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Houston, we still have a problem

A frase conhecida de muitos é ligeiramente diferente, eu sei (Houston, we have a problem!). Mas tal como a NASA tem tido dificuldade em ter uma nova missão de sucesso como no passado. Também as pessoas autistas continuam a ter dificuldades semelhantes na "rampa de lançamento" para o mercado de trabalho e aqueles que já lá estão não deixam de sentir essas e outras dificuldades. E no dia de hoje em que se celebra o Dia Mundial de Prevenção e Segurança do Trabalho e tal como o Bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Francisco Miranda Rodrigues refere, "Segurança e saúde no trabalho também é bem-estar e produtividade". No último ano temos tido um aumento do teletrabalho. Não é novidade nenhuma para ninguém. Se há uns anos eram poucos aqueles que o tinham experimentado, agora mais parece um cliché. Entretanto, quer ao longo deste ano e talvez principalmente na última semana, tem havido um maior burburinho acerca do voltar ao local de trabalho. Uns e outros têm opinado acerca das suas sensibilidades entre o continuar em casa em teletrabalho e o regressar. Ouve-se muito sobre o desejo de voltar, nomeadamente de estar com os colegas. Mas também se ouve falar acerca de toda a ansiedade em voltar a fazer as coisas num contexto que já foi conhecido, mas que entretanto deixou de o ser de certa forma. No caso das pessoas autistas tem havido igual divisão, ainda que com um número significativo de pessoas a pender para o ficar em casa. E não desatem a dizer que é compreensível porque são autistas e como tal não gostam de interagir com pessoas! É porque além de não ser verdade para um número significativo de pessoas, deixa de fora muitas das outras coisas que são importantes falar acerca da adaptação dos locais de trabalho para as pessoas autistas e não só. Muitos de nós gostam de estar em casa porque sentem que é um lugar conhecido e de certa forma confortável. E poder trabalhar num contexto que resume essas mesmas duas características parece excelente para nos sentirmos bem e produzirmos melhor. Mas muitas vezes os locais de trabalho não são pensados para as pessoas e com as pessoas. Ou então são apenas pensados para as pessoas. E de uma forma geral englobam todas as pessoas dentro de um cluster único. Desrespeitando a diversidade de todos os demais, partindo do principio que as pessoas funcionam e processam a informação de uma forma muito similar e quem não o fizer terá de ter condições para se adaptar. A questão é que há muito que se sabe que há uma grande heterogeneidade no funcionamento das pessoas. A sua neurologia apresenta configurações diferentes e seja ao nível do processamento da informação e sensorial, mas também ao nível da realização de processos de trabalho, as pessoas funcionam diferente. E quando ainda assim têm de fazer as coisas, mesmo que se consigam adaptar ou tentar fazê-lo, é sempre com algum ou maior custo e isso tem implicações na produtividade e certamente no bem-estar da pessoa. E continuar a ouvir que não se fazem as adaptações necessárias porque isso vai tornar-se mais dispendioso deixou de ser uma resposta viável e está cada vez mais dentro daquilo que pode ser considerado um insulto à inteligência e dignidade de qualquer pessoa. Não vejo ninguém a negar-se de forma directa a construir de raiz ou implementar um rampa de acesso para uma cadeira de rodas ou para uma pessoa com dificuldade na acessibilidade e mobilidade. E se vierem dizer que as características da Perturbação do Espectro do Autismo são invisíveis e como tal não se pode fazer essas implementações tenho duas coisas a dizer. A primeira é que é verdade que as características não são visíveis nesse sentido. No entanto, é sabido quais as características que estão presentes em larga maioria nas pessoas autistas e quando se sabem que se tem um trabalhador com estas características continua a ser difícil de as fazer. Além disso, penso que será importante poder ter os locais preparados para receber as pessoas, independentemente de haverem naquele momento não haver pessoas contratadas com aquela condição. Até porque é preciso criar condições para que as pessoas se possam sentir acolhidas e que as motive a querer ingressar no mercado de trabalho. Sendo que as implementações a fazer são para todos. Já o tenho dito e não sou o único que poder atender às condições de luminância, ruído, condições ergonómicas dos locais de trabalho e de processos de trabalho mais adequados ao perfil de funcionamento do trabalho são fundamentais. Já para não dizer que muitas das orientações em relação a estas questões constam elas próprias em legislação própria para as questões de Higiene, Segurança e Saúde no Trabalho. Por isso, não se trata de harmonizar o local de trabalho para acolher as pessoas autistas. Mas sim, harmonizar o local de trabalho para que todos os trabalhadores possam sentir-se acolhidos e com isso atinjam uma melhor Qualidade de Vida e bem-estar e um maior nível de produtividade. A questão da motivação do trabalhador é fundamental de poder continuar a ser acompanhada ao longo do seu tempo na Organização. E isso aplica-se de igual modo ao trabalhador autista, necessitando de ser adaptado às suas características. Ainda que muitas vezes as questões não sejam assim tão diferentes daquilo que muitos outros trabalhadores se queixam. Por exemplo, estar a fazer sempre a mesma coisa de forma mais ou menos repetida. E não me venham dizer que as pessoas autistas gostam disso. Haverá certamente que goste. Mas serão essas pessoas, não as pessoas autistas como um todo. As pessoas autistas também são ambiciosas e querem sentir que estão a progredir. Além de haver determinadas pessoas autistas que tenham um determinado perfil de funcionamento em que o facto de ter de estar a fazer coisas diferentes e que as desafiem constantemente é uma necessidade ainda maior. E haverá certamente quem possa gostar de fazer tarefas repetitivas, ou que seja certamente familiares. O facto de haver cada vez mais presente nas Organizações as avaliações de desempenho é uma outra questão. Apesar de ser um instrumento importante, este precisa de ser adaptado. Até porque em situações onde é conhecido que tem integrado na equipa um trabalhador autista, continuam a devolver a este no final da avaliação que a área negativa na sua avaliação é a relação interpessoal com os colegas e a comunicação. E como tal a sua avaliação vai ficar prejudicada devido a uma característica sua. Como que se a mesma fosse da culpa da pessoa e como tal a pessoa terá de a mudar e adaptar-se à mesma. Seria como pensar que a pessoa que se desloca em cadeira de rodas ao fim de algum tempo no trabalho começaria a treinar os membros inferiores para poder mudar e voltar a andar. Perdoem-me a comparação, mas por vezes não tenho muita paciência para estas falsas consciencializações. Ou seja, eu compreendo a necessidade da pessoa, mas será importante que ela se possa adaptar!?! Precisamos todos de mudar a forma de pensar sobre tudo isto. E volto a sublinhar que isso não tem a ver apenas com as pessoas autistas. É uma forma de podermos todos participar para a melhoria da Qualidade de Vida e bem-estar dos trabalhadores e da melhoria ao nível da produtividade.


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