Quando é que ele deixa de ir ao Pediatra?

Mãe, quando é que eu vou deixar de ir ao Pediatra?, pergunta o jovem. Porquê?, responde esta. Já não sou nenhuma criança!, diz ele com toda a certeza do mundo. Vais fazer 17 anos para a semana e por isso ainda é para ir ao Pediatra!, procura a mãe terminar o assunto com uma frase directiva. Quem é que diz isso? Se calhar posso falar com o médico?, dispara ele. Talvez devas perguntar-lhe isso, sim!, tenta a mãe, livrando-se de um assunto que ela própria tem mais dúvidas do que certezas. Este é um diálogo provável de acontecer em muitos jovens a partir de determinada altura da adolescência. E também é algo provável de acontecer quando falamos de crianças e jovens com uma condição do neurodesenvolvimento, comportamental ou mental, que são acompanhadas em serviços clínicos. Quando é que fazem a transição para os serviços de adultos? E o que é que isso representa enquanto mudanças para aquilo que vem sendo as terapias? E quando é que os profissionais de saúde começam a falar com os próprios jovens e as suas famílias sobre tudo isto? São muitas perguntas e para as quais não há um consenso gerado de como fazer. Há orientações/guidelines nos serviços de saúde mental infantil e juvenil e também nos serviços de saúde mental de adultos. Também há em alguns serviços orientações para o processo de transição. Mas ainda continuam a ser muitas as dúvidas. E no caso da Perturbação do Espectro do Autismo especificamente parece-nos que as dúvidas parecem ser ainda maiores comparativamente às restantes perturbações psiquiátricas. Até pelo desconhecimento que ainda vai surgindo em relação a esta condição na pessoa adulta.

Os adolescentes autistas são menos propensos entre os jovens com condições mentais, comportamentais e de desenvolvimento a receber orientação de seu médico sobre a mudança da assistência pediátrica para a saúde de adultos. Por exemplo, daquilo que é conhecido em alguns países, nomeadamente nos EUA, apenas cerca de 9% dos adolescentes autistas receberam um planeamento de transição, em comparação com cerca de 20% daqueles com condições emocionais e 15% daqueles com condições comportamentais.


Mas porquê? Os jovens autistas são menos jovens que outros com condições diferentes? As necessidades destes jovens autistas é diferente das necessidades de jovens com outras condições? Os objectivos de vida, a nível global, destes jovens autistas é diferente dos jovens com outras condições?


A sensibilidade clinica em relação a estas questões diz-nos que não, não há diferenças significativas e muito menos que possam à partida justificar esta transição diferente. Mesmo se pensarmos que há uma percentagem considerável de casos de Perturbação do Espectro do Autismo em que apresentam uma Dificuldade Intelectual e Desenvolvimental (Déficit Cognitivo), ainda assim continua a não nos fazer sentido.


E quando vemos que a Academia de Pediatria Americana diz que este processo de transição deve começar por volta dos 12 anos de idade, ficamos ainda mais a pensar que não devemos estar a fazer algumas coisas bem feitas. Sublinho que o iniciar ao 12 anos não significa que a transição se faça nos seis meses seguintes. Mas é importante iniciar-se neste período, ele próprio de transição. Até porque é um processo maturativo que vai levar algum tempo, seja para os próprios jovens, mas também para os pais. E além do mais, há um conjunto de decisões que precisam de ser equacionadas com base no projecto de vida. E não estou apena a falar nas situações em que há uma maior gravidade no caso clínico do jovem. Mesmo até em casos em que verificamos a existência de uma Perturbação do Espectro do Autismo nível 1, é importante poder começar a pensar com o jovem aquilo que são alguns dos seus objectivos, académicos mas não só.


Além do mais, as questões que passam a estar presentes no quotidiano destes jovens passa a ter características e desafios diferentes. Nomeadamente, mais ao nível das relações, sejam as sociais e interpessoais, mas também as relações de intimidade e os aspectos relativos ao desenvolvimento psicossexual que não parou.


É compreensível que é preciso desenvolver toda uma articulação entre diferentes serviços e profissionais. Em que a visão que uns e outros têm acerca do próprio desenvolvimento acaba por ter diferenças. No caso da Perturbação do Espectro do Autismo, conseguimos perceber que a própria expressão comportamental na criança é bastante diferente do jovem e ainda mais no adulto. Até o surgimento de alguma da psicopatologia é diferente consoante nos estejamos a referir às crianças e jovens e aos adultos. Além da própria intervenção farmacológica. O facto dos jovens estarem no processo de escolarização obrigatória sensivelmente até aos 18 anos, leva a que as exigências e necessidades sejam diferentes do período seguinte. Sejam porque vão começar a trabalhar ou enão vão transitar para o Ensino Superior.


Por isso é fundamental, que um serviço de saúde mental possa ter esta orientação ao longo do ciclo de vida, tal qual ocorre no PIN. Em que os profissionais de saúde que trabalham com as pessoas em momentos diferentes da sua vida estão em estreita interligação e em que a transição é uma realidade mais facilmente praticada. Ainda que todo este processo continue a necessitar de uma reflexão.

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