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Love is in the hair

Não, o titulo não está errado! Love is in the hair (O amor está no cabelo) e não Love is in the air! (O amor está no ar) Porquê!? Por uma questão de amor. Tudo por uma questão de amor, não fosse o São Valentim esta quarta-feira!


Custa-me saber que ainda haja pessoas que se espantam por saber que há pessoas autistas que amam e que querem ser amadas! Ou que desejem ter relações amorosas, casuais ou não, sexuais ou não, ou apenas relações, assexuais, (a)românticas, ou aquilo que entenderem e que seja significativo para si e para a sua forma de pensar e sentir.


E ainda que se possa saber que nas pessoas autistas o processamento da informação acerca de si, do outro e da relação com o ambiente apresente determinadas características. Pensar que as pessoas autistas não amam, não desejam amar ou não sabem amar, é partir de um principio de que estas pessoas se encontram incapacitadas de sentir algum tipo de atração emocional e/ou física por outra pessoa e que as leve a escolher estar um determinado tempo em uma relação com essa pessoa.


Nunca tinha encontrado ninguém com quem fosse possível falar? diz Raul (nome fictício). Na verdade nunca encontrei verdadeiramente ninguém com quem quisesse falar, continua. Não que não goste das pessoas ou outra coisa parecida, acrescenta. Mas simplesmente não me estimula ou entusiasma, refere. Mas quando conheci a semana passada a Clara (nome fictício) senti algo completamente diferente! diz. Não sei o quê, ou que nome lhe dar. Não vou dizer que são borboletas no estomago, até porque a ideia em si me parece absurda só de pensar, diz. Tenho a noção de que existem transformações neuroquímicas na minha pessoa! acrescenta. Até porque já me interesse por esses aspectos da neurologia do comportamento humano e estudei mais afincadamente durante dois anos! partilha.


Conheci a Clara na internet, num fórum sobre relações internacionais, diz. É um outro tema que me interessa muito, acrescenta. A maneira como ela explicou as relações bilaterais entre os povos foi única. Durante semanas pensei em como a abordar e se não tivesse sido um cabelo meu ter caído sobre o teclado do Pc e eu o ter tentado tirar imediatamente, não lhe teria enviado aquela mensagem que estava na caixa de texto há duas semanas para lhe enviar. Cliquei no Enter sem querer e a mensagem segui imediatamente para ela. Só percebi isso quando ela respondeu e eu nem tinha percebido e pensei que ela estava a meter conversa comigo! Quando descobri que tinha sido eu a enviar-lhe mensagem fiquei alguns segundos sem respirar, tive de sair de casa e apenas lhe voltei a responder no dia seguinte. Durante dois dias ela não dizia nada. Pensei que mais valia deixar de pensar nela e na possibilidade de vir a acontecer alguma coisa. Mas quando li uns dias depois "Não concordo absolutamente em nada com o que dizes e penso inclusive que é um absurdo alguém pensar daquela forma, até porque não há sustentação alguma que possa fazer com que alguém afirme isso e por isso és muito corajoso em o ter feito! dizia. Quando li aquilo já nem consegui ler as duas outras páginas A4 que ela tinha usado para continuar a responder à minha afirmação. O facto de ela ter dito que eu era corajoso prendeu-me completamente a atenção. Até porque nunca ninguém o tinha dito em relação à minha pessoa! diz.


Nem sei quantas horas mais ficamos a conversar, mas isso também não interessava. Não era a primeira vez que não dormia ou comia para ficar a fazer algo. E quando ela disse se podíamos continuar a conversa à tarde em minha casa confesso que nem sequer pensei quando lhe disse que sim, mas disse-o. Não me lembrava ao ponto de quando a campainha tocou às 15h47 não fazia a mínima ideia de quem poderia ser e quando cheguei à porta perguntei quem era. E qual não foi o meu espanto quando ela disse - É a Clara! Quem pensavas que fosse, Boutros-Ghali? perguntou-me. Desatei-me a rir enquanto lhe abri a porta. Ficamos quase duas horas a falar sobre aquele meu esquecimento e que na verdade não é um esquecimento, mas é o meu défice de atenção associado ao meu autismo que me leva àquelas situações. Para ela pouco lhe interessava, ela queria era ouvir-me. E isso também nunca tinha acontecido daquela forma, refere.


Não sei como é que tudo isto aconteceu! diz Raul. E não, não é um cliché. Provavelmente irei estar os próximos anos a pensar nisso. Mas também vos digo que não gostei nada quando de manhã ao chegar à casa de banho vi que ela tinha feito um coração no vidro do lavatório. Não me consegui controlar. Foi imediato! Comecei logo a gritar e a andar de um lado para o outro. Aquilo não podia ficar assim. Só ao fim de quase duas horas é que percebi que a Clara já não estava lá em casa. Talvez tenha sido melhor assim. Não sei quando é que voltarei a falar com ela, mas entretanto tinha aquilo tudo para arrumar! conclui.


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