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Message in a bottle

Não sei se vais acreditar mas foi o meu alcoolismo que me trouxe até aqui, diz Rafaela (nome fictício). Apesar de não parecer, Rafaela é uma mulher jovem. Os seus consumos, seja de álcool, mas também de cannabis e esporadicamente de cocaína, explicam o resto. Já não me recordo em que idade é que comecei a beber, refere. A minha vida nunca foi fácil, continua. Se queres saber, a frase que acabei de dizer é o que as pessoas chamam de frase feita. Na verdade, não sei o que é uma vida fácil, para dizer que a minha nunca o foi. Mas sei que todos os dias da minha vida foram mergulhados em grande sofrimento, continua. Ter começado a beber nunca foi difícil. Em minha casa sempre houve álcool à disposição. Além de haver exemplos do que o álcool é capaz de fazer. O meu pai foi exemplo disso. Ou entrava em casa já alcoolizado ou acabava por ficar. Nunca foi agressivo ou coisa semelhante. Bebia até não conseguir mais e depois adormecia. Nunca vi a minha mãe beber. Na verdade, nunca vi a minha mãe a fazer nada. Limitava-se a estar. Talvez por isso depois do meu pai ter morrido por complicações hepáticas devido ao consumo de álcool ela suicidou-se. É como se a sua vida apenas fizesse sentido daquela forma. Não sei se o que estou a dizer faz algum sentido, mas são algumas das coisas que fui pensando ao longo dos anos e apontei neste cadernos, diz Rafaela. Bebia antes de ir para a escola, partilha. Parecia-me a única forma de conseguir ir, acrescenta. Mais de metade daquilo que os meus colegas faziam ou diziam parecia-me estranho. Além de não compreender muitas das coisas. Perguntava-me como é que eu poderia ser como eles. Em casa pensava em como haveria de fazer, mas depois quando chegava à escola havia sempre qualquer coisa que acontecia diferente e já não sabia como fazer. Naquele primeiro dia em que bebi antes de ir para a escola na verdade nem teve nada a ver com isto. Tinha uma grande dor de cabeça e não havia nada em casa para aliviar. A minha mãe costumava dizer, do pouco que se lhe ouvia dizer, que o meu pai alivia muito com a bebida. Talvez porque tenha tido curiosidade em saber se era verdade, ou se porque a dor de cabeça era tão grande que não sabia o que fazer. O certo é que acabei por beber alguns goles de uma garrafa e antes mesmo de chegar à escola estava bem melhor. A sensação da dor de cabeça tinha desaparecido completamente. E além disso, muitas outras coisas também. A sensação de ambivalência ao chegar à entrada da escola também tinha desaparecido. E a minha única amiga tinha dito que nunca me tinha visto a sorrir. Curiosamente, nem eu. Fui até à casa de banho para ver. Nem eu acreditava. E sim, estava a sorrir, era estranho. Nunca tinha sorrido. Na verdade, a minha família estava sempre a dizer que eu não sorria por nada. Até os meus professores o diziam quando me entregavam uma nota alta. Tinha algumas. Não em todas as disciplinas, apenas naquelas que gostava. Nunca me fez sentido eles darem-me os parabéns. Sempre foi algo que fiz sem algum tipo de intenção. Além disso, nunca ouvi os meus professores a dizerem essas mesmas coisas aos colegas que não tinham notas médias ou notas mais baixas. Por isso, não me fazia sentido que o fizessem comigo. Mas naquele dia isso parecia não me importar. Não fosse o efeito ter passado ao fim de pouco tempo e eu diria que aquele tinha sido o melhor dia da minha vida. Voltei a experimentar o mesmo no dia seguinte. Precisava de ter a certeza. Não queria fazer nada de errado. O dia a seguir correu igualmente bem. Acabei por conseguir falar com a amiga da minha única amiga. A sensação foi como a de ter visto o meu primeiro sorriso ao espelho - estranho mas bom. No dia seguinte voltei a fazer o mesmo. E assim sucessivamente. A partir de determinada altura deixei de pensar em fazê-lo. Simplesmente fazia-o. Já não me lembro quando é que isso aconteceu. Aconteceu o mesmo com os sorrisos. Deixei de perceber se tinha voltado a sorrir. Mas parecia haver algo mais forte que me levava a continuar. Além de eu também não saber o que fazer para parar. Ou como pedir ajuda a alguém para o fazer. Além de que nunca tinha pedido ajuda a ninguém e como tal não sabia como o fazer. As coisas ficaram de tal forma que ao fim de algum tempo a minha única amiga deixou de vir à escola e eu não tinha percebido. Quando perguntei a alguém disseram-me que ela tinha mudado no ano lectivo anterior. Não é nada que nunca me tivesse acontecido. Havia outras situações que também passavam determinado tempo e eu nem sequer percebia. Em relação aos consumos de álcool na escola as coisas estavam enquadradas. Havia mais colegas que consumiam. Conheci a maior parte deles. Muitos era parecidos comigo. Uns proscritos. Pessoas estranhas. As coisas foram acontecendo. As escola foi continuando. Os resultados escolares por vezes não eram grande coisa, mas as pessoas pareciam não se importar, dentro ou fora de casa. Mais tarde fui para a Universidade. Não sei bem porquê. Mas atendendo a que não sabia o que fazer em relação à minha vida, achei que seria o melhor a fazer. Quando lá chegue conheci outras pessoas e com elas conheci outras substâncias. Mas grande parte das coisas não eram assim tão diferentes. Na verdade, continuava a haver muitos proscritos e pessoas estranhas. A diferença é que pareciam ter mais anos de tudo isso. O resto parecia-me muito igual. E isso para mim era bom. Assim eu sabia com o que contar. A rotina parecia ser minha mãe e meu pai. A rotina é quem tomava conta de mim. E eu simplesmente obedecia à rotina. Curiosamente, a partir de algum momento da minha vida comecei a questionar-me porque é que eu não ficava como as outras pessoas que também bebiam e consumiam. Parecia que eles ficavam sempre pior do que eu. Fosse quando bebiam mas também nos dias a seguir. É como se a sua natureza fosse diferente da minha. Ainda que andássemos todos a fugir de algo ou de alguém. Ainda que tenha começado a perceber a partir de determinada altura que eu não andava a fugir de nada ou de ninguém. Mas andava sim à procura de algo, mais precisamente de mim mesma. Chegue a fazer duas tentativas para deixar de beber e de consumir cannabis. Simplesmente não resultou. A forma como queriam que eu fizesse as coisas não parecia funcionar com a minha forma de ser. E isso era com isto e com tudo o resto da minha vida. Além de ter sentido que perdia o beneficio secundário dos consumos. Depressa voltei. Afinal conseguia trabalhar e fazer o resto da minha vida, pessoal, social, amorosa e sexual. Mas como descobri em muitas das mulheres com quem fui falando ao longo destes anos todos, parecia sempre existir uma falha. A sensação de faltar algo, e no meu caso especifico de haver muitas coisas que continuavam sem fazer sentido, estava sempre presente. No caso de uma boa parte das mulheres percebi que elas se resignavam. Assim como a minha mãe. Talvez eu fosse mesmo igual ao meu pai. Ficaria à espera que a morte me levasse. A morte ainda tarda, mas os problemas de saúde começaram a aparecer. E as minhas dificuldades em lidar com as questões de saúde vieram todas ao de cima. E quando fui confrontada com aquele médico na consulta não consegui não lhe dizer tudo aquilo que fui sentindo. E foi então que ele me encaminhou para a sua consulta, disse-me Rafaela.


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