Principio da incerteza
- pedrorodrigues

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" ... as far as the propositions of mathematics refer to reality, they are not certain; and as far as they are certain, they do not refer to reality."
Albert Einstein in Geometry and Experience, Lecture before the Prussian Academy of Sciences, January 27, 1921
Albert Einstein escreveu que, quando a matemática toca a realidade, perde a certeza; quando preserva a certeza, afasta-se da realidade. A frase é mais do que um aforismo epistemológico. É uma descrição subtil da tensão fundamental entre o desejo humano de previsibilidade e a natureza intrinsecamente indeterminada do mundo. Essa tensão ganha forma científica no princípio da incerteza formulado por Werner Heisenberg, mas manifesta-se existencialmente em cada biografia humana, hoje de forma particularmente aguda.
Não é possível conhecer simultaneamente, com precisão perfeita, a posição e o momento de uma partícula. Quanto mais se aperta uma variável, mais a outra se dissipa. Este limite não é técnico, é ontológico. Não resulta da falha dos instrumentos, mas da própria estrutura da realidade. A metáfora é poderosa porque descreve também o modo como vivemos. Quanto mais obsessivamente tentamos fixar o futuro, controlar o outro ou garantir a estabilidade absoluta, mais experimentamos ansiedade, rigidez e desorganização interna. A procura da certeza transforma-se, paradoxalmente, numa fábrica de incerteza.
Ao longo da história, construímos sistemas de crença, científicos, religiosos, políticos, económicos, como andaimes contra o abismo do desconhecido. Esses sistemas são indispensáveis. Dão orientação, permitem coordenação social, sustentam decisões. Contudo, quando são investidos de uma promessa de certeza total, deixam de ser mapas e passam a ser dogmas. A crença deixa de dialogar com a incerteza e tenta anulá-la. É nesse ponto que se torna frágil, defensiva e, muitas vezes, violenta.
A contemporaneidade radicalizou este dilema. Vivemos num tempo que acumula informação como nunca, mas que parece ter perdido método, hierarquia e integração. O excesso informacional não reduz a incerteza; amplifica-a. A geopolítica actual ilustra-o de forma exemplar. Conflitos armados prolongados, instabilidade económica global, alterações climáticas irreversíveis, deslocações populacionais em massa, aceleração tecnológica e inteligência artificial criam um cenário onde o futuro deixou de ser uma extensão previsível do presente. O horizonte temporal encolheu. Planeia-se menos a longo prazo e reage-se mais em modo de urgência.
Neste contexto, a incerteza deixa de ser episódica e torna-se estrutural. Já não é apenas a dúvida perante uma decisão concreta; é um pano de fundo permanente. Incerteza laboral, relacional, identitária, corporal, ambiental. Jovens adiam a saída de casa; adultos adiam filhos, projectos, mudanças. Outros avançam, mas com um sentimento constante de precariedade interna, como se cada escolha pudesse ser a última antes da queda. A narrativa cultural promete controlo, optimização, performance, mas a experiência vivida é de instabilidade contínua. Esta dissonância tem custos psicológicos profundos.
É neste cenário que importa compreender, de forma aplicada e rigorosa, como as pessoas autistas vivenciam a incerteza no quotidiano.
Para muitas pessoas no espectro do autismo, a incerteza não é apenas um desafio abstrato ou contextual. É uma experiência sensorial, cognitiva e emocionalmente intensificada. A necessidade de previsibilidade, rotina e coerência não é uma preferência estética, é uma estratégia adaptativa. O mundo social é frequentemente percebido como ambíguo, implícito, mutável sem aviso prévio. Regras que mudam, expectativas não verbalizadas, sinais contraditórios. Onde outros toleram zonas cinzentas, a pessoa autista pode experimentar uma sobrecarga cognitiva significativa.
A incerteza, nestes casos, activa sistemas de alarme internos de forma mais rápida e intensa. Não por fragilidade, mas por uma arquitectura neurocognitiva que privilegia precisão, consistência e literalidade. A ambiguidade prolongada pode gerar ansiedade antecipatória, ruminação, necessidade de controlo ou evitamento. Mudanças inesperadas no horário, no trabalho, nas relações ou no ambiente físico podem ser vividas como perdas abruptas de chão interno.
Quando transposta para o plano geopolítico e social, esta experiência agrava-se. Notícias constantes sobre guerra, colapso climático, instabilidade económica ou substituição laboral por tecnologia são frequentemente processadas de forma concreta e literal. A ameaça não é simbólica, é real, imediata, incorporada. A dificuldade não está em compreender os factos, mas em regular o impacto emocional de cenários futuros pouco delimitados. O “talvez” e o “logo se vê” são particularmente desorganizadores.
Além disso, a cultura contemporânea exige uma flexibilidade permanente que muitas vezes ignora limites neurológicos reais. Adaptar-se rapidamente, reinventar-se, tolerar precariedade, ler contextos implícitos. Quando estas exigências são apresentadas como normativas, a pessoa autista pode sentir-se inadequada, em défice, quando na verdade está a responder de forma coerente ao seu modo de funcionamento. A incerteza deixa de ser apenas externa e passa a ser também identitária. Quem sou eu num mundo que muda demasiado depressa para que eu possa criar mapas estáveis?
Do ponto de vista clínico, isto exige uma mudança de paradigma. Não se trata de ensinar a pessoa autista a “tolerar mais” a incerteza de forma abstrata. Trata-se de co-construir ilhas de previsibilidade funcional dentro de um oceano instável. Clarificar expectativas, tornar explícitas regras implícitas, antecipar cenários possíveis sem catastrofização, trabalhar a distinção entre o que pode e o que não pode ser controlado. A previsibilidade não como rigidez, mas como base segura a partir da qual a flexibilidade pode emergir.
Paradoxalmente, muitas pessoas autistas desenvolvem, ao longo da vida, uma relação sofisticada com a incerteza existencial. Quando não dependem de ilusões sociais de controlo, podem aceder a formas de pensamento mais realistas, sistémicas e éticas. A aceitação de que o mundo não é totalmente previsível pode coexistir com uma profunda necessidade de coerência interna. Não é uma contradição, é uma dialéctica.
O triunfo da incerteza não precisa de ser a derrota do sentido. Tal como na física, aceitar limites de conhecimento não empobrece a compreensão; refina-a. A tarefa contemporânea, tanto clínica como cultural, talvez não seja eliminar a incerteza, mas aprender a habitá-la sem colapsar. Para pessoas autistas, isso implica reconhecimento, adaptação e respeito pela diferença neurocognitiva. Para a sociedade, implica abdicar da fantasia de controlo absoluto e recuperar o valor do método, da humildade epistemológica e da responsabilidade ética.
No fim, a incerteza permanece. Não como falha, mas como condição. E talvez seja nesse reconhecimento que se abre espaço para uma forma mais madura de segurança, menos baseada na ilusão da certeza e mais enraizada na capacidade de responder, com lucidez e humanidade, ao que não pode ser plenamente previsto.




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