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Os especiais do dia

Frequentemente quando vamos almoçar fora durante a semana é comum ouvirmos as pessoas perguntar - Senhor Alfredo, quais são os especiais do dia? Seja porque o senhor Alfredo é conhecido por fazer uns determinados pratos melhores que outros. Porque as pessoas estão com pressa para almoçar nos 35 minutos que lhes resta, mas também porque gostam de comer com determinada regularidade aquele mesmo prato no seu restaurante predilecto. O certo é que as pessoas de uma maneira geral gostam de fazer as coisas com uma determinada regularidade. Não no restaurante do senhor Alfredo, mas na clínica, quando ouvimos falar de especiais, nomeadamente associado aos interesses, isso já parece ter uma outra conotação, normalmente negativa. E talvez não seja por acaso visto que na DSM 5 na Perturbação do Espectro do Autismo, encontramos enquanto critério de diagnóstico, "padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou actividades.".


E já agora, como é que os interesses se parecem?


O que é que um conhecimento intenso sobre o Star Wars aos 8 anos, um conhecimento enciclopédico sobre elevadores aos 5 anos ou um interesse intenso por pacotes de leite ou outros utensílios de cozinha poderá ter em comum?


Lembro-me de ter tido alguns colegas durante a adolescência que andavam sempre com um livro. E eram "clientes" assíduos da biblioteca de turma. E durante as férias estavam inúmeras horas debaixo de um chapéu de sol com a cabeça enfiada nos livros. Ou em casa tinham uma biblioteca de invejar e apenas tinham 15 anos de idade. E então? Seriam todos eles pessoas com interesses especiais? E se sim, que conotação dariam as pessoas a este interesse?


E mesmo que possa ser dito que alguns dos interesses especiais observados no autismo parecem não ter funcionalidade. Talvez isso possa ter de ser pensado sobre qual a perspectiva em que isso está a ser equacionado! Até porque ter um conhecimento enciclopédico sobre dinossauros não precisa de ser não funcional. Porque é que a informação que a pessoa detêm, imaginemos uma criança autista, não pode ser usada para integrar outras informações a serem leccionadas nas várias disciplinas do currículo? E pergunto isto de forma retórica, até porque tenho conhecimento de alguns professores o fazerem. E os resultados são positivos. E porque é que um conhecimento vasto sobre cães não pode vir a ser aproveitado inclusive para uma possível futura orientação vocacional? Ou inclusive poder ser usado para projectos escolares em que estes alunos possam dar workshops aos seus colegas sobre determinada informação que detêm?


E por mais que possa ser dito que as pessoas autistas apenas gostam de falar sobre os seus interesses especiais. Penso que esta informação deva igualmente ser pensada. E analisar-se porque é que a pessoa autista está a falar em tão grande quantidade sobre aquele assunto e não outro? E como será que ela se sente em falar sobre outro assunto?


Mas se pensarmos nesta designação de interesses especiais, podemos perceber que uma percentagem significativa de crianças neurotipicas têm interesses especiais, nomeadamente em tópicos como comboios ou animais. E isto não faz com que sejam crianças autistas, ou que estes seus interesses especiais sejam vistos como negativos. Ainda que nas pessoas autistas se possa assistir ao que é designado de monotropismo. Ou seja, uma tendência para se focar intensamente num conjunto bastante restrito de actividades. E se pensarmos no interesse que muitas crianças, jovens e adultos desenvolvem pelos videojogos, ficaremos a questionar se isso poderá ser um interesse especial. Então o porquê de isso acontecer no Espectro do Autismo?


Por exemplo, ultimamente tenho reflectido conjuntamente com os meus colegas do NICO - Núcleo de Intervenção no Comportamento Online, se o comportamento problemático de utilização dos ecrãs na pessoa autista, poderá ser entendido como um interesse especial. Ou se poderá ser compreendido de uma outra forma?


Se não se souber que a pessoa é autista irão ter uma atitude negativa face ao maior interesse por História de Portugal? Ou irão ao invés pensar que será uma mais valia para prosseguir os seus estudos nesta área. E se tiver um maior interesse em literatura e línguas estrangeiras? Ou comboios? Dinossauros? Não irá ser valorizado? E reforçado? Porque é que o facto de ser uma pessoa autista isso passa a fazer com que seja visto como algo problemático? E mais ainda, não ser algo que venha a ser aproveitado, reforçado e orientado em prole da pessoa|


E se é possível de observar uma quantidade variada de interesses especiais entre pessoas neurotipicas e neurodivergentes, ainda que com intensidade e maior impacto nestes últimos. Ainda assim, o que distingue os interesses especiais, ou pelo menos alguns deles, entre estes dois grupos de pessoas? Será que o facto de sabermos que a pessoa é autista iremos mais rapidamente pensar que o seu interesse em determinada actividade é especial?


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