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O autismo sou eu

Nunca tinha feito bolas de sabão! dizia Catarina (nome fictício). Passei metade da minha infância a tentar perceber o porquê de todas aquelas crianças andarem aos saltos a tentarem rebentar as bolas de sabão! continua. Ainda por cima quando rebentava saltavam salpicos de água com detergente para os olhos e ficavam a chorar! Mas rapidamente voltavam uma e outra vez para brincar com as bolas. Uma vez experimentei. Não o fiz à frente dos outros. Não sabia o que podia acontecer. Esperei que todos fossem cantar os parabéns. Estávamos no aniversário do meu irmão Francisco (nome fictício). Eu não gostava de bater palmas e o ruído sempre foi desagradável para mim. Aproveitei então para experimentar. Comecei logo por sentir um arrepio e um sentimento de nojo. Mal senti aquele líquido viscoso nas mãos quase que ia deixando cair as coisas. Limpei as mãos e voltei a agarrar, mas já com um lenço de papel. A custo consegui soprar com toda a mestria que tinha aprendido ao longo daqueles anos todos de observação. Senti-me muito competente. Ao ver algumas das bolas de sabão a saírem fiquei com a sensação de ter conseguido criar a primeira coisa na minha vida. Durante muitos anos nunca mais voltei a sentir essa mesma sensação de criar algo. Excepto quando soube que estava grávida do meu primeiro filho André (nome fictício). Mas recordo-me que a minha reacção não foi em nada igual às outras crianças. Não saltei, não sorri, nada. Fiquei ali apenas a olhar. E nem sequer estava a olhar para as bolas de sabão, mas sim para o reflexo que a maior das bolas mostrava. Os amigos do meu irmão estavam todos com as mãos no ar e a cantar. Estava na altura de parar com a experiência. Não queria que ninguém soubesse que eu tinha feito aquilo. Normalmente não gostava de falar sobre as minhas coisas, complementou Catarina. Quando ao fim de algum tempo perguntei à Catarina o que ela achava sobre o autismo, ela respondeu-me, O autismo sou eu!


Eu não posso dizer que sei o que é o autismo! refere. Eu sei o que é o meu autismo. E por isso respondo que o autismo sou eu. Vejo tantos autismos diferentes e alguns deles não consigo sequer compreender. O autismo fez de mim o que sou e quem eu sou. Não penso que seja o autismo de outra pessoa qualquer ou de um qualquer médico, psicólogo, cientista que o tenha feito. Por isso repito, o autismo sou eu!


A forma como me vejo, construo e por vezes me moldo. A forma como vejo os outros e fico perplexa na maior parte das vezes. A forma como vejo o Mundo e todos nós nesta interacção por vezes forçada pela gravidade. Tudo isto, todas estas formas é o meu autismo!


Quando as pessoas dizem que todos somos um pouco autistas não fico aborrecida! Porquê? Na grande parte das vezes porque penso que as pessoas não sabem o que estão a dizer! Sim, as pessoas, todos nós dizemos coisas que não fazemos a mínima ideia do que estamos a dizer! Talvez essas pessoas não saibam muito bem quem elas próprias são e também estejam confusas como eu também fico confusa, só que têm uma forma diferente de o expressarem. Eu por exemplo não me vou por a dizer que sou um pouco humana ou esquizofrénica. Não sei muito bem o que é que ambas as coisas são! E se eu acho que as pessoas ficam com pena de mim por eu ser autista, que fiquem! Na maior parte das vezes não me importo, excepto quando me importo. E este meu importar não tem a ver com o facto de as pessoas poderem ter pena de mim, mas sim por não se disponibilizarem para me conhecerem na minha verdadeira e genuína forma de ser. Isso sim, entristece-me. Nem sempre, mas por vezes sim!


Quanto ao facto de me sentir diferente, é verdade que esse sentimento sempre me acompanhou. Mas não me importo. Sinto-me um quadrado num mundo com muitas circunferências. Mas isso não tem mal nenhum, é geometria. E a matemática ajuda-me a compreender a relação entre as diferentes figuras geométricas. Curiosamente a maior parte dos meus colegas não compreendiam quase nada de matemática. Ao invés pareciam perceber muito bem da relação com as outras pessoas, pelo menos com as outras circunferências, não com os quadrados. Sempre foi uma equação que me causou confusão, perceber como é que isso é possível.


Por vezes perguntam-me se eu gostaria de não ser autista! É normal a curiosidade das pessoas. E compreensível, na medida em que as pessoas estão habituadas a verem um diagnóstico como uma coisa negativa. Ter uma diabetes pode não ser uma coisa agradável e levar a várias alterações na vida da pessoa. Mas isso não quer dizer que até a diabetes tenha de ser uma coisa negativa. Mas compreendo a pergunta sobre o deixar de ser autista. Mas a minha resposta é sempre a mesma - Não, não gostaria de deixar de ser autista. Por uma razão muito simples - Não gostaria de deixar de ser eu própria! Mas isso é a forma como eu penso e sinto. Mas já ouvi outras respostas completamente diferentes e opostas. E isso não tem nada de mal, é a forma como as pessoas pensam e sentem, e terão as suas razões para tal. E por isso eu continuo a dizer que o autismo sou eu!


É curioso como as pessoas ficam confusas quando ouvem uma determinada palavra. Por exemplo, a palavra autista. Parecem que ficam surdos e incapacitados de continuar a pensar. Dizem que é muito difícil por as pessoas autistas serem rígidas e inflexíveis. E o que dizer da rigidez e da inflexibilidade de tantas outras pessoas que não são autistas? pergunta. Ou o que dizer do facto das pessoas autistas dedicarem muito tempo com os seus interesses restritos?! Mas as pessoas não autistas não têm interesses? E quando os têm não se dedicam igualmente a eles? Claro que se interessam e dedicam de forma diferente. Mas é essa diferença que faz das pessoas autistas e não autistas? continua a perguntar-se. Que estranho! Será que todos nós pensaríamos de forma diferente se estivéssemos a falar destes mesmos comportamentos e situações sem que antes fosse dita a palavra autista? Eu penso que sim, mas sou suspeita!


Porque é que eu acho que apenas descobriram e me diagnosticaram mais tarde? Porque há muita coisa que as pessoas desconhecem sobre as raparigas e as mulheres. Como por exemplo? Eu fazia coisas em criança que ouvia repetidamente as pessoas à minha volta a dizerem que era normal porque eu era rapariga. E isso não é nada de diferente daquilo que oiço em relação a brinquedos para rapazes e outros diferentes para raparigas! E como me enquadrava dentro da ideia estereotipada do que algumas pessoas pensavam acerca do que é ser-se rapariga, levou mais tempo a descobrirem o meu autismo.


As pessoas quando começam por dizer que sabem do que é que se está a falar eu calo-me! Porquê? Porque sinto que as pessoas já não querem saber mais nada! E isso também se aplica a médicos, psicólogos, professores e pessoas de uma maneira geral. Quando eles dizem que sabem o que é o autismo eu calo-me! Até porque sinto que eles não estão preparados para ouvir ou fazer um esforço para tentar perceber o que é o meu autismo!


Já viu que nunca ninguém fez uma bola de sabão igual? pergunta-me. E curiosamente as pessoas nunca deixaram de o fazer e de querer continuar a fazer e a sentirem-se alegres, mesmo que não saibam ou percebam o porquê! conclui antes de se despedir!


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