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Quatro virgula quatro

A continuar a se verificar a tendência do envelhecimento da população, precisamos de repensar todo um conjunto de medidas e respostas adequadas ao nível da saúde e saúde mental para estas pessoas. E de preferência que sejam fora das crenças, mitos e estereótipos ainda muito presentes em muitos de nós sobre esta faixa etária.


É verdade que neste momento verificamos haver níveis preocupantes de isolamento social e solidão neste grupo, para além de outros indicadores psicossociais importantes. É importante poder compreender o funcionamento biopsicossocial das pessoas nestas faixas etárias associadas a determinadas condições de saúde física e mental. Ou seja, como é a pessoa idosa com uma Perturbação Bipolar, Depressão, Ansiedade ou Autismo? Mas também é importante continuar a compreender como é a pessoa idosa com um desenvolvimento típico. Como é que se envelhece? Como é que se envelhece para lá daquilo que é observável? Ou possível de responder num inquérito!


De acordo com o Eurostat, a idade média da população europeia aumentou de 42,2 anos em 2013 para 44,5 anos dez anos depois. Em Portugal, a idade média aumentou 4,4 anos entre 2013 e 2023, sendo o país em que a média mais aumentou em número de anos.


Em 2024 ainda estamos a lutar contra a crença de o autismo ser uma condição exclusiva das crianças e adolescentes. É verdade que muito se tem avançado nestes últimos anos. Mas estamos ainda muito atrás do desejado. Ainda ontem se celebrou o dia internacional da Síndrome de Asperger (18 de fevereiro). E independentemente das querelas em relação à pessoa de Hans Asperger e da sua ligação com o partido nazi. O certo é que em 1994 se assistiu à entrada na DSM IV do diagnóstico de Síndrome de Asperger. E com ele se assistiu a uma abertura nos diagnósticos que estavam a ser feitos e outros tantos que não dentro da área do autismo. E se pensarmos já se passaram 30 anos desde então. Essas pessoas já são adultas. E sabemos que ainda há muitos outros que apesar de terem passado 30 anos não foram diagnosticados. Até porque continua a haver em muito uma ideia cristalizada do autismo nas crianças e adolescentes. Para além de uma ideia de que o autismo é uma condição onde as pessoas não fazem contacto ocular, não têm amigos ou relações amorosas, não trabalham, etc.


Ou seja, se pensarmos na Perturbação do Espectro do Autismo como um todo, cerca de 1/3 destas pessoas apresentam um perfil de funcionamento dentro do nível 1. Aquilo que antes seria designado de Síndrome de Asperger. Um terço de todas as pessoas diagnosticadas com Perturbação do Espectro do Autismo são muitas pessoas tendo em conta que estamos a falar de uma condição que do ponto de vista epidemiológico está entre 1% a 2% da população mundial.


E a continuar o envelhecimento da população, nomeadamente em Portugal. Mas também a continuar a não existência de medidas e respostas adequadas para o autismo, iremos assistir a uma situação em que os lares de idosos irão ter um número considerável de pessoas autistas idosas e que irão representar um desafio considerável, seja do ponto de vista médico e da saúde física, mas também do ponto de vista da saúde mental e relacional.

Até porque continuamos a ter politicas de empregabilidade para as pessoas autistas que não tem ajudado a reverter a situação vivida por estas pessoas. Levando à criação de um nível de dependência e de perda de autonomia bastante considerável. Logo, as pessoas autistas irão certamente e com menos idade do que as pessoas não autistas de precisar de um conjunto de cuidados maior.


Para além disso, precisamos de reflectir de como é que a pessoa autista idoso é! Como é a pessoa (Eu) da pessoa autista nesta faixa etária? Como é que o seu perfil de funcionamento se apresenta e como é possível compreender, entre um intrincado tão complexo de características comportamentais, de personalidade e aspectos de saúde física que se misturam nesta idade? Por exemplo, se sabemos que há um declínio cognitivo ligeiro e normativo ao longo da vida, como iremos poder considerar aquilo que são algumas das características comportamentais do diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo? E os aspectos da sintomatologia depressiva presentes na grande maioria das pessoas autistas como é se irá diluir na idade e na atitude de uma certa desesperança própria de se observar nesta idade? Ou então da rigidez e inflexibilidade tão características do autismo ao longo da vida, como é que será lido quando se chega à pessoa idosa que por si só já apresenta uma menor flexibilidade cognitiva e comportamental?

E ainda continuamos tão distantes das pessoas autistas e no procurar escutar como elas se sentem, pensam e agem para lá daquilo que são os critérios de diagnóstico. Assim como também continuamos em muito afastados das pessoas idosas. Como tal podem compreender a minha preocupação quando penso em uma pessoa idosa autista. E ainda mais se esta pessoa idosa autista for mulher, sendo que há uma maior probabilidade para tal tendo em conta a esperança média de vida ser maior nesta do que no homem.


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