Quantas pessoas autistas cabem dentro de um carro?
- pedrorodrigues

- 25 de mar. de 2025
- 5 min de leitura
Grande parte de vocês já sabe como se mete um elefante num frigorífico, certo? Mas aposto que não sabem quantas pessoas autistas cabem dentro de um carro?
Isto tudo para chamar a atenção para um assunto que muitas pessoas autistas, assim como os seus pais se perguntam - carta de condução! Uma pessoa autista pode ou não pode tirar a carta de condução? E consegue ou não tirar a carta de condução? Ou é importante ou não ter a carta de condução? E se sim, como deve proceder? E que cuidados deve ter? E a escolha da escola de condução? Ou do instrutor? E deve ou não dizer que tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo? Como pode perceber, são muitas as questões que as pessoas autistas e os seus pais colocam para um assunto que vários de nós nem sequer pensa, para além de verificar se tem dinheiro ou não para pagar a carta de condução!
E depois de ter a carta de condução? Sim, porque é preciso pensar no que se pode ou deve fazer/proceder depois de ter a carta de condução quando se tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Assim como também seria importante que as autoridades responsáveis pela Segurança Rodoviária pudessem reflectir em conjunto sobre o que é importante de pensar quando o/a condutor/a é uma pessoa com deficiência. E como é que um condutor/a pode e deve dizer a uma força policial numa operação Stop habitual que tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo e ser atendido e encaminhado no processo de uma forma adequada para a sua condição e respeitando as normas de segurança rodoviária, assim como os procedimentos policiais habituais. Por exemplo, não deveria ser possível, para além de importante, que as pessoas autistas e que estão encartadas, pudessem ter situações simuladas de operações Stop e outras situações habituais de ocorrer no transito para que pudessem desenvolver estratégias e competências para lidar com elas de uma forma melhor?
Até porque muito na condução, seja enquanto aluno/a, mas depois enquanto condutor/a, implica necessária e obrigatoriamente tomadas de decisão. E estas por norma são mais desafiantes para as pessoas autistas. Não que não as saibam fazer e tomar, mas mais porque a forma e processo cognitivo usado pode não ser o mais adequado para determinados contextos, tais como o da condução, em que é necessário tomar uma decisão mais rápida ou inesperada, numa situação que já seja pouco expectável. Como tal, podemos perceber que temos todo um conjunto de elementos e que juntos irão poder transformar o tirar a carta de condução e o conduzir mais difícil para as pessoas autistas, quando pode ser feito de uma outra forma e levar a que as pessoas autistas, não só possam tirar a carta de condução em outras condições mais adequadas. Mas também possam fazer as suas rotinas diárias de condução de uma forma mais segura e menos ansiogénica
Já ouvimos falar de escolas de condução que têm sistemas de simuladores. O que na verdade se pode tornar facilitador para que algumas pessoas autistas possam desenvolver algumas das suas competências de condução em outras condições antes de iniciarem a sua prática em contexto real. Mas este sistema de simuladores devem ser pensado de uma forma mais abrangente. Pois muito do comportamento de conduzir é relacional. Por norma não conduzimos sozinhos na estrada, mesmo que estejamos a viver numa zona mais rural ou estejamos a conduzir numa hora menos caótica. Além do mais, o comportamento de conduzir é relacional porque devemos desenvolver uma condução defensiva, onde equacionamos a importância da presença do outro condutor. Seja no facilitar uma determinada situação para que o outro condutor possa conseguir fazer a sua manobra. Mas também poder evitar ou procurar evitar um acidente quando o outro condutor tem um comportamento menos adequado. Assim como a relação do condutor com os peões, ou o respeito pela sinalização, estacionamento, etc.
Quando pensamos que no espectro do autismo, a teoria da mente é um aspecto que se encontra com determinado nível de compromisso. É importante poder pensar conjuntamente com o aluno/a com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, como é que a sua forma de pensar na outra pessoa impacta no seu comportamento de conduzir. Como é que a avaliação que uma pessoa autista faz de um comportamento de risco, seu ou de outra pessoa condutora, pode impactar na sua tomada de decisão no comportamento de conduzir?
E claro que podemos dizer que as pessoas, e neste caso também, as pessoas autistas fazem uma avaliação médica e se necessário psicológica para determinar a sua competência para virem a tirar a carta de condução e poderem se aprovadas a serem cidadãos encartados. E já existem baterias de avaliação psicológica para condutores, e que mesmo que sejam usadas em pessoas autistas e possam ajudar a determinar essa competência. Penso que esta reflexão precisa de ser mais alargada. Para além de pensar se estes protocolos de avaliação psicológica, estarão a dar uma resposta adequada para as situações que precisam de ser pensadas no caso das pessoas autistas?
Para além de todo um conjunto de aspectos sensoriais que estão envolvidos no processo de condução, seja enquanto alunos/as, mas também enquanto condutores/as. O ruido é um bom exemplo. Se há coisa que acontece durante a condução é ruído, seja dentro ou fora do carro. E vários destes ruídos implicação uma certa comunicação por parte de outros condutores, seja em relação à nossa condução ou não. E dentro do carro,, pensando no caso dos alunos que se estão a tentar concentrar naquilo que estão a fazer e têm o instrutor/a a comunicarem em simultâneo consigo e essa tarefa em várias pessoas autistas é um completo pesadelo! Ou quando a pessoa autista já tem a carta e transporta outras pessoas dentro do carro e estas estão a falar ao mesmo tempo. Isto para não falar do rádio, sendo que esse se pode mais facilmente desligar.
Todo o processo de a pessoa autista escolher a escola de condução e ir fazer a sua inscrição até ao final da avaliação e depois passar a ser um cidadão encartado tem um conjunto infindável de situações e variáveis que podiam/deviam estar a ser mais e melhor equacionados por todos os envolvidos e de uma forma a promover a Segurança Rodoviária, de todos. Ouvimos falar frequentemente dos processos dolorosos que as pessoas autistas passam para tirar a carta de condução, tenham obtido aprovação ou não. Sendo uma etapa, tal como outras, tão importante na vida das pessoas, porque não criar condições para que esta possa ser melhor para todos?
É vital promover a capacidade de condução das pessoas autistas. Conduzir é importante por muitas razões. Dá aos adultos mais independência e expande grandemente as suas oportunidades vocacionais. Os desafios da condução no autismo resultam de vários factores, como podemos ler. Estes incluem a significativa componente social da condução, as significativas competências de função executiva envolvidas e a necessidade de modificar as regras/estratégias com base nas condições e no comportamento dos outros condutores. Mas como em várias outras situações e aspectos da vida das pessoas autistas, é possível conhecer o seu perfil de funcionamento e poder com base nele propor ajustamentos e acomodações que levam a que o comportamento de conduzir seja melhor. É verdade que como em muitas situações de vida das pessoas autistas, as acomodações a serem feitas precisam de ter o envolvimento de outras pessoas, pensando nas escolas de condução e nos examinadores do Instituto de Mobilidade e dos Transportes (IMT), mas também das forças policiais (PSP, Policia Municipal, GNR). E para isso é fundamental termos uma estratégia para o autismo e que envolva todos.



Comentários