Prêt-à-Porter

A designação foi criada em 1949, após o final da II Guerra Mundial. Prêt-à-Porter, traduzido como pronto a vestir surgiu como forma de resposta à democratização da moda, mas também à necessidade de se adaptar às necessidades quotidianas das pessoas. E o que é que isto tudo tem a ver com o autismo no adulto, perguntam vocês?! Tem tudo. Porque se há coisa que no espectro do autismo é necessário é de que as coisas possam ser mais fluidas mas que continuem a conservar o glamour. E se há muito que se conhece neste mundo do espectro do autismo sobre os rapazes e a forma como as famílias lidam com eles. Pouco se sabe no entanto como é que as coisas decorrem com as raparigas autistas e como as suas mães lidam com as situações. Ora vamos lá arregaçar as mangas e meter as mãos ao trabalho!

A Perturbação do Espectro do Autismo tem uma prevalência estimada entre 1% e 2% na população geral, com uma proporção de 3:1 homem-mulher. Contudo, há um reconhecimento crescente de que as raparigas e mulheres autistas estão sub-identificadas em contextos clínicos. E a impressão que os clínicos que vão acompanhando as raparigas autistas vão tendo, é de que há um conjunto adicional de desafios que estas colocam, nomeadamente às famílias, comparativamente aos rapazes, principalmente quando entram na adolescência.


Embora a disparidade de género no diagnóstico de autismo seja bem documentada, são muitos os investigadores que discordam sobre as razões por detrás destes padrões. Alguns atribuem isso a uma conexão aetiológica intrínseco entre autismo e masculinidade, início posterior de dificuldades na menor incapacitação das raparigas no que diz respeito aos sintomas do autismo, etc. Outros argumentam que os instrumentos de diagnóstico são tendenciosos devido ao sub-reconhecimento das características fenotípicas femininas. E provavelmente a resposta mais certa é ser tudo um pouco aquilo que explica estas diferenças


Mas a experiência clinica e a instigação mostra que a expressão do autismo é diferente no que diz respeito ao género: as raparigas mostram uma maior reciprocidade social e emocional, maior emoção expressa, comunicação no verbal mais capaz e mais interesses restrito típicos. Assim, como o facto das mesmas dificuldades centrais no espectro do autismo poderem ser expressas de forma diferentes consoantes estejamos a falar de raparigas ou rapazes, com uma tendência para os homens apresentarem um comportamento mais externalizado, tornando-os mais facilmente identificáveis. Para além do facto de haver cada vez mais estudos que homens e principalmente as mulheres autistas apresentam uma maior facilidade de terem comportamentos de camuflagem social. Atendendo a estes e outros factores, o certo é que as raparigas e as mulheres estão a ser mais tardiamente diagnosticadas quando comparadas com rapazes e homens com a mesma gravidade de sintomas apresentados. E entre outros aspectos, este atraso no diagnóstico vai certamente levar a um maior sofrimento psicológico das próprias mas também a uma menor qualidade de vida. Assim como das suas famílias e principalmente das suas mães, com quem mais frequentemente interagem ao longo da vida.


Ao lado de todas estas questões, soma o facto de as mulheres autistas apresentarem também todo um conjunto de desafios na área da saúde mental, com a apresentação em simultâneo de outros diagnósticos psiquiátricos. E sabe-se também que os jovens com autismo apresentam um maior risco de suicido, depressão e bullying como maiores factores de risco. Nas raparigas autistas tem sido encontro valores mais altos de internalização e depressão quando comparadas com as raparigas não autistas. Além do mais é sabido que a adolescência por si só é suficientemente complexa e um período de maior turbulência interna e externa. Sendo que com todos os outros factores anteriormente apresentados, torna o desafio da adolescência e a preparação para a vida adulta das raparigas autistas um desafio bastante grande.


É sabido que os adolescentes passam a ter uma presença crescente nas redes sociais quando em crianças. E no autismo verificamos o mesmo. E também se sabe que os comportamentos das raparigas versus os rapazes nas redes sociais também apresentam um conjunto de diferenças. Na maioria das culturas ocidentais, as expectativas das pessoas face aos papeis sociais das raparigas coloca-as numa posição de maior pressão social para o monitorização e conformidade social. Embora as raparigas autistas pareçam desejar com maior frequência as amizades, as experiências sociais podem ser desafiadoras e estas podem procurar compensar algumas das suas características na comunicação social, usando mais frequentemente a imitação dos pares, principalmente com o objectivo de serem rejeitadas pelos pares.


Devido às pressões sociais especificas do sexo feminino, os riscos para a saúde mental e as barreiras face ao diagnóstico precoce, as raparigas autistas enfrentam um conjunto qualitativamente diferente dos rapazes autistas. E isso acaba por ser observado e corroborado quando escutamos as mulheres autistas a relatarem as suas experiências de vida ao longo deste período da adolescência e da transição para a vida adulta.


E todos nós sabemos que o contexto familiar e o ambiente doméstico é fundamental para a construção do bem estar de todos os seus membros, nomeadamente dos filhos e neste caso das filhas com autismo. É fundamental compreender e ajudar a desenvolver uma gama de respostas dos pais face aos filhos autistas. As respostas que os pais dão podem depender de muitos factores, incluindo a gravidade dos comportamentos desafiadores , acesso a serviços, estatuto socio económico e o facto de haver um número considerável de mães que cuidam sozinhas das suas filhas. O apoio psicossocial e as estratégias de coping adaptativas podem ajudar a amenizar os desafios dos pais com filhos autistas, enquanto a resiliência ao stress diário se intensifica e cria um maior risco de surgimento de psicopatologia nas mães. E o facto de haver um diagnóstico tardio nas raparigas, isso leva a agudizar as situações anteriormente descritas. E o que se tem observado é que as mães com filhas autistas apresentam um índice de stress maior quando comparado com mães de rapazes autistas. O facto de terem um maior fardo nas múltiplas responsabilidades diárias, sejam as suas mas também aquelas relacionadas com o cuidar da filha autista, levam a reportar um maior índice de psicopatologia e de insatisfação conjugal.


Está na hora de passarmos todos a fazer diferente, não acha?

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