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O bom, o mau e o URL

Nada como uma boa coboiada para introduzir um tema igualmente quente. Tão escaldante quanto a cena do impasse mexicano do filme em que decidem fazer um duelo ao som de II Triello de Ennio Morricone. E se ainda não viu o filme do Sergio Leone, aproveite e vá ver.


Entretanto, o que eu gostava de falar é da sexualidade dos adolescentes e da internet. E da forma como a internet passou a ser uma grande fonte de procura para esta mesma informação. É verdade que o simples facto de falar sobre isto leva muitos pais a ficarem de cabelos em pé e a ponderar retirar todos os equipamentos electrónicos e com acesso remoto à internet lá de casa. O certo é que se tomassem esse tipo de decisão ficariam todos sem acesso ao Mundo, tal qual ele está a acontecer. Da mesma forma que as pessoas usam o motor de busca Google para saber se devem dar Benuron ao filho que está com temperatura. Também usam para saber o tamanho da girafa mais alta. Ou como é que eu sei se estou constipado ou então se os fantasmas são reais. Eu sei que muitos de vocês estarão a pensar que não é apenas isso que as pessoas pensam, certo? E têm razão. E ainda mais agora que estamos a sair de uma situação de confinamento e a utilização da internet aumentou significativamente, ainda mais fica presente essa ideia, correcto? Se por um lado a palavra confinamento foi significativamente procurada. O mesmo também aconteceu com preservativo, pílula de emergência, teste de gravidez, aborto, planear um filho ou planear um outro filho. Da mesma forma que App para encontros também foi substancialmente pesquisada. Assim como casamento ou divórcio.


Mas não nos desviemos do assunto. Em relação à procura de informação sobre a sexualidade, os jovens, mas não só, procuram activamente através da ferramenta da internet saber mais acerca desta, de si e do Outro. E ter "a conversa" com os pais ou com o pai ou a mãe separadamente passou também a ter esta outra possibilidade. Se na minha idade contávamos com os pares ou as revistas de conteúdo erótico que eram publicadas com determinada frequência. Hoje, existe toda uma gama diversificada de conteúdos disponíveis. Ainda que continue a existir todo um conjunto de situações de risco associados a determinado tipo de conteúdos. Assim como continua a haver todo um conjunto de constrangimentos e de factores intrínsecos e extrínsecos à situação e que levam a que as pessoas, nomeadamente os jovens, possam querer procurar informação acerca da sexualidade na internet tendo em conta que conseguem fazê-lo em anonimato, para além de poderem encontram uma gama variada de informação e que vai ao encontro das necessidades sentidas. E quando falo de jovens, incluo aqui também os jovens com Perturbação do Espectro do Autismo. Facto que devido a muitas das suas características levarem a aumentar todos os constrangimentos referidos anteriormente, isso reforça ainda mais o facto de procurarem a informação online. No entanto, é fundamental poder perceber que a procura de informação sobre a sexualidade é positivo e vai ao encontro da descoberta e da construção da sua identidade enquanto pessoas.


Ao lado dos pais, da escola e dos amigos, os media online oferecem uma importante fonte de informações para os jovens aprenderem sobre sexo. Os jovens costumam recorrer a eles porque é rápido. E tal como em muito na sua vida naquele período especifico do desenvolvimento é sentido a necessidade da emergência de se saber e ter as coisas no momento em que se as sente. Mas também acontece porque a informação está facilmente acessível e oferece a oportunidade de procurar informações anonimamente. Além disso, os media online oferece a oportunidade de aceder a uma variedade de diferentes fontes de informação, diferentes opiniões e outras experiências de jovens. ou até de poder participar activamente de informações sexuais online respondendo ao conteúdo de outras pessoas e criando eles próprios o conteúdo.


A informação sexual online pode, portanto, ser uma fonte valiosa para os jovens, mas também apresenta alguns inconvenientes. Por um lado, a abundância de informações disponíveis online torna difícil distinguir fontes de informação não confiáveis ​​de confiáveis. O conteúdo online que fornece informações sobre sexo criado pelas próprias pessoas (em oposição ao criado por profissionais), o chamado "conteúdo gerado pelo utilizador", é muitas vezes inconsistente com as evidências científicas ou a prática clínica. Além disso, mesmo fontes confiáveis ​​de informação podem ser mal interpretadas, especialmente se forem apresentadas de uma maneira que não seja apropriada para a idade ou adaptada às competências de alfabetização de alguém. Além disso, como os media online podem ser acedidos sem a orientação dos pais, existe o risco de visualização de conteúdo sexual que seja inadequado para o desenvolvimento (e.g., pornografia) e o risco de exploração infantil. Dados os benefícios e riscos dos media online para a procura de informações sexuais, é essencial: aumentar a nossa compreensão das características dos jovens que são mais propensos a recorrer aos media online para aprender sobre sexo; e saber que tipo de fontes de informações sexuais que consultam online. Tem sido argumentado que os jovens usam activamente os media como uma ferramenta para a auto-socialização, ou seja, para aprender sobre os comportamentos, valores e papéis apropriados na sua sociedade.


