-se adaptação sem adaptação. Pede-se contacto visual como prova de respeito. Interpreta-se o silêncio como desinteresse. Confunde-se sobrecarga sensorial com má educação. Premia-se quem se molda e estranha-se quem não cabe na forma. E, no fim, chama-se inclusão ao que nunca deixou de ser exclusão educada.
Na idade adulta, o processo torna-se mais sofisticado. Espera-se produtividade sem considerar o custo invisível que ela acarreta. Rotulam-se dificuldades como falta de esforço. Admira-se a “funcionalidade” enquanto se ignora o desgaste que a sustenta. Celebra-se a máscara social, mas nunca se pergunta quanto dói usá-la todos os dias.
Nos serviços públicos, a invisibilidade ganha estatuto institucional. Filas intermináveis, ambientes caóticos, linguagem ambígua. Políticas que existem no papel, mas não chegam à experiência concreta das pessoas. Discursos que evocam inclusão, mas práticas que continuam a excluir. E assim, com a legitimidade de quem decide, apaga-se com carimbo oficial.
Também na saúde, por vezes, se aprende a não ver. Diagnósticos tardios, olhares apressados, interpretações redutoras. Quando a experiência não cabe nos manuais simplificados, prefere-se ajustar a pessoa ao modelo do que expandir o modelo para acolher a pessoa. Invisibilidade, outra vez, desta vez com linguagem técnica.
E no quotidiano, entre todos nós, cidadãos comuns, a tarefa cumpre-se com uma eficácia quase perfeita. Interrompe-se quem fala de forma diferente. Ri-se do desconforto alheio. Evita-se o esforço de compreender. Assume-se intenção onde há apenas diferença. E, sobretudo, mantém-se a convicção tranquila de que o problema é sempre do outro.
Tornar alguém invisível não exige maldade explícita. Exige apenas a repetição de pequenos gestos, de omissões subtis, de desatenções normalizadas. É um trabalho coletivo, sustentado por hábitos que raramente se interrogam.
No contexto do autismo, esta invisibilidade é particularmente perversa. Porque muitas das suas manifestações não gritam, não interrompem, não pedem licença para existir de forma clara aos olhos de quem observa sem ver. São experiências internas, intensas, reais, mas frequentemente descartadas por não corresponderem ao que se espera que seja visível.
A campanha Not Invisible, associada ao Dia Mundial da Consciencialização do Autismo, recorda o óbvio que teimamos em esquecer. Não são invisíveis. Tornamo-las invisíveis.
E aqui reside a responsabilidade que incomoda. Não está apenas nas políticas públicas insuficientes, nem apenas na formação deficitária dos profissionais. Está também no comentário rápido, na impaciência no atendimento, na rigidez das expectativas sociais, na recusa em ajustar o nosso próprio comportamento.
Está em cada vez que exigimos normalidade como condição para reconhecer humanidade.
Ver exige esforço. Exige abdicar da interpretação automática, suspender o julgamento, aceitar que a experiência do outro não tem de fazer sentido imediato para ser válida. Exige, sobretudo, reconhecer que aquilo que não compreendemos não deixa de existir por isso.
Talvez o verdadeiro desafio não seja aprender a ver o autismo. Talvez seja desaprender a forma como escolhemos não ver.
Porque a invisibilidade não é uma característica da pessoa. É uma construção social, paciente, reiterada, e profundamente confortável para quem nunca foi obrigado a questioná-la.
E tudo o que é construído pode, com o mesmo rigor, ser desfeito.




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