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Nada como uma boa coboiada!!


"I keep a close watch on this heart of mine

I keep my eyes wide open all the time

I keep the ends out for the tie that binds"


I walk the line (1956), Johny Cash


“Eu sempre achei as relações amorosas como um filme de cowboys.” Eduardo, nome fictício, 58 anos, sorri antes de terminar a frase. “Quando menos esperamos, alguém enfia-nos um tiro pelas costas.” Volta a rir-se, mas desta vez o sorriso dura apenas alguns segundos. “As coisas parecem estar a correr bem, mas o perigo está sempre ali à espreita. A diferença é que, nos filmes, começa a tocar aquela música de suspense e nós sabemos que alguma coisa vai acontecer. Na vida real não há banda sonora. Só percebemos que fomos atingidos quando já estamos no chão.”


A metáfora pode parecer exagerada para quem nunca viveu a experiência de procurar intimidade sendo autista. Para muitos adultos autistas, contudo, descreve de forma surpreendentemente fiel aquilo que significa aproximar-se de alguém. Não porque o amor seja inevitavelmente doloroso, mas porque grande parte das regras que orientam os relacionamentos parecem invisíveis, imprevisíveis e frequentemente contraditórias.


Apaixonar-se nunca foi apenas uma questão de encontrar a pessoa certa. É interpretar olhares, distinguir interesse de simpatia, perceber quando insistir e quando recuar, compreender ironias, decifrar mensagens ambíguas, lidar com rejeições subtis, sobreviver ao silêncio depois de dias de conversas intensas e aceitar que nem sempre existe uma explicação lógica para o comportamento humano.


Para muitas pessoas autistas, esta realidade assemelha-se a entrar numa cidade do Velho Oeste sem mapa, sem conhecer as regras locais e sem conseguir perceber quem é aliado, quem é indiferente e quem representa um verdadeiro perigo.


O desejo de amar nunca esteve em causa


Durante décadas persistiu um dos mitos mais injustos sobre o autismo: a ideia de que as pessoas autistas não desejam relações românticas ou que preferem viver isoladas. Hoje sabemos que esta ideia é profundamente errada.


A maioria dos adultos autistas deseja estabelecer relações amorosas significativas, procura intimidade emocional, sonha constituir família ou simplesmente encontrar alguém com quem partilhar a vida. O desejo existe. O que frequentemente difere é o caminho necessário para lá chegar.


Muitas pessoas autistas descrevem o amor como uma experiência profundamente intensa. Quando se sentem seguras, tendem a investir muito na relação, valorizando a honestidade, a previsibilidade, a lealdade e a autenticidade. Não procuram jogos emocionais nem estratégias de sedução complexas. Procuram alguém que diga aquilo que pensa e que pense aquilo que diz.


Infelizmente, o mundo dos encontros nem sempre funciona dessa forma.


O paradoxo das aplicações de encontros


As aplicações de encontros surgiram como uma promessa quase perfeita.

Num primeiro momento, pareciam resolver muitos dos desafios sentidos por pessoas autistas.

Já não era necessário aproximar-se de um desconhecido num bar cheio de ruído.

Já não era preciso interpretar imediatamente expressões faciais, linguagem corporal ou sinais sociais pouco claros.


Era possível responder com tempo. Pensar antes de escrever. Reler a mensagem. Apagar. Voltar a escrever. Perguntar diretamente aquilo que se queria saber. Conhecer alguém antes do primeiro encontro presencial. Para muitas pessoas autistas, esta estrutura reduz significativamente a ansiedade social. A comunicação escrita oferece um maior sentimento de controlo e diminui a sobrecarga sensorial que acompanha muitos contextos sociais. Mas rapidamente aparece o outro lado da moeda.


O Velho Oeste digital


As aplicações de encontros também são um território onde as regras raramente são explícitas. Existe o “ghosting”, quando alguém desaparece sem qualquer explicação. Existe o “breadcrumbing”, quando alguém mantém pequenas interações apenas para conservar o interesse da outra pessoa, sem verdadeira intenção de construir uma relação. Existe o “love bombing”, em que demonstrações intensas de afeto e idealização surgem muito cedo, sendo posteriormente substituídas por afastamento, manipulação ou controlo. Existem perfis falsos.

