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O autismo de Kafka

Esta noite sonhei com Kafka, diz Artur (nome fictício). Tem estado a ler O Processo em alemão. É uma leitura para a disciplina de Português. Artur já sabe que tudo aquilo que pressente ou lhe dizem directamente que tem de fazer não o faz. Não consegue explicar o porquê. Sabe que simplesmente é assim. Sempre o foi. Diz que perde o entusiasmo, ainda que não saiba muito bem explicar que tipo de entusiasmo. É algo que sinto naquele momento, refere. Algo que me diz para não fazer, acrescenta. E por isso está a ler em alemão. É uma forma de se conseguir convencer em o fazer. Ninguém me disse que o tinha de ler em alemão. Sou eu que escolho fazê-lo. E assim consigo cumprir a minha tarefa de ler O Processo e apresentar à turma, continua. Artur não sabe por que é que assim o consegue. Há muita coisa que ainda não percebe. Acho que estou a gostar deste Kafka, refere. Na verdade no meu sonho de ontem parecia que o Kafka tinha algumas parecenças comigo. Seria eu a sonhar comigo mesmo? pergunta-me algo incrédulo. Nunca me tinha acontecido, conclui.


Quando percebo que a personagem principal acorda uma determinada manhã e é processado e sujeito a um longo e incompreensível processo por um crime não especifica, pensei que estariam a falar de mim, refere Artur. É como se Kafka fosse autista! afirma. O livro descreve toda uma narrativa em que eu me senti espelhado, acrescenta. Não é possível alguém escrever algo assim sem nunca se ter sentido daquela forma, certo? pergunta de forma retórica. Não consegui não continuar a pesquisar mais e mais sobre Kafka, diz Artur. Aquela pergunta não me saia da cabeça - E se Kafka fosse autista? O entusiasmo começou e o tempo dedicado a pesquisar também, acrescenta. Kafka viveu a sua vida como uma pessoa indefesa, não capaz de lidar com o seu pai, o seu trabalho diário, a sua cidade de nascimento, muito fraco para o amor, para a própria vida, apenas capaz de escrever e mesmo assim foi difícil para ele terminar a obra de uma forma adequada, conta-me. Não consegui deixar de pensar o quanto eu me reflecti naquelas descrições, diz.


E no final do romance. Naquela cena da execução, a personagem nunca é informada por que motivos estava a sofrer o processo, e continua a sustentar a sua inocência quase até ao fim. Isso faz-me lembrar grande parte da minha vida, dos meus dias. Parecem todos saídos de um processo, diz Artur. A minha compreensão do Mundo sempre foi singular. E a verdade é que nunca me senti enquadrado neste Universo, conta. E por isso toda esta novela distópica do Kafka me fez pensar nesta possibilidade. E tal como a personagem principal, quando lhe é perguntado, inocente de quê. Talvez esse processo que lhe tinha sido instaurado tivesse acontecido pela sua própria incapacidade de confessar a sua culpa, a sua humanidade, continua. Não que eu me sinto culpado, não agora, refere. Mas na verdade nunca consegui assumir a minha humanidade, confesso, assume Artur.


Para mim tem estado a ser interessante notar que Kafka tinha problemas com todas estas tarefas diárias e costumes que as pessoas não autistas parecem não ter, afirma. A questão que me coloco é por que Kafka teve tantos problemas com a vida em geral? Por que não fez o que pensava que os outros podiam fazer? continua. Artur parecia não conseguir parar. Nada que fosse muito diferente de muitas outras situações da sua vida. Mas esta particularmente não a quis travar. A verdadeira essência da sua descoberta enquanto pessoa parecia ter começado agora. O sentimento alienante da inatingibilidade do atingível, não capaz de fazer o que outros podiam porque pensava que não podia, continua. Esta paralisia foi um obstáculo na sua vida e parecia ser o tema importante em praticamente todas as suas histórias, tal como eu, diz. Este sentimento de impotência que existe principalmente como um sentimento e só por causa do facto de que existe como um sentir torna-se uma realidade transcreve toda a minha angustia trazida da minha fantasia para a vida, remata. Este sentimento de ser incapaz de viver a vida, a inatingibilidade do atingível e o sentimento de impotência também pode ser atribuído como uma boa descrição da luta na vida quotidiana e de como as pessoas autistas experimentam a vida entre pessoas não autistas, conclui. O que achas da preparação do meu trabalho? perguntou-se Artur. Não pude deixar de ficar emocionado.


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