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Quantas bolas queres no teu gelado?

Enquanto uns se preparam para a chegada do verão, outros vão-se despedindo dele. É assim os ciclos entre os dois hemisférios. Enquanto uns tem o inverno boreal, outros têm o inverno austral. E ainda que alguns prefiram comer gelado durante todo o ano, como é o caso da minha pessoa. Outros há que apenas lhes faz sentido comê-los no verão. Há que respeitar os gostos. É como os sabores de gelado tão diferentes que nós ficamos a olhar enquanto nos decidimos a escolher. Quantas bolas queres no teu gelado? perguntavam-me quando era criança. Será que posso escolher 10 sabores!? pensava eu. Uma certa vez arrisquei em dizer três e concederam-me esse desejo. Fiquei maravilhado. Três bolas coloridas de gelado num cone. Não havia maior felicidade estampada no rosto de uma criança. Estávamos em pleno julho. E não foi preciso esperar muito para começar a sentir aquelas bolas coloridas a derreter e escorrerem pela minha mão. Experimentei lamber a mão. Não foi uma boa hipótese pois levei logo um raspanete acerca das boas maneiras. Experimentei dar uma dentada maior numa das bolas de gelado e senti o meu cérebro a congelar. Ao ponto de ter de deitar fora o gelado que tinha posto na boa. Além de ter perdido um quarto daquela bola de gelado, levei novo raspanete acerca das boas maneiras. E à medida que tudo isto ia acontecendo, mais e mais gelado escorria pela minha mão e já tinha pingado para os meus calções. Facto que me fez merecer novo raspanete acerca das boas maneiras. E assim, por diante. Aquilo que parecia ser um acontecimento único e maravilhoso com três bolas de gelado acabou por ser um tormento. Havia que apurar responsabilidades! pensei eu. Escusado será dizer que os adultos pensavam que a responsabilidade era inteiramente minha. Como é que eu sei disso? Tens mais olhos que barriga! foi a frase que ouvi duas ou três vezes seguidas. Mas eu sabia que havia de haver outras explicações. Seria da responsabilidade do gelado? Ou seja, da quantidade de bolas pedidas? pensei. Descartei logo essa hipótese. Até porque uma coisa tão maravilhosa e perfeita não havia de ter culpa de nada, pensei. Bem, podia ser das condições climatéricas? questionei-me. Mas se os gelados foram feitos para comer no verão tal hipótese não fazia sentido, equacionei. Ainda cheguei a pensar que a responsabilidade havia de ser minha tal como os adultos me haviam dito. Mas era algo difícil de aceitar para mim. Então finalmente pensei que o facto de não me terem ajudado. Assim como me terem estado a fazer perder tempo com raspanetes acerca das boas maneiras e afins. Tudo isso é que foi responsável por me ter feito perder tempo, desviado a atenção da tarefa principal de comer o gelado e de me ter irritado solenemente. Finalmente tinha chegado a uma excelente conclusão. A responsabilidade estava apurada! conclui.


Mas porque é que eu decidi escrever um post sobre este episódio do gelado de verão? perguntam-se muitos de vocês. Agradeço a vossa paciência. É que aquilo que vos quero verdadeiramente falar é sobre o burnout no autismo. Isso mesmo. Ou seja, o que são os facotes de risco e protectivos para que ocorram estes episódios de burnout nas pessoas autistas?


Tal como no episódio do gelado de verão, muitas vezes as pessoas começam rapidamente a pensar que a responsabilidade é da pessoa autista. Ou então do conjunto de características que estão presentes no quadro clinico da pessoa diagnosticada com Perturbação do Espectro do Autismo e com mais esta e aquela comorbilidade. Certamente que o facto da pessoa autista poder ter um conjunto de hipersensibilidades sensoriais e estar imersa num contexto em que se sente desprotegida. Tudo isto irá fazer com que mais facilmente a pessoa tenha dificuldade em se conseguir regular a nível emocional e comportamental. E isso termine com uma situação designada frequentemente de meltdown. E que no conjunto acumulado de situações que a pessoa autista vive ao longo da sua vida isso tudo se vá transformando no que é designado de burnout autista. mas daí a dizer que a responsabilidade é da pessoa autista vai uma grande distância. Além de não se estar a compreender aquilo que é a dinâmica na interacção entre as características comportamentais da pessoa e dos factores presentes no meio ambiente.


Como tal, o facto de termos ainda uma baixa sensibilização e informação na Sociedade acerca do autismo, isso leva a adensar o estigma face a esta condição. Além disso, sabemos que muitas pessoas, inclusive adultos, não sabem o que se passa com muitas das coisas que acontecem consigo, até porque não foram diagnosticados. E como tal não sentem ter a capacidade de fazer uma compreensão adequada daquilo que se passa consigo e do porquê dos outros fazerem determinado conjunto de coisas. Fazendo com que não se consigam proteger tão adequadamente em muitas destas situações. E mesmo nas situações em que é conhecido o diagnóstico de autismo, seja pela própria pessoa e pelos que consigo convivem. Ainda assim, são muitas as situações em que estes episódios de desregulação emocional e comportamental ocorrem. E em parte tem a ver com a forma como as pessoas presentes no contexto reagem face ao que está a acontecer.


Ou seja, deixem de dizer que o burnout no autismo é da responsabilidade das pessoas autistas ou das suas características. Além de não ser totalmente verdade, acaba por causar mais dano do que outra coisa. E como tal é uma atitude que não favorece a melhoria da situação. Muito pelo contrário, acaba por agravar a sensação de desprotecção e incompreensão tantas vezes sentidas pelas pessoas autistas. Levando a aumentar a sensação do designado burnout autista.



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