Alguns dados parecem sugerir que que os jovens LGBTQ+ e os jovens com mais conhecimento sexual são mais propensos a consultar informações sexuais online, tanto via informação construída pelo utilizados quanto via sites profissionais sobre sexo. O conteúdo profissional atinge especificamente mais as jovens do que os jovens do sexo masculino e é mais provável que seja consultado por jovens com mais experiência sexual e problemas sexuais. Além disso, ser do sexo masculino, ter baixa estima sexual e alta curiosidade sexual foram associados a um maior uso de informação construída pelo utilizador. Finalmente, apenas a comunicação com amigos sobre sexo, mas não com pais ou parceiros, nem a quantidade e valorização da educação sexual baseada na escola recebida, parece estar relacionada a um maior uso de procura de informação sexual online, nomeadamente em fontes especializadas de informação sexual.


No caso das pessoas autistas. Sim, porque as pessoas autistas também pesquisam informação sobre sexualidade e sexo. E à medida que estes atingem a idade adulta, passam por um conjunto único de desafios relacionados à saúde sexual, namoro e relacionamentos românticos. No entanto, tem havido pouca atenção dada à necessidade de educação sexual e voltada para o relacionamento para os jovens no espectro durante este período de transição entre a adolescência e a idade adulta. Até porque ao atingirem a idade de 16 anos, os objectivos a atingir centram-se quase exclusivamente no treino vocacional, vida independente e habitação própria. Embora todos esses objectivos sejam importantes para a trajectória futura dos adultos no espectro do autismo, as competências sociais são frequentemente listadas como objectivos secundários, e apenas no contexto de obter e manter um emprego. A instrução em competências relacionadas à higiene, namoro, sexualidade e comportamento sexual raramente é mencionada. Sendo que actualmente, a literatura sugere que adultos no espectro do autismo adquirem conhecimento sobre sexo e relacionamentos românticos de fontes diferentes do que os seus pares sem autismo. Por exemplo, os adultos no espectro parecem ser menos propensos a relatar aprendizagem sobre doenças sexualmente transmissíveis, contraceptivos e comportamentos sexuais de fontes sociais, com os pais, professores e colegas, como seria de se esperar para pessoas neurotipicas.


Dados representativos sugerem que 42% das pessoas dos 12 aos 17 anos nos Estados Unidos Estados viram conteúdos sexualmente explícitos (ou seja, pornografia) online. E apesar dos dados se referirem aos EUA, não pense que este é um caso isolado. Até porque se observarmos o Google Trend analysis para Portugal iremos verificar que há um comportamento semelhante. É estimado que aproximadamente 15% - 23% dos adolescentes dos EUA relataram exposição intencional à pornografia no ano passado, enquanto as taxas de pornografia não intencional a visualização pode chegar a 68% para alguns grupos de adolescentes.


A ideia de que a exposição aos conteúdos sexualmente explícito, e à pornografia em particular - prejudica a juventude é um debate controverso e na maior parte das vezes inflamado, até pelos argumentos que uns e outros vão usando, para além dos constrangimentos e fragilidades que cada um sente em relação ao tema. E se é verdade que existe um conjunto de estudos que sugerem que a exposição a conteúdos sexualmente explícitos na internet junto de jovens acarreta várias sequelas, incluindo a insegurança sobre os valores relacionados ao sexo, atitudes mais permissivas sobre o sexo casual, reforço das normas estereotipadas de género, menor satisfação sexual, etc. Também é igualmente verdade que começa a haver a possibilidade de se olhar para a integração de um curriculum para melhorar a literacia em pornografia. E é normalmente neste momento que começa o "tiroteio". Estão loucos? Dar a ver deliberadamente pornografia a jovens? Perderam o juízo completamente? Estas e outras frases são comuns de se ouvirem. O certo é que apesar da variação nas explicações teóricas, as evidências vão demonstrando que os conteúdos sexuais visionado nos media influencia o guião dos jovens, as suas atitudes e comportamentos sexuais. E tendo em conta que continuamos a verificar que cada vez mais pessoas, jovens e adultos, visionam estes mesmos conteúdos. A ideia que alguns investigadores propõem é a utilização de conteúdos que promovam a literacia e ajudem as pessoas a serem mais críticos em relação à questão da sexualidade e do sexo e possam contruir um conjunto de valores e atitudes mais saudáveis. São várias as questões que importam ajudar a reflectir. Desde a questão da identidade sexual, mas também dos aspectos referentes ao próprio consenso, já para não falar da satisfação sexual. Poder ser pensado a construção de um currículo que possa ajudar os jovens a construir uma ideia mais saudável sobre os relacionamentos e a sexualidade. Sendo que os participantes no inicio iriam ter a possibilidade eles próprios de apresentar as suas ideias sobre a pornografia e poder aprender com outros acerca das diferentes visões e em respeito das mesmas. E além de poder ser apresentado uma visão histórica, sociológica e cientifica acerca da pornografia. Também seria fundamental ajudar a debater todo um conjunto de crenças e mitos construídos ao longo do tempo e que levam inclusive ao fomentar de determinadas consequências negativas, principalmente quando os conteúdos visionados não são suportados por um enquadramento adequado. Isto para além de se poderem confrontar com aqueles que são alguns cenários irreais representados na pornografia. Certamente numa formação destas nunca poderia ser retirado a importância de se abordar as questões da intimidade e da importância do respeito próprio e do Outro.


As abordagens que uns e outros fazem aos temas nunca é consensual. E esta certamente é uma delas. Mas também estou certo que todos nós concordamos que enquanto continuar a não haver uma qualquer reflexão sobre as questões aqui envolvidas, duas coisas continuarão a acontecer: as pessoas continuarão a aceder a conteúdos sexualmente explícitos e sem grande supervisão ou enquadramento; ma também todo um conjunto de fenómenos sociais que vão continuando a existir e infelizmente a crescer na área da sexualidade.


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