Mentiras. Jogos de poder. Ambiguidade constante. Mudanças repentinas de comportamento. Para alguém cuja forma de compreender o mundo assenta frequentemente na coerência, na lógica e na previsibilidade, este ambiente pode ser extraordinariamente desgastante. Não é raro que uma pessoa autista tente compreender racionalmente aquilo que, na realidade, nunca teve uma explicação racional.


“Fico horas a tentar perceber onde errei.”


“Ela respondeu-me durante duas semanas. Parecia interessada. Falávamos todos os dias. Eu comecei a sentir que finalmente alguém gostava de conversar comigo. Depois deixou simplesmente de responder. Nem um adeus. Passei dias a reler todas as mensagens para descobrir onde tinha cometido um erro. Ainda hoje não sei.”


“Nunca sei quando alguém está realmente interessado.”


“Às vezes dizem que sou querido, simpático e diferente. Eu penso que gostam de mim. Depois percebo que afinal estavam apenas a ser educados. Outras vezes acontece exatamente o contrário. Só meses depois descubro que alguém estava interessado em mim e eu nunca percebi.”


“Canso-me.”


“Toda a gente diz que basta ser eu próprio. Mas quando sou completamente transparente dizem que sou intenso. Quando tento moderar aquilo que digo sinto que estou a representar uma personagem. Ao fim de algum tempo fico simplesmente cansado.”


Quando revelar o diagnóstico?


Uma das decisões mais difíceis para muitos adultos autistas prende-se com o momento da revelação do diagnóstico. Será melhor dizer logo no perfil? Esperar pelo primeiro encontro?Contar apenas quando existir confiança? Não existe uma resposta universal. Algumas pessoas relatam que mencionar o autismo desde o início funciona como um filtro saudável. Quem reage com preconceito provavelmente não seria um parceiro compatível. Outras preferem que a pessoa conheça primeiro quem são antes de associar a sua identidade a um diagnóstico frequentemente rodeado de estereótipos. Ambas as estratégias podem resultar.

Ambas envolvem riscos. Ambas exigem coragem.


Uma vulnerabilidade frequentemente invisível


Existe outro aspeto menos discutido. Diversos estudos sugerem que adultos autistas apresentam maior vulnerabilidade a relações abusivas, manipulação emocional, coerção e exploração. Não porque sejam ingénuos. Nem porque sejam incapazes de compreender o comportamento humano. Mas porque frequentemente partem do princípio de que os outros comunicam com a mesma honestidade que eles próprios utilizam. Quando alguém diz “confia em mim”, muitas pessoas autistas tendem a acreditar. Quando alguém promete voltar a contactar, esperam que isso aconteça. Quando alguém afirma gostar delas, assumem que essas palavras correspondem ao que realmente sente. Infelizmente, nem sempre é assim.


O peso invisível da rejeição repetida


Todas as pessoas experienciam rejeição. Mas, para muitos adultos autistas, a rejeição não surge isoladamente. Acumula-se. Começa na infância. Continua na adolescência. Repete-se nas amizades. Repete-se nos contextos profissionais. Repete-se, muitas vezes, na procura de relações amorosas. Cada silêncio recebido numa aplicação de encontros não representa apenas uma conversa interrompida. Pode ativar décadas de experiências anteriores de exclusão, incompreensão e isolamento. É por isso que aquilo que para uma pessoa pode parecer um simples desaparecimento digital pode, para outra, transformar-se numa confirmação dolorosa da ideia de que nunca será suficientemente boa para alguém.


O que poderia tornar estas plataformas mais inclusivas?


