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Participar rima com partilhar

Dizem que esta é uma época de partilha. Mas também dizem que o natal é quando a pessoa quer. Posto isto, gostaria de poder partilhar com todos vocês aquilo que são as vossas partilhas quando preenchem um questionário no site Autismo no adulto.


Quando acedem ao site Autismo no adulto e preenchem o questionário para fazer o rastreio, são muitos aqueles que enviam um mail a solicitar uma resposta face às suas respostas. Ou seja, o questionário Quociente do Espectro do Autismo - 10 (Auyeung e Baron-Cohen, 2012), permite obter um resultado a partir do qual é possível saber se a pessoa apresenta características para realizar uma avaliação de despiste de Perturbação do Espectro do Autismo.


O questionário está disponível desde o inicio do site há três anos e irá continuar. E desde então recolhemos 1995 participantes. Respostas essas que gostaríamos de partilhar com todos vocês através de uma breve análise descritiva, mas que no nosso entender espelha várias questões que são importantes.


O questionário QA-10, composto por dez questões, foi preenchido por 1995 participantes, dos quais 68,3% são do sexo feminino e 31,7% do sexo masculino. A amostra tem uma média de idades de 28,5 anos. No que diz respeito ao nível de escolaridade, 47,6% tem uma Licenciatura e 31,8% o Ensino Secundário.


Em relação à pergunta se alguma vez lhe fora diagnosticado uma Perturbação do neurodesenvolvimento, cerca de 36,8% refere nunca. Contudo, 26% diz que lhe foi diagnosticado Ansiedade, 20,4% Depressão e 5,4% Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção.


Na pergunta, quando lhe foi diagnosticado, 93,% refere que há um ano, 17,1% entre um e cinco anos, 13,6% entre seis e dez anos, 14% entre onze e vinte anos e 6,6% há mais de vinte anos.


Em relação ao profissional de saúde que lhe fez o diagnóstico, cerca de 31,1% refere o Psiquiatra, 17,5% o Psicólogo e 6,7% auto-diagnosticado. Sendo que 31% afirma ter um familiar com um diagnóstico de Perturbação do neurodesenvolvimento.


A partir das dez questões do questionário QA-10 é possível calcular o valor de ponto de corte, que os autores do questionário propõem como sendo seis ou superior. Ou seja, os participantes que obtêm um valor igual ou superior a seis apresentam um resultado que aponta para a importância de realizar uma avaliação de despiste e Perturbação do Espectro do Autismo mais aprofundada.


Numa primeira análise às respostas dos 1995 participantes podemos perceber que a amostra pontua significativamente acima do valor de seis. A titulo de exemplo, na primeira pergunta, Noto muitas vezes pequenos ruídos que passam despercebidos às outras pessoas, 75% responde concordo totalmente/concordo. Ou na segunda pergunta, Frequentemente concentro-me mais no todo do que nos pequenos detalhes, 60,5% responde discordo completamente/discordo.


Bem como na terceira pergunta, Sinto ser fácil fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo, 64,1% responde discordo completamente/discordo.


E na quarta pergunta, Se me interromperem eu consigo voltar rapidamente ao que estava a fazer, 72,5% diz discordar completamente/discordar. Ou na quinta pergunta, Sinto ser fácil “ler entre linhas” quando alguém está a falar comigo, 65,1% diz discordar completamente/discordar.


Mas também na oitava pergunta, Gosto de coleccionar informação sobre tipo de coisas (e.g., tipos de carros, aves, comboios, plantas), 60% diz concordar completamente/concordar. Na nona pergunta, Consigo compreender o que alguém está a pensar ou sentir apenas por olhar para a sua face, 52,4% diz discordar completamente/discordar. E na décima pergunta, Sinto ser difícil compreender as intenções das pessoas, 72,4% concorda totalmente/concorda.


Algumas reflexões que me parecem importantes, começa por validar a importância da utilização destes questionários de rastreio no espectro do autismo. Independentemente deste questionário e da versão em questão apresentar dez itens, os autores referem que a mesma apresenta uma boa validade. Nesta recolha de dados, o nosso estudo não permite avaliar a validade do instrumento. Contudo, é importante poder pensar que uma percentagem significativa de participantes apresenta um diagnóstico de Ansiedade e Depressão. E é sabido que no espectro do autismo há uma grande comorbilidade com estas duas perturbações.


Além disso, e se pensarmos que os resultados obtidos no questionário reflectem a realidade de haver uma percentagem grande de pessoas destas 1995 participantes com a probabilidade de terem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Até porque se olharmos para o facto de 32% destes participantes terem um familiar directo com uma Perturbação do neurodesenvolvimento, e sabemos que há uma contribuição genética e hereditária importante no espectro do autismo. Podemos pensar que uma percentagem igualmente importante está sem este diagnóstico há bastante tempo. por exemplo, 6,6% há mais de 20 anos, 14% entre 11 e 20 anos e 13,6% entre 6 e 10 anos.


Para além disso, quando falamos da necessidade de sensibilizar, informar e formar mais e melhor os profissionais de saúde. Podemos perceber que 31,1% dos participantes foi diagnosticado por um Psiquiatra e 17,5% por um Psicólogo. Ou seja, pensando que uma parte significativa destes participantes podem apresentar um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, atendendo aos resultados obtidos no questionário. Ficamos com uma ideia mais clara e importante da necessidade de continuar a insistir na formação de profissionais de saúde, sejam Psiquiatras e Psicólogos, mas também Médicos de Clinica Geral e Familiar, Pediatras, etc. Não deixando de assinalar que uma percentagem mínima de 6,7% se auto-diagnosticou. Sendo esta informação algo que vai ao encontro daquilo que tem acontecido na comunidade internacional em que cada vez um maior número de pessoas no espectro do autismo se tem auto diagnosticado em parte como resposta à escassa resposta do sistema de saúde do seu país.


Por último, quero voltar novamente a sublinhar a minha gratidão pela participação de todos no preenchimento do questionário. E desejar um sopro de energia para que no próximo ano possa converter estes mesmos para um artigo cientifico e poder novamente voltar a partilhar com todos vocês e a comunidade cientifica.


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