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O dia chegou

A minha mãe chamava-se Alzira (nome fictício), Maria Alzira de Jesus. Eu gostava de a chamar de Za, disse Antero (nome fictício). O meu pai chamava-se Ateneu (nome fictício), Ateneu da Fonseca Miranda. Sempre o tratei por pai. Penso que ele não gostava do nome Ateneu, continua. Os meus pais faleceram no fim de semana passado. A mãe tinha oitenta e quatro anos, feitos em fevereiro passado. O pai era mais velho. Tinha oitenta e nove. Eu tenho quarenta e oito anos. Sou filho único. Penso que a minha mãe sempre teve receio de ter filhos. Pelo menos era isso que me parecia. E depois de eu ter nascido quando ela já tinha trinta e seis anos penso que nunca mais pensaram em filhos. Eu sempre fui uma pessoa complicada. Mas ninguém escolhe ser complicado. Na verdade, penso que ninguém escolhe muitas coisas. Não, pelo menos logo à nascença. E eu fui continuando a ter dificuldades nas escolhas ao longo da vida. Valeram-me muito os meus pais, a Za e o pai Ateneu. A minha família são eles. Na verdade tenho mais família, mas penso que deixou de o ser já há alguns anos. Os meus pais fizeram aquilo que qualquer pai e mãe fazem, defenderam-me. Os meus tios chamavam-me coisas horríveis. Diziam aos meus pais que tinham de fazer isto e aquilo, nem vos vou dizer o quê! Aos poucos fomos perdendo contacto com as pessoas. Principalmente elas deixaram de querer contacto connosco. Eu não tive a culpa. Não sabia porque é que aquelas coisas aconteciam. Os meus pais também não. Andamos por vários sítios. Os meus pais carregaram-me para vários médicos. Cada um dizia-lhes coisas diferentes. Eu via isso na cara da minha mãe. Era sempre uma cara diferente. Ela entrava com uma cara de esperança e saia novamente com aquela outra cara. O meu pai, já esse, saia com a mesma cara com que entrava. Era mais fácil de saber como é que o meu pai estava. E eu fui-me habituando a ele. Principalmente os últimos anos. Depois de ter terminado o ensino secundário já mais tarde. Ainda tentei ir para a universidade, mas não consegui. Fiquei em casa. Fiquei um mês e depois outro. Passei os primeiros seis meses e finalmente um ano. A esperança começo a ser menor. E ao fim de algum tempo penso que os meus pais também se foram habituando. Aos vinte e nove anos tive uma crise muito grande. Os meus pais ganharam coragem. A pouco que tinha para um momento como este e levaram-me novamente ao médico. Foi quando eles me disseram que eu era autista. Eu continuei a chamar-me Antero, e a minha mãe Za e o meu pai Ateneu. Eles faleceram o fim de semana passado. Estou perdido. Ainda mais do que já alguma vez estive. E estou sozinho. Literalmente sozinho, não é exagero nenhum. Nada na minha vida é um exagero, excepto o sofrimento. Esse sim, foi sempre um exagero. Até mesmo desnecessário. Não sei porque é que alguém quer sofrer tanto. Agora os meus pais também já não me podem dizer porque escolheram sofrer tanto.


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