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Liberdade de ser autista

Hoje comemora-se o Dia da Liberdade em Portugal. Hoje, 25 de Abril, comemoram-se 47 anos da Democracia e da libertação de uma ditadura. Há dois meses completei 50 anos, mais precisamente no dia 13 de fevereiro. Nasci em 1971. Chamo-me Carlos (nome fictício). Sou autista. Sempre o fui. Ainda que a maior parte do tempo o tenha vivido em clandestinidade. No dia de hoje são muitas as iniciativas realizadas para celebrar a liberdade. E ainda que de uma forma mais contida devido à situação de pandemia vivida são diversas as formas que as pessoas encontram para assinalar a data. Se não podem fazer manifestações optam por passeios organizados. Ou então participam em colóquios, ciclos de cinema ou conferências. Desde há 47 anos para cá que as pessoas deixaram de ter receio de demonstrar a sua concordância com os valores de Abril. Independentemente da sua ideologia política, as pessoas sentem-se à vontade em poder celebrar aquilo que o 25 de Abril representa. Não estão à espera de represálias ou de serem incompreendidos por esse facto. Ou de serem olhados de lado e com alguma desconfiança por neste dia irem ao hipermercado fazerem compras com um cravo vermelho no bolso da camisa. E de serem gozados por gritar palavras de ordem na rua - "25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!". Há dez anos atrás descobri que sou autista. Lutei muito por isso. Lutei a vida inteira. Tal como muitos outros o fizeram pela liberdade. Eu lutei para saber quem eu sou. E por que é que faço as coisas desta ou daquela maneira. E por que os outros parecem pensar de uma forma que a mim me faz alguma confusão. Mesmo nos momentos mais difíceis acreditei em mim. Em quem eu era. E porque escolhia ser assim. Não foi fácil, não pensem. Ser quem eu sou ainda que em muitos momentos apenas eu próprio me compreendia. E quando muitos outros diziam que eu não devia ser desta ou daquela maneira. Ou até mesmo de dizerem que eu era arrogante, egoísta, anti-social, mal educado, desligado, desatento, desinteressado, egocêntrico. Como vêm diziam muita coisa de mim. Tal como durante muito tempo disseram coisas semelhantes sobre os fascistas. Certa vez, também numa época em que se celebrava o 25 de Abril, comentei num grupo que compreendia como é que eles, os fascistas, se poderiam sentir por serem chamados de tal ou de algo semelhante. Ninguém compreendeu. Nem a parte referente aos fascistas, nem a mim próprio. Inclusive, houve até quem pensasse que eu próprio fosse fascista. Isso mostra bem o nível de desconhecimento que as pessoas têm acerca de mim. Por isso sempre gostei mais dos animais. Além de livres, pelo menos a maior parte deles, parecem conhecer-nos. Talvez por isso muitos animais não se aproximem de muitas pessoas. No meu caso especifico gosto de pássaros. Sempre gostei. Toda a complexidade do seu comportamento, mesmo para além da sua capacidade de voar. Porque essa, nós humanos parece que apenas a sabemos invejar. Mas depois não paramos de os enxotar quando eles nos sujam o parapeito da janela. Talvez os pássaros façam isso para se manifestar negativamente quanto à sujidade que nós próprios produzimos. Nunca ninguém pensou nisso. Até porque acham que somos seres superiores. Um pássaro nunca se achou tal. Mas não deixa de o parecer. Também por isso gosto tanto deles. Mas voltando ao assunto, até porque sinto que poderia continuar a falar de pássaros o texto inteiro. Ainda sobre a liberdade, como querem que eu me sinta livre quando durante tanto tempo me negaram saber quem eu era? Senti-me muitos anos como se me tivessem roubado a identidade. Pelo menos negaram-me. Mesmo quando eu próprio a procurei por minha iniciativa. Quiseram inclusive dar-me outra identidade. Ou melhor dizendo, outro diagnóstico. No meu caso específico, mais do o que um diagnóstico. Muitas vezes duvidei de mim próprio. Do que sentia ou até mesmo pensava. Cheguei a pensar que na realidade estaria apenas louco. Não um qualquer desses diagnósticos que vêm escritos em livros. Apenas louco. Também duvidei do sistema. Ainda hoje. Como não duvidar? Ninguém se parece entender sobre o que alguém pode ou não pode ser. Uns dizem uma coisa e outros dizem o seu contrário. E depois de ter descoberto que sou autista foi o processo de passar a sê-lo. Não para mim. Até porque eu sempre fui autista. Mas sim para os outros. Sim, porque também somos nós próprios sendo para os outros. Até eu que sou autista sei isso. E nesse campo já tive de tudo. Desde o clássico - mas tu não pareces autista. Ou o não sabia que os autistas fazem isto ou aquilo. Até aos que deixaram sequer de se aproximar por saberem que eu sou autista. Mal sabiam eles que eu já tinha tido toda uma vida de experiências negativas e que todas aquelas afirmações apenas confirmavam o que eu pensava das pessoas. Na escola e ainda que eu próprio não soubesse que era autistas, as pessoas já me tratavam dessa forma. Os meus colegas não me chamavam para brincar. E mesmo quando eu tinha alguma dificuldade em certas disciplinas tinha de esperar que um professor me ajudasse, porque os meus colegas não se aproximavam de mim. E o que dizer daqueles que quiseram tirar-me o autismo! Ou seja, tirar-me aquilo que eles entendiam que eu não devia fazer! Até os meus pais passavam tempos intermináveis a dizerem-me para não fazer isto ou aquilo. Não corras à volta. Não faças essas caras. Não fales dessa maneira. Olha-me na cara. As pessoas fazem ideia do que isso causa em nós? Do que nos magoa? E por falar em magoar, isso faz-me lembrar também a questão de as pessoas pensarem que os autistas não sentem! Muitas vezes pensei no que é que as pessoas têm na cabeça!? As coisas absurdas que elas pensam. Ou as coisas que nem sequer se questionam. Apenas assumem que as coisas são daquela forma. Que o autismo está visível na cara das pessoas. Ou que não olham, não amem ou sentem. E que não trabalham ou participam na comunidade. Ser isto ou aquilo. Sermos pessoas. Como é que poderíamos ser livres? Como é que poderia celebrar a liberdade? Para isso preciso de saber o que é ambas as coisas! Sendo que ambas estão relacionadas, ainda assim são diferentes. Sinto-me livre de ser quem sou e aceito-me. Mas não sinto que tenha liberdade. Porque essa é-me dada pelo outro. É como os pássaros. Eles são livres, mas podem não ter liberdade, dependendo do meu comportamento.


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