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It takes two to tango, and also for masking!!

É preciso dois para dançar o tango, mas também para a camuflagem social, diz o titulo do texto. Esta ideia de que numa interacção, seja social ou para dançar, não estamos sós (necessariamente) é importante. E no que diz respeito às questões da camuflagem social na esfera do autismo ainda mais. Isto porque se tem dito e pensado muito de que este fenómeno - camuflagem social, diz respeito exclusivamente às pessoas autistas e a algumas das suas características.


Contudo, são várias as pessoas autistas que perguntam onde é que fica a sua autenticidade enquanto pessoas, se há quem continue a dizer e pensar que as características da pessoa autista é olhada como algo a mudar. Ou seja, as características referentes à interacção e comunicação social, comportamentos repetitivos e interesses, aspectos sensoriais, etc., são comportamentos e características a mudar ou moldar para se poder adaptar a um funcionamento neurotipico. E se as pessoas sentem ou têm a percepção de que não poderão ser elas próprias, não será esperado que estas mesmas pessoas, sejam autistas ou não, se procurem adaptar e até mesmo camuflar? E se elas procuram uma resposta na camuflagem social para continuar a interagir e a fazer a sua vida, será fundamental perceber algumas das razões que as leva a isso, mas também compreender o significado que representa para si. E de qual a participação das pessoas não autistas na interacção com as pessoas autistas e a representação que fazem da pessoa autista e como isso pode contribuir para a camuflagem social.


É importante poder pensar que há várias etapas pelas quais a pessoa autista passa, seja desde o facto de ter ficado a saber do seu diagnóstico recentemente, mas também de passar por um processo de aceitação em relação ao mesmo. Até porque a pessoa necessita de melhor se compreender para poder ser ela própria. E por isso ouvimos com alguma frequência frases como, Comecei a aceitar-me mais, o que se traduziu em permitir-me ser mais eu própria! ou então, Desde o meu diagnóstico, sinto que não sou mau, nem estúpido, nem um extraterrestre, por isso devo ser eu mesmo! Mas também é verdade que ouvimos outras frases e que parecem representar esta responsabilidade conjunta no sermos autênticos e de usar ou não a camuflagem social. Por exemplo, O problema é que estou tão habituado a fazer o que os outros querem que quase sempre alinho com o que os outros querem. Se eles começassem a pensar em mim e no que eu quero, ficaria perdido, pois já não sei o que quero!


É muito importante podermos pensar no que é que uns e outros, de forma mais ou menos directa faz passar enquanto informação acerca do autismo e da pessoa autista. Seja nas representações sociais que vão sendo apresentadas na comunicação social, filmes/séries ou nas nossas conversas uns com os outros, mas também na própria investigação cientifica.


O autismo pode ser conceptualizado como uma identidade estigmatizada que, à semelhança de algumas outras identidades estigmatizadas, existe num continuum que vai do visível ao ocultável, dependendo do perfil particular de cada indivíduo. As estratégias específicas de camuflagem utilizadas pelas pessoas autistas são diversas, e os exemplos podem passar pela supressão de movimentos repetitivos das mãos, forçar expressões faciais, evitar a discussão de interesses especializados, utilizar guiões de conversação e fingir a compreensão social. As estratégias de camuflagem podem funcionar de forma diferente nas interacções sociais, por exemplo, esconder as características autistas (mascaramento) ou compensando as dificuldades sociais relacionadas com o autismo (compensação). E por isso é observado que as pessoas autistas que não revelaram a sua identidade autista podem utilizar estratégias de camuflagem para passarem por não autistas, enquanto as pessoas autistas que revelaram a sua identidade autista podem utilizar a camuflagem para minimizar as suas diferenças autistas ou reduzir a visibilidade das suas necessidades autistas.


A camuflagem está muitas vezes associada a sentimentos subjectivos de inautenticidade. Por exemplo, algumas pessoas autistas descrevem diferenças entre os seus verdadeiros comportamentos e os comportamentos de camuflagem, comparando estes últimos à representação de um papel ou ao desempenho. Em outras situações sociais, as pessoas autistas sentem pressão para modificar o seu comportamento social inato (ou seja, camuflagem), enquanto noutras situações sociais se sentem livres para se envolverem de forma autêntica ou verdadeira para si próprias. Ao serem autênticas, a pessoa está a comportar-se intencionalmente de uma forma que se alinha com o seu verdadeiro eu. Neste contexto, o verdadeiro eu de uma pessoa reflecte as suas tendências e inclinações inatas, conforme demonstrado através das suas crenças, valores, motivos, necessidades, preferências, sentimentos, auto-perceção e visão do mundo. Algumas pessoas autistas associam a camuflagem a sentimentos subjectivos de inautenticidade, juntamente com emoções e experiências negativas. Até porque sofrem regularmente desvalorização social em múltiplos contextos interpessoais. Estes grupos são frequentemente obrigados a ocultar e/ou a fazer uma apresentação superficial do seu verdadeiro "eu", para garantir a aceitação social e evitar estereótipos, preconceitos e discriminação. Em contrapartida, algumas pessoas autistas associam comportamentos de socialização caracterizados por uma redução ou ausência de camuflagem a sentimentos subjectivos de autenticidade, bem como a emoções e experiências positivas.


É fundamental pensarmos na responsabilidade de cada um de nós e nas implicações que isso terá no nosso comportamento, mas também dos outros. E se atendermos ao estigma associado ao diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, é esperado que de parte a parte, entre neurotipicos e neurodivergentes vão existindo comportamentos e atitudes que vão promovendo a existência de comportamentos de camuflagem social. A pressão social para a uniformização do comportamento social mais colado ao que se pensa ser um perfil neurotipico representa um peso demasiado grande para as pessoas neurodivergentes. E principalmente para aquelas que ainda estão no inicio da sua compreensão e aceitação do diagnóstico.


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