top of page

Portrait of an autistic

Será que me vêm? Às vezes tenho a impressão que esta película é mais opaca do que parece. Não tenho a certeza de me verem. As pessoas insistem que sim. Mas depois quando falam de mim, não é de mim que falam, mas de quem vêm ou pensam que vêm. E não sou eu. Eles dizem que sim. Insistem. Eu também. Dizem que sou rígida. Eu não. Não digo nada. Fico calada. Não acho que valha dizer nada. Mas assim continuam sem me verem. Eu gostava que me vissem. Por vezes aproximo-me da película. Às vezes aproximo-me bastante. Ao ponto de ficar algumas impressões minhas. Ficam visíveis durante algum tempo. Como uma impressão momentânea. Um dia decidi avançar. Não foi coragem. Foi outra coisa qualquer. Rasguei parte da película. O meu corpo sobressaiu. Parte dele, não todo. Penso que percebi para que serve a película. E por que é que ela tem estado lá desde sempre. Talvez tenhas de ser tu a fazer diferente. O quê? Não sei. Tu é que sabes o que te deixas fazer diferente. Tu é que sabes o que precisas de ver ou perceber de maneira diferente. Para mim fazer diferente não é fácil. Posso fazer. Mas sinto que o esforço não venha a compensar.


O autismo é visto principalmente como uma combinação de déficits sociais, comunicativos e cognitivos. No entanto, há uma crescente consciência de que o autismo também é caracterizado por diferentes formas de perceber, pensar, sentir e se movimentar, bem como aspectos afectivos-emocionais particulares. As evidências encontradas nas pessoas autistas variam de hipo e hipersensibilidade, dificuldades com o tempo, coordenação e integração de movimento e percepção, dor de certos estímulos, diferenças de tónus muscular, postura rígida, movimento, atenção e problemas de saliência, até diferenças na coordenação corporal durante as interações sociais.


Mas a visão sobre o autismo ancorada nas dificuldades perdura. Assim como a escassa visão daquilo que o autismo significa para a própria pessoa autista. E qual o sentido que o mundo tem para a própria pessoa autista? E como é que esta se liga com o Mundo? Qual o significado pessoal que a pessoa autista faz do Mundo? E o Mundo dela?


A criação de sentido é baseada nas necessidades e objectivos inerentes que olham para a pessoa como um Ser. Um Ser corporal, auto-organizado, auto-sustentável, precário, com uma perspectiva singular sobre o mundo. A criação de sentido desenrola-se e acontece através da corporificação e da situação do agente cognitivo. As suas formas de movimento e percepção, seus afectos e emoções, e o contexto em que ele se encontra, todos determinam o significado que ele dá ao sujeito, mundo, e esse significado, por sua vez, influencia como ela se move, percebe, emociona e se situa.


O lado social disso – importante na cognição em geral, e também para a compreensão do autismo – é capturado pela noção de criação de sentido participativa, que descreve como a criação de sentido individual é afectada pela coordenação interindividual. Se a criação de sentido é uma actividade completamente incorporada, e podemos coordenar nossos movimentos, percepções e emoções em interações uns com os outros, então, em situações sociais, podemos literalmente participar da construção de sentido uns dos outros.


Por isso se sugere que a sua grande atenção aos detalhes, preferência por repetição e mesmice e interesses restritos podem ser inerentemente significativos para as pessoas autistas, e não apenas, como muitas vezes foram concebidos, comportamentos inadequados a serem tratados. No domínio social e de comunicação, sugere-se que as dificuldades de interação social não sejam consideradas exclusivamente como baseadas individualmente, mas que os padrões nos processos de interação em que as pessoas autistas se envolvem desempenham um papel importante nelas.


Assim, as premissas da visão corporificada da cognição; a natureza relacional-corporificada da mente e a interconectividade de acção, percepção, pensamento e afecto levam a uma abordagem do autismo que é diferente das abordagens cognitivistas anteriores.


Por isso, para a abordagem enativa da cognição, a corporificação, experiência e interação social são fundamentais para a compreensão da mente e da subjectividade. A enação define a cognição como criação de sentido. A maneira como os agentes cognitivos se conectam significativamente com seu mundo, com base em suas necessidades e objectivos como agentes auto-organizados, auto-sustentáveis e incorporados. No domínio social, a coordenação interactiva de actividades de criação de sentido incorporadas com os outros permite-nos participar da criação de sentido uns dos outros. E desta forma a abordagem enativa fornece novos conceitos para superar os problemas das explicações funcionalistas tradicionais do autismo, que só podem dar uma visão fragmentada e desintegrada porque consideram a cognição, comunicação e percepção separadamente, e não levam em conta o corporificado e são metodologicamente individualistas.


E como é que a incorporação e a criação de sentido se conectam? Ou seja, como é que as particularidades autistas de movimento, percepção e emoção se relacionam com a forma como as pessoas autistas dão sentido ao seu mundo? Por exemplo, os interesses restritos ou preferência por detalhes terão certos correlatos sensório-motores, bem como significados específicos para as pessoas autistas. Essa flexibilidade reduzida na coordenação interacional correlaciona-se com as dificuldades na criação participativa de sentido. Ao mesmo tempo, que comportamentos autistas aparentemente irrelevantes podem ser bastante sintonizados com o contexto interactivo.


Ao olharmos para o comportamento humano da pessoa autista somente como um aglomerado de características patentes num manual de diagnóstico, estaremos a reduzir a existência humana, a sua riqueza e dignidade. A forma como o próprio se constrói ao longo do desenvolvimento e no continuo do seu contacto com o Mundo, o Outro e o seu pensar e sentir, traduz a necessidade e urgência de mudança de paradigma. E nada disto envolve terminar com a categorização das características do autismo e do desenvolvimento da investigação fundamental tão importante para o conhecimento sobre o autismo. Apenas necessitamos de ter uma cosmovisão diferente sobre a pessoa autista. E isso envolve principalmente a palavra, acção, pensar, sonhar e sentir da própria. E da forma como ela comunica isso tudo com o Mundo e com o Outro, e sente a resposta ao voltar para dentro de si. Este movimento perpétuo da construção da pessoa autista urge. Sob pena de continuarmos a olhar para a pelicula e vermos alguns impressões esbatidas naquilo que vai sendo a tentativa de existir da própria.


Por isso, movimentos criativos como Os monólogos de mulheres autistas criam e ajudam a recriar em todos, autistas e não autistas, uma visão mais próxima do Ser, do ser-se autista, da pessoa. As pessoas autistas fazem sentido do mundo de forma diferente, e que, no domínio social, são diferentemente capazes de participar no sentido com os outros. Se basearmos a investigação do autismo na questão de por que algo significa algo para alguém, podemos ligar estilos de ser autista e de fazer sentido com formas particulares de se mover, perceber e emocionar. Tal como a arte e a expressão artística nos ensina, a criar significado, a resignificar o presente e a própria existência. Ao olharmos para um quadro numa galeria não nos perguntamos porque todas as pessoas podem ter uma visão e experiência diferentes de terem contemplado aquele quadro, certo? E você?


46 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comentarios


bottom of page