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O que eu desaprendi sobre o namoro

As pessoas devem ter uma grande fixação com esta coisa do namorar, diz Telmo (nome fictício). Já em pequeno na creche me perguntavam se a Madalena (nome fictício) era a minha namorada, acrescenta. Eu ficava a olhar para as pessoas e de alguma forma encolhia os ombros. Depois deixei de o fazer porque logo de seguida mexiam-me no cabelo e riam-se alto. E eu não gostava de ambas as coisas, refere. Passei a fazer uma cara de quem estava a pensar. Isto lá por volta dos 10 anos. Vi uma série na televisão em que o tema do episódio andava à volta disso e passei a fazê-lo. Resultou até cerca dos 15 anos. Depois disso começaram a insistir nas perguntas lá por casa. O meu pai parecia preocupado com o tema. Principalmente de eu não me parecer interessar pelas raparigas. Ainda que não fosse verdade. Mas eu compreendia-o. A questão da homossexualidade assustava-o. Eu nunca lhe disse nada porque penso que ele não iria compreender. Até porque depois penso que também não lhe iria saber explicar muito bem e então ele ficaria a pensar que eu era homossexual, coisa que eu não sou. Mas na altura ainda não pensava nisso ou no que eu era. Era o Telmo e isso parecia chegar-me. A minha mãe percebia-me melhor. Até porque a minha mãe era em muito parecida comigo. Telmo tem agora 21 anos. Diz-me que beijou a primeira pessoa a semana passada. Entrou no gabinete, sentou-se ofegante e disse. Acho que beijei uma pessoa pela primeira vez. Não tenho bem a certeza, até porque sai de lá logo a correr, diz tão rápido quanto entrou no gabinete. Como é que se sabe que beijamos alguém?, pergunta. Quer dizer, eu sei que se encostam os lábios e isso. Mas como é que isso se sabe quando o fazemos pela primeira vez? Até porque se nunca o fizemos precisamos de alguém que nos diga se aquilo aconteceu ou não! As dúvidas no Telmo estavam presentes em tudo, e ainda mais nas coisas que fazia pela primeira vez. Ela sorriu para mim, disse Telmo. Não me lembro de mais nada. Aquele sorriso é como se me tivesse ofuscado. E eu tinha de sair dali imediatamente, percebes?, pergunta-me. Além disso, a sensação de ter a zona abdominal completamente contraída não é das melhores sensações, sabes!, acrescenta. Eu fui ouvindo muito daquilo que os meus colegas foram falando sobre estes assuntos. Principalmente as raparigas. Elas toleravam melhor a minha companhia. Ou então não se interessavam que eu estivesse por ali perto, desde que não fizesse mais nada. Então fui ouvindo o que as pessoas iam dizendo. Na verdade preferia assim. Pelos menos podia ligar e desligar-me da conversa quando quisesse e sem que isso tivesse impacto nas pessoas. Quando eu desligava da conversa das pessoas elas notavam e ficavam aborrecidas comigo. Se elas soubessem há quanto tempo eu já estava aborrecido da conversa delas, nem sequer se atreviam a dizer-me nada. Mas de tudo o que fui ouvindo nunca percebi como é que as pessoas se conseguiam alguma vez entender. Confesso que não compreendo. Como é que as pessoas conseguem ir ao encontro das expectativas uns dos outros? E saber que isso está bem? Cheguei a ter duas situações em que o meu amigo me disse que duas colegas estariam interessadas em mim. A primeira pergunta que me ocorreu foi - como é que tu sabes? Falaste com elas? Para mim não parecia haver nenhuma outra forma de saber. E quando me vêm dizer que dá para perceber por aquilo que a pessoa mostra ficou ainda mais perdido. O que é que a pessoa mostra que é assim tão evidente? E como é que as pessoas têm a certeza, ou pelo menos essa certeza? E se não têm a certeza como é que são capazes de tomar uma decisão de avançar sequer? Eu já li muita coisa. Como cortejar a pessoa. Ou então como mostrar interesse sobre a pessoa. Como convidar a pessoa. Como isto ou como aquilo. Como se as coisas fossem lineares. Mas não são. Por isso deixei de ler sobre o que quer que fosse sobre o namoro. E ainda mais sobre o namoro no Autismo. As pessoas devem pensar que nós somos o quê? Acéfalos? Eu não sei muita coisa, nomeadamente o que fazer neste momento. E não consigo parar de fazer perguntas. Mas não consigo ler a maior parte das coisas sobre o namoro no autismo. Tu já leste alguma coisa?, pergunta-me. Digo-lhe que prefiro ouvir sobre o assunto a partir das próprias experiências das pessoas que acompanham. Vês, vês. É isso que eu digo. Eu iria responder que tinha lido três ou quatro livros e que ainda assim me sentia pouco esclarecido. Mas tu dizes que preferes saber das próprias pessoas. É o quê? Confias nelas?, pergunta-me. Acenei demonstrando que sim. E se eu te disser que vou volta atrás e vou ter com a rapariga que beijei antes de vir para a consulta?, pergunta-me. Disse-lhe que estaria ali para a consulta da semana que vem.


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