Academia de policia
- pedrorodrigues

- há 10 horas
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"Leiria. Jovem com autismo severo fica com ferimentos após fugir da escola e invadir casa. Família critica atuação da PSP
Jovem brasileiro de 15 anos, com autismo severo e incapaz de comunicar verbalmente, terá sido algemado por seis agentes da PSP em Leiria. Mãe critica abordagem das autoridades."
Ao deparar-me com esta noticia pensei em várias hipoteses de como pegar nela para falar de vários assuntos fundamentais na vida das pessoas autistas e na forma como se pensa e age sobre o autismo e as pessoas autistas. Hoje irei debruçar-me sobre a importância da sensibilização e formação dos profissionais da Policia de Segurança Pública (mas também GNR, Bombeiros, etc.). Talvez da próxima olhe para a forma como as noticias acerca do autismo e das pessoas autistas continuam a ser noticiadas, com designações perjudiciais e nada informativas para a população em geral.
A actuação das forças policiais em contextos que envolvem crianças e jovens com condições do neurodesenvolvimento exige mais do que cumprimento de protocolos gerais. Exige compreensão. Exige sensibilidade clínica. Exige, sobretudo, formação especializada que permita interpretar comportamentos que, à primeira vista, podem ser entendidos como desobediência, ameaça ou descontrolo, mas que na realidade são expressões de sofrimento, sobrecarga sensorial ou dificuldade de comunicação.
As perturbações do neurodesenvolvimento, entre as quais se destaca a perturbação do espectro do autismo, caracterizam-se por perfis muito heterogéneos. Um jovem autista pode não responder a ordens verbais, pode evitar contacto ocular, pode reagir de forma intensa ao toque ou ao ruído, ou pode entrar em crise perante mudanças inesperadas. Sem formação adequada, estes sinais podem ser mal interpretados, conduzindo a intervenções desproporcionais ou até potencialmente traumáticas.
A formação das forças de segurança pública torna-se, por isso, uma ferramenta essencial de prevenção. Não apenas de escaladas de conflito, mas também de danos físicos e psicológicos. Quando um agente compreende que um comportamento aparentemente opositor pode ser, na verdade, uma resposta a sobrecarga sensorial ou ansiedade extrema, a sua abordagem transforma-se. Passa a privilegiar estratégias de desescalada, comunicação clara e adaptada, redução de estímulos e, sempre que possível, envolvimento de figuras de referência.
Experiências anteriores de formação, como aquelas promovidas por equipas especializadas em neurodesenvolvimento, demonstram que esta mudança é possível e eficaz. A colaboração entre profissionais da saúde, da educação e das forças policiais permite construir uma linguagem comum e práticas mais humanizadas. Programas dirigidos a unidades como a Escola Segura revelam-se particularmente relevantes, dado o contexto frequente de intervenção junto de populações jovens.
Importa também reconhecer que esta formação não beneficia apenas os cidadãos com condições do neurodesenvolvimento. Beneficia os próprios agentes. Reduz a incerteza na intervenção, aumenta a confiança na tomada de decisão e diminui o risco de situações críticas. Em última análise, promove uma actuação mais segura, ética e alinhada com os direitos humanos.
Num plano mais amplo, investir nesta formação é um sinal de maturidade institucional. É reconhecer que a diversidade neurológica faz parte da sociedade e que as respostas do Estado devem ser ajustadas a essa realidade. É também um compromisso com uma segurança pública que não se limita a impor ordem, mas que procura compreender, proteger e integrar.
A construção de pontes entre o conhecimento científico e a prática policial não é apenas desejável. É indispensável. Porque, em momentos de crise, a diferença entre contenção e cuidado pode residir em algo tão fundamental quanto saber reconhecer quem está verdadeiramente diante de nós.




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