Os próprios adultos autistas têm sugerido mudanças concretas. Perfis que permitam descrever necessidades sensoriais, formas preferenciais de comunicação e expectativas relacionais. Guias simples sobre comunicação respeitosa. Ferramentas para reduzir comportamentos abusivos. Maior transparência sobre intenções relacionais. Espaços que valorizem interesses partilhados em vez de apenas fotografias. Pequenas alterações poderiam reduzir significativamente a ansiedade, aumentar a sensação de segurança e favorecer ligações mais autênticas.


Talvez o problema nunca tenha sido o cowboy


Talvez Eduardo tenha razão. As relações amorosas podem parecer um filme de cowboys. Mas talvez o verdadeiro problema nunca tenha sido o Velho Oeste. Talvez tenha sido termos ensinado demasiadas pessoas a disparar antes de escutar. A desaparecer antes de explicar.

A interpretar autenticidade como estranheza. A confundir vulnerabilidade com fraqueza. As pessoas autistas não procuram um amor perfeito. Procuram algo muito mais simples. Alguém que, em vez de sacar primeiro da arma, tenha curiosidade suficiente para se sentar ao lado da fogueira. Porque, no fim de contas, o amor nunca deveria ser uma coboiada. Deveria ser um lugar onde finalmente deixamos de precisar de usar armadura.


“Passei anos a tentar parecer misterioso porque diziam que isso era atraente. Descobri que representar um mistério é muito mais cansativo do que ser transparente.”


“Ao fim do décimo perfil deixo de conseguir distinguir pessoas. Ao fim da vigésima conversa já respondo quase automaticamente. Ao fim do terceiro ghosting naquela semana começo a perguntar-me se ainda vale a pena voltar a instalar a aplicação.”


“Há pessoas que entram na nossa vida como pistoleiros. Outras chegam como quem acende uma fogueira. Não fazem barulho. Não prometem salvar-nos. Apenas ficam. E, pela primeira vez, percebemos que afinal nem todas as cidades do Velho Oeste foram construídas para a guerra.”


Se numa próxima visita ao "Oeste" achar por bem levar algumas ideias para fazer uma melhor caminhada considere as seguintes ideias.


Manual de sobrevivência para uma coboiada romântica


Nem toda a rapidez significa amor.


Quem demonstra enorme intensidade nas primeiras horas pode estar genuinamente entusiasmado, mas também pode estar a criar uma ligação artificialmente acelerada. Relações saudáveis constroem confiança ao longo do tempo.


Quem desaparece sem explicação também comunica.


O silêncio pode ser profundamente doloroso, sobretudo para quem procura compreender o que aconteceu. Ainda assim, o ghosting transmite uma mensagem importante: aquela pessoa não conseguiu comunicar consigo de forma respeitosa. Isso diz mais sobre ela do que sobre o seu valor.


Não interprete toda a ambiguidade como culpa sua.


Muitas pessoas neurotípicas também têm dificuldade em compreender o mundo dos encontros atuais. Nem todos os comportamentos ambíguos escondem um erro seu.


Não esconda indefinidamente quem é.


O masking pode facilitar um primeiro encontro, mas nenhuma relação consegue crescer sobre uma personagem mantida durante meses. A verdadeira intimidade começa quando já não precisamos de representar.


Confie mais em padrões do que em palavras.


Palavras emocionam. Padrões protegem. Quem diz que gosta de si mas desaparece repetidamente está a mostrar um comportamento mais fiável do que qualquer declaração.


Não aceite menos respeito apenas porque tem medo de voltar à solidão.


A necessidade de pertença nunca deve justificar relações onde exista manipulação, humilhação ou controlo.



“Voltei a perguntar-lhe se ainda acreditava no amor.” “Claro que acredito”, respondeu imediatamente. “Então porque continua a chamar-lhe uma coboiada?” Eduardo ficou alguns segundos em silêncio. “Porque continuo a entrar na cidade.” Talvez seja essa a maior prova de coragem. Não deixar de acreditar que, algures entre tanto pó, tanto ruído e tantos tiros perdidos, existe alguém que também procura apenas um lugar tranquilo onde possa finalmente pousar as armas.



 
 
 

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