Não vires as costas
- pedrorodrigues

- 4 de mar. de 2025
- 6 min de leitura
Hoje é dia mundial da obesidade. O propósito deste dia é consciencializar a sociedade sobre esta doença, enquanto se promove a mobilização para a elaboração de políticas que a combatam. Em 2025 o tema escolhido é "Sistemas em mudança, vidas mais saudáveis". Pretende-se com este tema apelar a uma mudança de foco. É altura de transformar os sistemas que moldam a saúde. Durante demasiado tempo, o mundo colocou a culpa da obesidade nos indivíduos - mas a verdade é que os sistemas deficientes estão a contribuir para o aumento das taxas de obesidade em todo o mundo. A obesidade é uma doença complexa e crónica e uma das principais causas de outras doenças como a diabetes, as doenças cardíacas e o cancro.
Desde sempre que a comida foi algo traumático para mim! diz Leandro (nome ficticio) de 38 anos, com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Recordo-me perfeitamente de ter duas pessoas para me agarrar e outra para me enfiar a comida pela boca! continua. Não era suposto isto acontecer na escola! E se vomitasse voltavam a dar-me a comida! diz com os olhos em lágrimas.
As pessoas autistas conhecem muito bem estas e outras histórias relacionadas com a alimentação. E da forma como algumas delas potenciam e dificultam a sua já tão dificil relação com a comida. E de como algumas destas situações levam a que mais facilmente muitas pessoas autistas acabem por se tornar obesas ou terem graves dificuldades com o excesso de peso.
Comer sempre este associado a ruído! diz Telma (nome ficticio) de 43 anos e com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Quer em casa, mas também na escola e mais tarde no trabalho, as pessoas fazem muito barulho a comer. E não são apenas as pessoas que fazem barulho ao comer. Estou a falar das pessoas que quase gritam a falar uns com os outros na mesa e ainda por cima têm a televisão ligada. Ou então na escola onde as pessoas na cantina mais parecem que estão num jardim zoológico. Não consigo comer com todos estes barulhos a acontecer. É desconfortável para mim, ao ponto de não querer comer! conclui.
Não gosto do cheiro que os garfos e as facas por vezes têm, refere Raúl (nome fictício) de 34 anos e com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Por isso, insisto em talheres limpos e, se tiverem um cheiro estranho, devolvo-os e compro-os limpos. E, de facto, às vezes as canecas que saem da máquina de lavar louça também têm esse cheiro, e não sei
não sei que cheiro é esse, mas é pungente. Por isso, se não cheirar bem, não como com ela ou não como nela! acrescenta.
Planear e fazer as coisas na ordem certa pode ser um grande obstáculo ao acesso aos alimentos, diz Carlos (nome fictício) de 49 anos e com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Por exemplo, não saio do meu quarto a não ser que tenha um plano mental visual do que vou e como o vou fazer (muitas vezes com um ou dois planos de reserva para que não entre em pânico se o meu primeiro plano for perturbado), e se não tiver um plano satisfatório não vou de todo! diz em catadupa. Fazer as coisas na ordem correcta pode ser difícil se alguma coisa não estiver de acordo com o plano, por exemplo, se deixar cair alguma coisa ou se alguma coisa não estiver de acordo com o plano, como se deixasse cair alguma coisa ou se alguém tentasse falar comigo - é como se quando começasse a executar um plano entrasse numa espécie de modo de piloto automático e o sistema perde-se se for desviado da rota. Muitas vezes, quando isso acontece, desisto rapidamente e escolho qualquer coisa ao acaso para sair e isso pode resultar na escolha acidental de algo sensorialmente mau! conclui.
O Leandro, a Telma, o Raúl e o Carlos conhecem bem o assunto da obesidade. Tão bem quanto conhecem a sua condição de autismo. O Raúl e o Carlos dizem que não sabem bem o que começou primeiro, se o autismo ou a obesidade. Até porque desde sempre se recordam como sendo obesos.
O excesso de peso e a obesidade, a acumulação anormal ou excessiva de gordura que pode prejudicar a saúde, são grandes preocupações de saúde pública. O excesso de peso corporal (excesso de peso e obesidade) é um factor de risco significativo e evitável para várias outras doenças crónicas que afectam praticamente todos os principais sistemas e órgãos. A obesidade está associada a uma diminuição da esperança de vida de 5 a 20 anos.
Os adultos autistas são mais susceptíveis de se encontrarem em categorias de peso não saudáveis do que os seus homólogos não autistas, ou seja, mais susceptíveis de terem peso a menos, peso a mais ou obesidade. Há uma grande variedade de razões para o excesso de peso, mas alguns dos factores mais comuns - consumir mais calorias do que aquelas que se queimam, baixos níveis de atividade física - podem afetar particularmente as pessoas autistas. No entanto, o que ainda não foi completamente explorado é se estes padrões se estendem à idade adulta, ou a sua relação com factores que se sabe influenciarem os resultados do peso em pessoas não autistas.
As crianças e jovens autistas têm frequentemente dietas muito diferentes das crianças e jovens não autistas, consumindo uma gama mais limitada de alimentos, embora este padrão não seja universal. Os alimentos que são frequentemente preferidos pelas crianças e jovens autistas tendem a ter um maior número de calorias ou um menor valor nutricional. Embora seja comum as crianças e os jovens gostarem de passatempos como os videojogos, as crianças e os jovens autistas praticam menos atividade física do que os seus pares não autistas tendendo a passar o tempo com os seus amigos autistas e não autistas em actividades mais sedentárias.
A ligação entre a alimentação selectiva e o autismo em crianças está bem estabelecida na literatura. As crianças autistas têm maior probabilidade de ter uma dieta restrita, recusando mais alimentos e comendo um repertório alimentar mais limitado do que os seus pares com desenvolvimento típico. Esta seletividade parece ser motivada por uma série de factores. Vários estudos sugerem que as crianças que apresentam níveis mais elevados de sensibilidade sensorial são mais susceptíveis de recusar alimentos com base em qualidades sensoriais, incluindo textura, temperatura, sabor e cheiro. O processamento sensorial atípico é comum no autismo, e a alimentação selectiva no autismo está associada à sensibilidade sensorial A preferência pela rotina e a inflexibilidade comportamental, associadas ao autismo, podem também causar problemas com a alimentação, tornando as crianças relutantes em experimentar novos alimentos ou levando ao desenvolvimento de rotinas específicas para a hora das refeições. Os problemas alimentares podem também ser motivados por dificuldades físicas associadas ao autismo, tais como problemas motores (incluindo a mastigação ou a utilização de utensílios) ou sintomas gastrointestinais. Além disso, as dietas das crianças autistas podem ser deliberadamente restringidas pelos pais - por exemplo, dietas sem glúten ou caseína - com o objetivo de melhorar os sintomas gastrointestinais ou alterar o comportamento.
Como se pode verificar, existem vários aspectos que podem contribuir para uma situação de obesidade no espectro do autismo. Nomeadamente, a menor frequência em praticar uma atividade física regular que se sabe ser crucial para manter um peso saudável. No entanto, as pessoas autistas podem encontrar barreiras ao exercício. As suas dificuldades de comunicação e interação social podem tornar difícil a participação em desportos de equipa ou actividades de fitness em grupo. As pessoas autistas podem enfrentar obstáculos notáveis quando se trata de participar em actividades físicas devido às suas capacidades motoras. Além disso, as sensibilidades sensoriais podem tornar alguns ambientes de exercício esmagadores ou desconfortáveis, levando a uma falta de atividade física. Incentivar planos de atividade física individualizados que tenham em conta as necessidades sensoriais pode ajudar a ultrapassar este obstáculo.
Mas também outros aspectos relacionados com os efeitos secundários de alguma medicação. É frequente que as pessoas autistas possam ter a prescrição de vários medicamentos para gerir os sintomas associados a condições concomitantes, como a ansiedade, PHDA, depressão, etc. Alguns medicamentos é sabido que apresentam efeitos secundáros que podem levar a um aumento do apetite ou causar aumento de peso. Esta situação deve ser sempre discutida com o médico assistente e em conjunto procurarem alternativas possíveis e saudáveis de lidar com a situação de forma a minimizar o impacto na pessoa.
Muitas pessoas autistas têm padrões de sono perturbados, incluindo dificuldade em adormecer, despertares frequentes durante a noite e acordar de manhã cedo. Estes distúrbios do sono podem levar a um sono inadequado e de má qualidade, reduzindo a quantidade de sono reparador que a pessoa recebe. O sono é crucial para regular as hormonas que controlam o apetite e o metabolismo. A privação de sono pode perturbar o equilíbrio destas hormonas, levando a um aumento do apetite, particularmente por alimentos muito calóricos e açucarados, e a um metabolismo mais lento. Este desequilíbrio hormonal pode contribuir para o aumento de peso e a obesidade.
Tendo em conta este quadro tão complexo, seja o do espectro do autismo, da obesidade, e os dois em conjunto, é fundamental que possa haver uma maior coordenação entre os profissionais das mais variadas áreas comportamental e médica. Assim como uma maior articulação entre os diferentes serviços de saúde, mas também as escolas, no acesso a uma resposta mais célere e adaptada para a prática de actividade fisica ao longo da vida para as pessoas autistas.



Comentários